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Artistas trans fazem manifestação artística em que questionam espetáculo Cabaré Trans-Poético, em SP

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Marina Mateus, Renata Carvalho, Leona Jhovs e Fernanda Custódio

Por Neto Lucon
Fotos: Bernoch

Artistas trans e travestis, que são integrantes do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans) fizeram na quinta-feira (23), às 21h, uma manifestação no SESC Pompeia. De maneira artística, elas se posicionaram contra as declarações e argumentos do diretor cis Aderbal Freire-Filho sobre o espetáculo Cabaré Transpoético, encenado pelas atrizes cisgêneras Beatriz Azevedo e Lucélia Santos, e de utilizar da palavra “trans”.

Em entrevista ao Jornal do Brasil, no dia 13 de maio, Aderbal disse que “estamos em um momento em que somos todos trans”, “se valendo do poder transformista e transformador para enfrentar o momento político de retrocesso”. Argumentou que a “poesia é trans, pois é revolução”, e que seu espetáculo “é trans-teatral, trans-musical,- trans-imagético, além de transpoético”. O espetáculo traz diversas linguagens artísticas, com canções de Beatriz e poemas do novo livro Abracadabra.

Para as artistas trans, a utilização da palavra “trans” é usada apenas para dar “atualidade ao trabalho e potência política” e, ao mesmo tempo, não a valida com a presença de pessoas trans em cena, na equipe ou no pensamento do projeto, já que todo o trabalho é feito por pessoas cisgêneras. Em postagem no Facebook, a atriz Marina Matheus – que é travesti – declarou que “se dizer trans assim é fácil, quero ver se autodeclarar e viver essa realidade na pele”. Marina salientou que, enquanto artistas trans são boicotadas em espaços, mostras e editais, artistas cis se apropriam da causa para seus trabalhos.

Em outro post, a dramaturga, diretora e atriz Luh Maza – que é mulher trans  – diz que é difícil acreditar que a palavra “trans” tenha sido utilizada somente como prefixo da língua, uma vez que o diretor diz “somos todos trans”. “Trans é um “termo guarda-chuva” para se referir aos corpos transexuais, transgêneros e travestis. É preciso esclarecer que cisgêneros não são trans ou que brancos não são negros e assim por diante. Empatia e alteridade são bem vindas em aliados, mas ‘somos todos trans’ usurpa e esvazia nossas identidades e toda a luta que travamos por sermos quem somos”. Ela aponta ainda que no último ano protagonizou pelo Satyros uma peça com nome semelhante: Cabaré Transperipatético, com elenco formado apenas por artistas trans.

Luh frisa que não é uma luta poética ou artística, mas uma luta por sobrevivência. “Enquanto um artista cisgênero renomado achar que está fazendo um bem em dizer que é trans, trans que não precisam dizer que são trans estão se prostituindo, sendo mortas e totalmente invisibilizadas. Então, caríssimo Freire-Filho: não, o senhor não é trans, suas atrizes não são trans, assim como eu não posso dizer: ‘somos todos judeus’ É, no mínimo, uma alienação à História e ao problema real. Isso vindo de quem diz que o espetáculo pretende ‘enfrentar o retrocesso social, ameaça às artes, à cultura e ao saber”, continua.

A MANIFESTAÇÃO

Na manifestação no SESC Pompéia, onde o espetáculo está em cartaz até o dia 26, estiveram presentes Fernanda Custódio, Leona Jhovs, Marina Matheus, Renata Carvalho e Bernardo Enoch. Antes do espetáculo, elas leram ao público poemas de autores trans, bem como Anderson Herzer (1962-1982), Ave Terrena Alves, Dodi Leal, Marina Leo Araruna e de outras artistas do grupo Transcritas Coletivas, TransSarau e do Cursinho Popular Transformação.

No teatro, o grupo esteve na plateia com as bocas tapadas por esparadrapos e na testa a palavra “Trans”, de forma que tanto o público e as artistas em cena pudessem ver a manifestação artística e silenciosa.

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“Enquanto todes esperavam uma manifestação para nos chamarem novamente de violentas e bélicas, fomos na contra mão, com arte, pensamento, nossos corpos presentes e muita poesia de pessoas trans. Lemos para as pessoas individualmente com muita calma, nada que abalasse a fragilidade cisgênera. Com a palavra trans escrita na testa entramos no teatro e assistimos a peça em silêncio. Ao final saímos sem dizer nada. Foi uma manifestação silenciosa e poética”, declarou ao NLUCON a atriz Renata Carvalho, travesti que ficou conhecida pelo espetáculo “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu”, que sofreu tentativas de censura pelo Brasil.

Marina – que está no elenco da segunda e terceira temporada da série 3% (Netflix) e realiza o show TRAVA – diz que o público recebeu muito bem a manifestação, cuja performance segundo ela foi muito sutil e precisa. “O encontro com o público no saguão, enquanto líamos para eles poemas escritos por artistas trans foi lindo. Acho que eles começaram mesmo a se questionar sobre o que estava acontecendo quando dentro do teatro nós tapamos nossas bocas com esparadrapo e sentamos para assistir à peça, em silêncio. Ninguém se posicionou claramente sobre a performance, mas deu para perceber que captaram o contexto diante da nossa imagem/postura e da peça”, disse.

Segundo a atriz trans Leona Jhovs, faltou para a equipe do espetáculo entender que o discurso tem que ser de acordo com as construções artísticas. Caso contrário fica tudo raso e os questionamentos e apontamentos surgem, podendo criar constrangimentos contrários ou conflitantes. “Eles erram quando não entendem que a transfobia está intrínseca e institucionalizada e que nada nem nenhum currículo impede disso ser reproduzido. Perceber e assumir isso é o principal ponto de partida para o nosso progresso”.

Leona destaca ainda que a performance foi realizada para que, posteriormente, haja a possibilidade de diálogo com artistas, curadores e espaços acerca das invisibilizações e narrativas equivocadas sobre artistas e pessoas trans. “É exatamente isso que buscamos. A partir dessa troca poder aprofundar e desconstruir. É somente com diálogo e afeto que naturalizamos nossos corpos e deixamos de morrer. Sim, estamos falando de vidas de uma população que é assassinada e suicidada todos os dias nesse país que é o n°1 em casos como esses”.

O OUTRO LADO

Por meio de um e-mail enviado às artistas, e que foi autorizado pelo diretor a ser publicado no NLUCON, Aderbal declarou que, por não usar redes sociais, “não sabia da extensão dessa polêmica”. Contudo disse que terá escuta para ouvir os argumentos das artistas trans e que é solidário a luta. “Se me convencerem de ter cometido qualquer atitude errada, estarei absolutamente à vontade para assumir meu erro, corrig-lo e me desculpar. Apenas, como em qualquer troca de ideias, quero também ser escutado, ouvir e falar”.

Sobre as críticas, Aderbal afirma que Cabaré Transpoético não seria inspirado em Cabaré Transperipatético, uma vez que recebeu o convite para dirigir em março de 2018, anterior à estreia. E frisa que o título não se refere às pessoas trans, mas de uma poesia que é definida como transpoética.

“Não há qualquer apropriação, cópia, aproveitamento do título Cabaré Transperipatético pelo título Cabaré Transpoético. Assim como também são inteiramente diversos os temas dos dois espetáculos. Os estudos literários contemporâneos, considerando o advento das novas plataformas de leitura, falam da potencialização da poesia visual (de Appolinaire, dos concretistas, dos irmãos Campos, etc), e a associam a poesia virtual e eletrônica, com os leitores de telas de computador, os novos experimentalismos, etc. Já existe, inclusive, uma nova crítica que fala, expressamente, de uma poesia transpoética. É dessa transpoética que estamos perto, com a poesia no palco, ao mesmo tempo dita e escrita num telão”, escreveu.

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Aderbal Freire-Filho: “manifestações me parecem equivocadas”

O diretor declarou ainda que o conteúdo do espetáculo também não atravessa as vivências trans e que, quem assisti-lo, verá ao longo de uma hora, “duas atrizes e três músicos mostram canções e poemas que falam de direitos da mulher, das vítimas de rompimentos criminosos de barragens, de eleições fraudadas, das manipulações da grande mídia, de muitas questões políticas, de amor, mundo virtual, liberdade e utopia”. “De tal forma, que nenhum sinal houve de interesse específico do público transgenero pelo nosso Cabaré, a não ser essas manifestações, que repito, me parecem equivocadas” escreveu.

Ao comentar a declaração “somos todos trans”, Aderbal declarou que apesar de haver “a discussão sobre a realidade dos excluídos” e da “incapacidade de conhecer de fora” a dimensão dessas realidades, “não deve haver limites para a solidariedade, para a adesão e para a defesa de todos os excluídos”. “Não, eu não sou trans, nem disse que era. Eu disse que nesse momento precisamos de uma energia transformadora para mudar a realidade política monstruosa do Brasil de hoje e se essa energia está contida no signo trans, e está, que ele nos alimente. Assim como diante da execução de Marielle toda a sociedade que repudia a barbárie disse “somos todos Marielle”. Assim como muitos, no mundo inteiro, disseram “Je suis Charlie”, quando foram mortos os jornalistas do Charlie Hebdo”, declarou.

Ele frisa ainda que não reconhece no apontamento de que não tem interesse pela produção de artistas trans. E aponta que que em 1978, “muito antes desse movimento tomar a dimensão e importância necessárias que tem hoje”, condicionou que dirigia um espetáculo caso Rogéria e Grande Othelo vivessem um casal. Foi nesse espetáculo que a atriz ganhou o Prêmio do SNT. E que trouxe o espetáculo BR Trans, de Silvero Pereira, para a curadoria do Teatro Poeira, no Rio, além de apoiar o trabalho dAs Travestidas.

“Para concluir, digo eu: num momento em que os artistas somos demonizados e lutamos contra a censura cruel que cresce a cada dia contra nós, não esperávamos uma censura vinda de outros artistas. Especialmente, sem estar baseada no conhecimento do que estamos fazendo e, sim, por uma frase de jornal, tirada de contexto, e por ilações a partir de um título mal compreendido”, declarou.

Vale dizer que, para trazer mais um relato da equipe do espetáculo, o NLUCON também conversou por 1h com a atriz Beatriz Azevedo. Posteriormente a atriz não quis que suas declarações fossem publicadas e, mediante a possibilidade de publicação, nos ameaçou de processo.


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Um comentário em “Artistas trans fazem manifestação artística em que questionam espetáculo Cabaré Trans-Poético, em SP Deixe um comentário

  1. Aqui é o certo web site para alguém quem espera entender neste tópico.

    Você percebe tanto seu quase dificil discutir com você (não que Eu realmente iria querer
    para… HaHa). Você definitivamente colocar um novo
    girar em um tópico que tem sido escrito sobre por
    muitos anos . Grande , apenas grande !

    Curtir

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