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“Cannes quis saber como pessoas trans sobrevivem no Brasil”, revela atriz Wescla Vasconcelos

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“Indianare se tornou conceito de luta” / Crédito: Lílian B)

A atriz, pedagoga e ativista brasileira Wescla Vasconcelos, de 24 anos, foi um dos destaques do Festival de Cannes, na França, que ocorreu do dia 14 ao dia 25 de maio. Ela foi a escolhida para o lançamento do filme “Indianara”, da diretora francesa Aude Chevalier-Beaumel e do diretor brasileiro Marcelo Barbosa, e arrasou na representatividade trans.

No tapete vermelho, ela chamou atenção ao militar com um vestido preto e branco que trazia na cauda a bandeira LGBT. Ele foi inspirado na década de 70 e feito baseado na moda ecológica, com materiais reaproveitados. “Não deitei pra Gisele (Bündchen)”, soltou ao NLUCON.

Cearense radicada no Rio de Janeiro desde 2016, Wescla é uma das personagens do filme e uma das ativistas que, ao lado da ativista transvestigenere Indianare Siqueira, que é o tema central da obra, contribuem para a luta em prol dos direitos da população trans e travesti, sobretudo as que vivem em situação de vulnerabilidade.

O filme retrata ainda o momento político brasileiro, a resistência das pessoas trans e travestis em situação de vulnerabilidade, o espaço Casa Nem, que acolhe e abriga pessoas trans e o assassinato de Marielle Franco. Não é por acaso que Wescla aproveitou o momento para se manifestar na França com os cartazes “Marielle Vive” e “Justiça Para Marielle”.

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, Wescla fala como foi sua passagem por Cannes, a relação com Indianare, a carreira de atriz e as curiosidades de Cannes.

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Manifestação brasileira na noite da première mundial no dia 19 (crédito Lílian B)

– Como se deu a sua proximidade com a Indianare?

Eu estava cursando pedagogia no Ceará e vim ao Rio em 2016 para uma palestra. Encontrei a Indianare, que eu já conhecia desde 2010, na Lapa. Ela falou da campanha eleitoral (ela concorria a vereadora do Rio de Janeiro), ficamos carne e unha e acabei sendo motivada por ela a ficar no Rio. Acabei me tornando uma espécie de assessora, independente de partido, de ela ter sido eleita ou não. Concluí a faculdade com o apoio da Indianare, hoje sou a primeira aluna trans em mestrado na UFF, porque por mais que ela não queira esse espaço, ao contrário, ela estimula que a gente ocupe. Ao mesmo tempo, cresci, colaborei junto com ela na luta. É como uma mãe, uma inspiração.

– Chegou a morar na Casa Nem?

Morei na Casa Nem uns três meses e depois arrumei uma casa em Cantagalo (Morro da Zona Sul do Rio). Hoje namoro há quase dois anos com o Vinícius Azevedo, companheiro que dividido a vida. A ideia é essa: que as pessoas passem por lá, consigam acessar as redes de apoio e sigam suas vidas. É um espaço que carregamos até hoje por meio dessa solidariedade, que é o que sustenta a Casa Nem.

– Sua família não ficou com receio de você se mudar para o Rio?

Ela ficou preocupada porque de repente eu decidi morar no Rio de Janeiro. Mas percebi por meio da Indianare que existia a necessidade de sair do meu seio familiar. Era muita raiva, ódio, constrangimento, por causa do meu pai. Hoje o respeito prevaleceu, pois eles me veem como uma pessoa autônoma e que conseguiu construir uma família. Só fico triste porque meu pai morreu no último ano e eu não consegui dizer que perdoava ele.

– Como surgiu o convite para ir a Cannes?

Fui pega de surpresa. A Indianare não pôde ir, porque foi presa há um tempo em Paris (acusada entre 2007 e 2009 de cafetinagem ou proxenetismo, por alugar quartos para outras travestis), cumpriu a pena, mas não pode voltar ao país. Ela tentou recurso com a Justiça da França, só que mesmo assim não conseguiu. Brigar com isso ia ser todo um desgaste, e ela pediu para representá-la. Fui avisada de última hora. Mas considero que estive presente enquanto travesti e colaboradora da Casa Nem. Sou contra essa coisa de dizer que está representando toda uma população ou alguém. Então digo que me represento e que estive presente.

– Quais as contribuições que ganhamos com o filme Indianara?

Ele retrata como a Indianara se tornou um conceito de luta, de resistência, de história e legado. Ele não está para defender a Indianara ou acusar, mas mostra que no cenário político nossos corpos são descartáveis. Ele mostra a luta real, cotidiana e a negação de nós, pessoas trans, nos espaços, É fundamental para entender a luta de opressões e a manutenção dessas opressões. Quando o povo assistir vai ficar devastado.

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“Filme tem registro da morte da Marielle” / Crédito: Lílian B

– A Marielle Franco, vereadora que foi assassinada em 2018, aparece no filme?

Aparece e há um registro da morte dela, mostrando que também somos sementes da Marielle. O filme deixa bem nítido que ela recebe as pessoas trans, na Câmara de Vereadores do Rio, no cotidiano. Há cena dela olhando, cumprimentando a Indianara e dizendo que nós existimos, mesmo que não queiram. Depois mostra a Indianara recebendo a notícia do assassinato dela e de como isso nos afeta. Nós estivemos juntas com ela e ficamos devastadas com a morte dela, com o atentado contra uma pessoa que é defensora das nossas causas. Tanto é que Indianara teve que colocar câmera de segurança na casa dela.

– Como o filme “Indianara” foi recebido pelo público na França?

O filme sensibilizou muita gente. Ele esteve em três espaços e na mostra Acid (Association du Cinéma Indépendant pour as Diffusion). Quando eu cheguei me tremia toda, porque dá uma emoção se ver ali com a responsabilidade de estar presente como uma pessoa trans. Também tenho alguns recortes: travesti, nordestina, cearense, que morou na Casa Nem e que até hoje luta por essa rede de acolhimento, cursos e iniciativas populares. E a emoção aumentou por sentir que eles realmente queriam ver a história da Indianara e saberem que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Tanto que quando terminou eles aplaudiram por 10 minutos.

– Seu vestido foi um show à parte no tapete vermelho, né?

Fui vestida especialmente pelo Empório Almir França, que é presidente do grupo Arco-Íris. O vestido foi inspirado na década de 70, envolvendo um estilo clássico e, na cauda, a bandeira LGBT.. Mas ele tem uns cinco metros, é bem pesado. Tive que tomar uma dose de cachaça para levar (risos). Ah! O Almir faz moda ecológica, reaproveitando materiais. Ficou um escândalo, todo mundo parou para ver. Não deitei pra Gisele (Bündchen).

– Chegou a ver outras pessoas trans por lá?

Eu conheci duas, mas não chega a 1%. Ainda é preciso falar da importância da presença de pessoas trans no audiovisual, em festivais internacionais e nacionais. Somos invisibilizadas constantemente, não só na atuação, mas na produção. As mulheres (cis) já são, imagine as travestis e mulheres trans. É necessário nos reafirmarmos a nossa representatividade a partir de nós mesmas no cinema e no audiovisual em geral.

– Qual foi a maior curiosidade que Cannes demonstrou ter?

Eles queriam saber como a gente conseguia sobreviver no país que mais mata pessoas trans, como é a rede de acolhimento e como a gente consegue se manter viva. As pessoas falavam do impacto de uma história tão potente de uma pessoa trans e que Indianara não é uma luta só pelas pessoas trans, mas é um vento que passa por tudo. Eles se surpreenderam que ela não fala apenas pela população trans ou LGBT, mas como ela envolve várias questões, como a população de rua, a miséria, a justiça social, a reforma trabalhista, a reforma da previdência. Num ato, que não tinha nada a ver com a população trans, ela foi lá e conseguiu fazer uma relação inteligente e pertinente. Então a mídia internacional se surpreendeu com a potência que a Indianara carrega na luta. E de como isso é repassado para as novas gerações. Porque a Indianare está recuando um pouco, deixando nós, a nova geração, a puxar o legado, a estender a bandeira e fazer esse traviarcado.

– Você falou que deu entrevista para 11 jornais internacionais. Bolsonaro chegou a ser mencionado?

Sim, tanto que a pergunta mais frequente era “como nós conseguíamos nos organizar, subverter e viver dentro de um país com um presidente claramente preconceituoso e que incita ódio aos LGBT”.

– E o que você respondeu?

Respondi que o que acontece agora é a legitimação da raiva e ódio, pois os crimes de ódio aumentaram de certa forma. Mas que essa raiva que a gente vê mais nítida nas ruas, o ódio gritado, o fascismo, nós já enfrentamos desde o primeiro dia que nascemos. As pessoas trans enfrentam isso crescendo, na infância e adolescência, sendo impedidas de ser quem são. Mas nessa onda de ataques, de fascismo, somos a população que mais é atacada. Mas que, por outro lado, estamos fortalecendo nossas redes de luta e resistência para continuar sobrevivendo. Também é preciso dizer que apoiamos algumas manifestações, como a da reforma trabalhista, previdência, retirada de direitos, mais por sensibilização à população cis que por causa própria. Nós sequer tivemos assegurados os direitos de nos inserir no mercado de trabalho para ir brigar por esses direitos. Nós somos as pessoas mais atacadas diretamente desde sempre. E, hoje, nas ruas, somos atacadas escutando o nome dele.

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“Somos atacadas escutando o nome dEle” / Crédito: Lílian B

– Além de pedagoga, você também trabalha como atriz. Temos algumas novidades?

Em “Indianara” eu sou uma personagem enquanto Wescla, mas fora deste documentário eu sou uma atriz. Meu primeiro trabalho foi no clipe “Hoje eu Decidi”, com a Isis Valverde. E o meu primeiro trabalho no cinema brasileiro vai sair no final deste ano, com o Marcelo Gomes. Chama Vestindo Branco Véu e Grinalda, que tem 90% do elenco trans. As gravações ocorreram no Cariri, Juazeiro do Norte, em dezembro. É o único filme que teve esse avanço de mostrar que não dá para ter nada sobre nós sem nós.


* Texto foi revisado por Vivian Navarro
Ela é assistente judiciário, andreense, feminista e ativista dos direitos humanos.


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