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Kaique Theodoro assina com Universal Music e comenta hit proibidão: “B*ceta não é palavrão”

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O cantor Kaique Theodoro – anunciado como o primeiro homem trans a cantar funk no país – está vivendo uma nova fase em sua carreira. Aos 25 anos, ele acaba de assinar com tradicionalíssimo selo Astronautas Discos, da gravadora Universal Music, se joga no funk proibidão, num público heterogêneo e em novas experiências e ritmos.

Segundo Kaique, o convite para integrar à Universal ocorreu por meio do agente Leo Rivera. “Ele se amarrou no meu som e está apostando em mim. É um cara foda, que basicamente ajudou a lançar o Farofa Carioca, com o Seu Jorge. Então agora estou na Universal. Universal gravadora, pelo amor de Deus”, diz ele aos risos ao NLUCON.

Como primeiro trabalho dessa parceria, Kaique divulgou uma nova versão do clipe e da música Dom, agora chamada Dom 150, no canal Funk Hits Vevo, que conta com quase 2 milhões de inscritos. Publicado no dia 17 de maio, o trabalho chamou atenção dos antigos fãs, por ser um proibidão com o refrão “Chupando meu B*cetão”, e também vem conquistando um novo e curioso público.

“É um canal super cis hétero e a intenção é causar um auê, porque quero sair da bolha. Mas até agora não recebi nenhuma ameaça. Talvez porque vejo que muita gente sequer sabe que o que é um homem trans. Ainda comentam: “Esse cara tá falando o quê?”, “Cara tem saco e não buceta”. Então é essa importância, de a gente fazer o chão, a base, de ocupar esse espaço. A gente está lá para fazer as pessoas descobrirem o que é um homem trans no susto”, diz. O clipe está perto das 10 mil visualizações.

Assista ao bate-papo: 

CHUPANDO MEU B*CETÃO E A DESCOBERTA

A música Dom foi lançada originalmente em 2018, com outra letra e edição de clipe. Mas Kaique admite que não se sentia bem cantando a versão inicial nos shows, porque parecia contar uma mentira. “Eu não tinha aquela vivência da letra de ficar azarando as meninas enquanto elas dançam. Eu sou tímido, o que rola é o contrário e eu vou ficar falando disso? Os caras cis já falam aquilo nas músicas deles”, diz.

Após escutar MC Rebecca e se deparar com a palavra “buceta” (ou boceta, de acordo com a norma da língua portuguesa) de uma forma tão natural, passou a refletir. “Buceta é uma palavra que assusta as pessoas, que elas acham que não podemos falar. Achei sensacional o que ela fazia e, como sou um cara trans, não vou falar ‘senta na minha piroca’. Seria cômodo falar um troço desses, pois as pessoas estão acostumadas. Vou falar: chupa a minha buceta. É um cara falando da buceta dele e tá tudo certo. Buceta não é palavrão”.

Mas nem sempre Kaique esteve empoderado quanto ao seu genital. Ele afirma que enfrentou angustias por viver uma forte disforia no início de sua transição. “Eu não conseguia transar nu no meu antigo relacionamento com uma mulher cis. Não conseguia tirar a roupa, me tocar. Isso só mudou quando eu tive uma relação com uma mina trans e foi a primeira vez que eu consegui transar com o meu corpo, como ele veio ao mundo. Foi tão forte que me deu um choque. ‘Caraca, é bom o negócio, usar o corpo, sentir várias paradas. Foi o primeiro momento em que eu senti tesão com o meu corpo”, declara.

Ele afirma que, desde então, se relacionar com outras pessoas trans o deixa mais confortável. “Geralmente quando você vai pra cama com uma pessoa cis, ela fica com aquela coisa de ‘ai, não conheço’, ‘o que vou fazer aqui?’, ou ‘sempre quis ficar com um cara trans’, naquele tabu todo ou naquela objetificação que você não consegue se soltar. Com as pessoas trans rola melhor, flui melhor, porque estamos mais interessados nas sensações, no beijo, no toque, sem esse tabu com o corpo”. Com isso, Kaique conseguiu ressignificar a palavra “buceta”. “Hoje em dia é algo que eu faço questão de falar: ‘Eu tenho buceta’.

Só que o romance com a mulher trans não vingou. “Foi uma parada super-mágica, que ocorreu em 2017. Eu fiquei apaixonadinho, mas a gente deu ruim”.

PABLLO FEZ REPENSAR MINHA CARREIRA

Quem acompanha a carreira do cantor desde 2016 já o viu passar por diversos ritmos musicais. Ele diz que a música foi a sua salvação em diversas fases da vida e que na adolescência vivia pesquisando punk rock em sites de música como MySpace. Ele utilizava da energia explosiva de “quebrar a guitarra” para colocar para fora o desconforto que sentia com o desenvolvimento do próprio corpo naquela fase.

Posteriormente, bem como outros processos de sua transição, passou a ter contato com blues, jazz, black music, soul music e, a cada descoberta, novas paixões surgiam. “Ainda vieram a bossa nova, MPB e samba. Eu dizia: ‘Caraca, escuta o que esses caras conseguem fazer com a música!’, “Caraca, o mundo não é só Sex Pistols’. E foi abrindo a minha cabeça para outros gêneros musicais”, lembra.

kaique theodoro

Foi mergulhado na MPB e soul music que ele decidiu trabalhar com música e lançou em 2017 o clipe Ao Sol – hoje com 22 mil visualizações no Youtube. Os shows passaram a acontecer em saraus e universidades e um público elitista começou a se formar – algo distante do que ele pensava para a própria arte e carreira. Foi então que o cantor decidiu ingressar no estilo que, até então, não havia flertado: o funk. E a responsável foi a a cantora drag queen Pabllo Vittar.

“Fui fazer fotos de um show da Pabllo em 2017 no Galpão Gamboa, quando ela ainda estava saindo do Amor e Sexo (TV Globo). Fiquei passado com aquela galerona cantando as músicas e aquela mistura de gente. Estava todo mundo ali naquele espaço pequeno. A galera da zona sul e de outras zonas do Rio. Depois escutei ela na academia, fazendo cross fit, e em festa infantil. Falei: “Está acontecendo algo que ainda não saquei. É uma drag queen que está cantando em todos os lugares, para todas as pessoas. É exatamente isso que quero fazer”, conta.

REPRESENTATIVIDADE

Kaique diz que pensou bastante em como ocupar com respeito um lugar no funk carioca, já que não tem a vivência de morar em comunidade, e que teve que deixar os próprios preconceitos acerca do estilo. Ele diz que pesquisou muito – sobretudo o funk melody – e que refletiu sobre qual era a mensagem que passaria, até porque seria um dos primeiros – senão o primeiro – homem trans a desbravar o estilo.

“Hoje sei que temos rapazes que estão fazendo o trabalho agora. E acho importante, porque não acho legar ser o primeiro e muito menos o único. Estar neste lugar é ver a galera virando a cara ou nem sabendo o que é homem trans. Vamos juntos”.

Em todos os clipes, Kaique aposta na diversidade de corpos negros, brancos, magros, gordos, cis e trans. “É muito importante incluir outras pessoas e corpos até para que outras pessoas se inspirem, tenham vontade de fazer e não achar impossível. Se a gente for ver as princesas e príncipes que aprecem na Disney são brancos, padrões, cis, heterossexuais, mas a criança que não está nesse padrão vai se enxergar onde? Como ela vai criar a identidade, se empoderar, se aceitar, se sentir bela, se não vê ninguém como ela? Representatividade é preencher essa lacuna”.

Apesar do momento positivo em sua carreira, o artista admite que todos os dias se questiona se realmente vai alcançar tudo o que gostaria e se a transfobia pode dificultar o caminho. “Eu queria ter começado antes, mas daí vieram os hormônios, a cirurgia… Não tem como ficar me cobrando agora, mas às vezes fico pensando: será que vou morrer para só depois a próxima geração conseguir chegar lá? É foda. Eu não quero morrer não. Quero conseguir e ver esses frutos agora”, frisa.

CANTA PRA B*CETA

Sobre os próximos passos, ele afirma que haverá um remix de Dom para bater-cabelo, a música Me Provoca – um pop funk – e Seu Denguinho, que é voltado para o brega. “Não esperem que vá ficar em um gênero musical apenas. Quero brincar com o pop brasileiro”, solta.

Alguns feats. dos sonhos, além da Pabllo evidentemente? “A Gloria Groove, que é foda demais, a MC Xuxú, a Danny Bond. E eu queria fazer um feat. com os meninos trans, que estão cantando encolhidos ainda, com o Valentim que tem um som muito foda e que canta pra caralho”.

Agora é canta pra buceta, Kaique!


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