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“Sol Sobre Pele”: Ensaio fotográfico com homens gordos é culto à liberdade, diversidade e beleza; vem ver

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André da Silva, Thomaz Arthur, Gabriel de Carvalho e Erickson Conceição

Quantos homens gordos vemos rotineiramente em ensaios fotográficos, comerciais e revistas? Com quantos corpos gordos de pessoas LGBTQI+ nos deparamos nesses espaços como exemplo ou possibilidade de beleza? Foi pensando na ausência de representatividade que um grupo de amigos – todos homens gordos e integrantes da comunidade LGBTQI+ – resolveram se unir para um ensaio que se tornou um verdadeiro culto à liberdade, a diversidade e a beleza de corpos plurais.

Os cliques foram de Alexandre Lopes, fotógrafo e estudante de medicina veterinária, 20 anos, no parque Villa Lobos, em São Paulo. Eles retratam quatro modelos descamisados, em contato com a natureza, exaltando a beleza de seus corpos com o “Sol Sobre Pele” – título do ensaio. Os gatos são: André da Silva Wansowitsch, de 25, Thomaz Arthur, 19, Gabriel de Carvalho, 24 e Erickson Conceição Pedrosa, 25.

De acordo com Alexandre, a ideia foi registrar os detalhes do corpo gordo masculino em algum lugar sob céu aberto com a premissa de valorizar, ressaltar o belo e colocar esses corpos em outro lugar, além daquele em que a mídia tradicionalmente reforça: “fora do protagonismo, com a intenção de fazer humor ou tragédia” e condenado pela falsa preocupação social pela saúde da pessoa. “O homem gordo sempre é o palhaço ou valentão, e a mulher gorda a solitária em busca do ‘milagre do emagrecimento’”, pontua. O fotógrafo conta que fez a proposta nas redes sociais e convidou aqueles que demonstraram interesse, mantendo contato por meio do Instagram, do Tinder e na festa Toda Grandona.

“Vejo que a representatividade dos corpos gordos, não só femininos, vem crescendo bastante na mídia e na indústria da moda, música e entretenimento, mas de uma forma empoderadora e não estereotipada. O material fotográfico não só ajuda a naturalizar esses corpos, como também a trazer segurança para o olhar dos modelos sobre seus corpos, cada parte dele. E isso não está restrito a autoestima, mas também sobre saúde mental, social e sexual – principalmente quando o fotógrafo também é um homem gordo em busca dessa aceitação – é reconfortante trazer essa experiência, e é desafiador quando se trata de um local público”, declarou.

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A inspiração veio de projetos feitos por mulheres que acompanhou na adolescência, bem como Evelyn Queiroz (Negahamburguer), Carol Rossetti (dos livros “Mulheres” e “Cores”), e do trabalho fotográfico de Milena Paulina (Olhar de Paulina). Posteriormente passou a acompanhar e se inspirar no projeto fotográfico Chicos e de ilustrações de Jonathan (@jjonathan.art), Gibby Shadows (@gibbyshadows) e Aureliano (@oiaure).

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Neste ano, a organização internacional Manual, voltada para o bem-estar e saúde mental dos homens – realizou uma campanha para questionar a representação na publicidade. Ela orienta que o mercado publicitário substitua imagens padronizadas e muitas vezes irreais de corpos masculinos por representações comuns, destacando que reforçar que só existem corpos magros ou musculosos provoca um reflexo falso na sociedade e prejudica a saúde mental dos homens. “Esperamos melhorar o bem-estar mental e físico dos homens em todos os lugares”, declarou George Pallis, co-fundador da Manual.

Durante o ensaio, os modelos tiveram liberdade para experimentarem posições e terem contato um com o outro. Eles tocaram os corpos, deram as mãos, se abraçaram e até brincaram com olhares e carões. “Também quis explorar a ‘feminilidade’ e ‘masculinidade’ de cada um com as percepções do que se identificam nessa binaridade de expressões”, diz Alexandre.

A busca pela autoestima e cuidado com os modelos surge até mesmo na escolha do nome do trabalho – Sol Sobre Pele – uma referência às pinturas a óleo sobre tela. “A intenção é que o conceito seja individualmente registrado para que todos se sintam arte”, explica o fotógrafo.

Alexandre conta que gostou muito do resultado, até mesmo antes da edição das fotos, principalmente pela resposta dos modelos e a repercussão das primeiras fotos publicadas no Instagram. “Garotos de outros estados queriam participar, me mandaram mensagens e eu não esperava tanta positividade”, declara, salientando que outros ensaios semelhantes devem surgir em breve. É o discurso e as imagens se ampliando e tomando gordoriedade!

Confira reflexões sobre autoestima e preconceito: 


André da Silva Wansowitsch
25 anos, Analista de Logística

“Na minha infância e principalmente na minha adolescência eu tinha um sério problema com a autoestima  – em aceitar meu corpo como ele é e me amar – pois estou bem acima do “peso ideal” há muito tempo. Parte dessa baixa autoestima veio da mídia em geral, de bullyings e “brincadeiras” de mau gosto no colégio, em partes veio da minha própria família.

Daí o tema da gordofobia foi ganhando cada vez mais espaço nos últimos anos, crescendo e fazendo com que eu observasse várias outras pessoas que passavam pelos mesmos problemas, aprendendo como elas lidavam com a própria autoestima, com a própria autoaceitação.

Participar de um ensaio fotográfico onde a beleza do corpo é exaltada independente do tamanho ou forma se mostrou bem mais libertador pra mim do que eu pensava inicialmente. Estar com aqueles rapazes, no meio da natureza, fazendo essa troca de vivências e de como lidamos com nossos problemas foi um momento maravilhoso. Vai ficar gravado na memória por muito tempo”.


Thomaz Arthur
19 anos, vendedor

“Geralmente a gordofobia começa dentro da nossa própria casa, onde as pessoas querem que você encaixe, de qualquer forma, num padrão social. Sendo homem trans, isso acaba entrando em conjunto com a transfobia, porque existe um estereótipo de homem bombado, magro, barbudo ou que já tenha realizado a mastectomia. Isto tudo complica muito porque querem que você emagreça para poder realizar a cirurgia ou começar/continuar um tratamento hormonal. Participar do projeto Sol Sobre Pele, me proporcionou um dos melhores momentos da minha vida porque me mostrou que amar-se é liberdade!”.


Erickson Conceição Pedrosa
25 anos, formado em Marketing

“Tenho 25 anos e sou uma pessoa fora do padrão estético da sociedade desde os meus 13 anos. Sempre tive uma grande dificuldade em me aceitar com meu corpo, além de ser gordo quando mais novo, também tive outros pontos que ajudaram a diminuir mais minha autoestima. O fato de ser um homem negro em uma sociedade racista me levou ser alvo de bullying na escola e discriminação que você nota no olhar das pessoas.

Isso me acompanhou até os 21 anos. Tive contato com pessoas que são negras e gordas, que também passaram por isso em algum momento da vida. Pensei comigo: tento desde pequeno mudar quem eu sou para agradar a quem? Vi que ninguém paga minhas contas e, se eu for ficar com alguém um dia, o cara tem que gostar de mim da forma que eu sou e venho levando isso comigo até hoje.

Fazer esse ensaio foi uma experiência que eu nunca imaginei ter. Foi quebrar um estigma que a sociedade coloca sobre todos: Se você não tem barriga tanquinho não pode ficar sem camisa, se você tem estrias em seu corpo deve esconder de todos porque isso é feio. Com o passar do tempo eu sei que as pessoas vendo esse ensaio, vão pensar mais em si mesmo, valorizar quem as valoriza e não quem elas querem impressionar. Admiro todos da forma que são”.


Gabriel de Carvalho
24 anos, assistente administrativo

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Gabriel de Carvalho no ensaio Sol Sobre Pele

“É muito difícil se sentir bem num mundo onde vende-se o corpo “ideal”. Nós, homens trans, temos uma cobrança maior para sermos encaixados em padrões impostos pela sociedade patriarcal e machista, que dita o que é ter um corpo de homem e de mulher. Qualquer coisa que fuja desses dois, é estranho e repugnante. Desde que nascemos aprendemos a agir de acordo com o sexo de nascimento e se estende até sobre o uso do banheiro “certo”. Por isso que luto ao lado de movimentos sociais para desconstruirmos esses padrões sociais. Só quem é trans sabe a dor que é ser julgado até pelo banheiro que usa, a roupa que veste, coisas que, muitas vezes, nos limitamos a fazer para evitar comentários do tipo “você nem parece um homem de verdade”, “homem não faz isso”. Temos muito trabalho pela frente em criar essa conscientização coletiva e, principalmente, aprender a construir pontes de diálogos.

Na questão da gordofobia, o objetivo é mostrar para as pessoas que nossos corpos também são válidos. O bem-estar não é necessariamente malhar para ter um corpo impecável, bem estar também conta com a saúde mental. Muitas vezes, gordos maiores se submetem a cirurgias bariátricas por pressão estética, sem levar em consideração que é muita invasiva e que o psicólogo é fatalmente abalado. Não é difícil não conhecer alguém que saiba de alguma história de gordos que passaram por isso e que “nunca mais foram os mesmos”. Hoje já existem vários estudos dizendo que a obesidade não está relacionada com doenças, assim como os doutores vigilantes adoram palpitar.

Ser gato num mundo gordofobico é trazer o discurso de gordoriedade e lutar para que a sociedade passe a se adaptar também para nós, gordos menores e maiores. É mostrar que certos comentários e piadas não são engraçadas e sim ofensivas! Ora, desde quando você se sente gordo? “Ser gordo não é um sentimento, é uma condição”, como diz a Milly Costa (@bocapretacolorida). Por fim, devemos aprender com a comunidade que colabora para a gordoriedade. E por ser trans, preciso sempre bater de frente para mostrar que tá tudo bem ser gordo, não ter mastectomia. Isso não abala de forma alguma minha masculinidade. Eu me amo e não serão meia dúzia de transfóbicos/gordofobicos que vão me deixar para baixo”.


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