Marina Matheus fala sobre personagem travesti na série 3% e diz: “Representatividade trans é questão mundial”

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Marina como destaque na série 3% (crédito: Pedro Saad) e em ensaio do Sparks (do sparks cuts)

Depois de se destacar na série 3%, produzida pela Boutique Filmes, Marina Matheus voltará a viver a personagem travesti Ariel na terceira temporada, que estreia nesta sexta-feira (07) na Netflix. A informação foi confirmada pela atriz – que também é travesti na vida real – em entrevista exclusiva ao NLUCON.

Na distopia criada por Pedro Aguilera, Ariel ainda está no Continente, espaço onde tudo falta. No fim da segunda temporada, ela irá passar pelo processo para ter a oportunidade de ser escolhida entre os 3% para ir ao Maralto, espaço onde há tudo. Ainda há a Concha, uma alternativa.

Marina diz que não pode adiantar os caminhos de sua personagem, tampouco se Ariel vai conseguir ir ao Continente ou para a Concha. Mas que conta com o retorno do público para identificá-la e avaliar a personagem. “Não posso falar nada sobre isso. A série já está na plataforma e quero que vocês digam o que acham da série, do desenvolvimento da personagem. Vou deixar nas mãos de vocês”, declarou.

Ao comentar como entrou em 3%, a atriz afirma que realizou testes. Ela já trabalha há nove anos como atriz, fez trabalhos no teatro e se formou na escola de Arte Dramática da USP. Inicialmente, chegou a participar dos testes para os personagens da primeira temporada, quando ainda não havia passado pela transição, e foi aprovada para a segunda, já conhecida como Marina, quando a equipe decidiu apostar na representatividade trans.

“Eles estavam vendo se a personagem seria um homem cis, como estava no roteiro, ou se a transformariam em uma personagem trans. Portando estavam fazendo testes com homens cis e mulheres trans para decidir. Após os testes, me chamaram para fazer a personagem e ocorreu a mudança, que eu achei muito importante”, ressalta a atriz.

Assista bate-papo

CRIAÇÃO DA PERSONAGEM

Sobre a preparação para viver Ariel, ela conta que teve que trabalhar em cima da ideia de que  se trata de uma personagem travesti dentro de um universo distópico, apocalíptico e fictício em que a transfobia e o racismo não são uma questão – apesar de haver relações com problemas sociais e de classe.

“Então me questionei muito sobre como construir essa personagem neste universo, sem transfobia, sendo que nossas corpas também não estão presentes. Tem a participação da Liniker, tem algumas figurações com algumas pessoas trans, mas uma personagem, com curva dramática, sou a única que tem. A única que tem nome, a curva e desenvolvimento durante a segunda temporada”, pontua.

Na trama, a personagem é bastante decidida, corajosa e corre atrás dos seus objetivos. Além disso, ela consegue liderar todas as pessoas do Continente para uma manifestação em prol do direito de participar do processo.

SER ATRIZ E TRAVESTI

No bate-papo, Marina também narrou as dificuldades de pessoas trans e travestis, incluindo artistas que são pessoas trans, em conseguirem ser inseridas no mercado formal de trabalho. E demonstrou que, bem como ocorre na série, o desafio maior é o de conseguir oportunidades que vão além dos 3% de representatividade.

“A gente bate bastante nessa tecla que 90% da nossa população está na prostituição e que é um contexto muito massacrante e de exclusão. Estou há nove anos batalhando e estudando em São Paulo e tenho três anos de transição. Numa vivência ‘cisgênera’, consegui fazer cursos técnicos profissionalizantes, me formei, tive inserção em vários lugares, inclusive no mercado de trabalho. Mas é óbvio que quando eu transicionei muitos desses lugares eu perdi”, conta.

DESAFIOS

Para continuar fazendo arte, ela diz que manteve os lugares onde conseguiu ocupar e que buscou espaços com pessoas trans para se fortalecer. Nessa união, houve uma ampla discussão sobre representatividade trans e a criação do Monart (Movimento Nacional de Artistas Trans), que começa a ganhar frutos.

“Agora as nossas corpas começam a ser interessantes nos trabalhos das pessoas cis, elas começam a perceber que a gente existe. Além de assumir o lugar do transfake, que não deve mais acontecer, começam a ver que a gente precisa estar nas narrativas”, diz.

Por outro lado, ela destaque as oportunidades são pontuais, personalizadas em uma só pessoa e que há outros desafios, bem como os roteiros. “Muitas vezes os roteiros não conseguem lidar com a complexidade das nossas vivências. Muitas vezes deparemos com transfobia nos trabalhos. E, como somos uma participando, ter que lidar com tudo isso estando sozinha, é muito mais difícil”.

DEBATE NO MUNDO

Desde a segunda temporada, Marina diz que vem recebendo mensagens de outras pessoas de todo o mundo – lembrando que se trata da série estrangeira de maior audiência da Netflix, enviada para 190 países. Ela admite que inicialmente ficou um pouco com a repercussão, até porque se sentia em situação de vulnerabilidade, mas que aos poucos passou a entender que era manifestações de afeto e incentivo.

“Recebo muita mensagem de pessoas trans do Brasil, França, Espanha e Argentina. Elas agradecem pela representatividade, elogiam o trabalho. Senti que todos observam uma carência de ver nossas corpas nos trabalhos. E que isso não é uma questão só do Brasil, mas do mundo. Eles buscam referências e representatividade para ter e se unir. Fiquei contente, porque me senti fortalecida, senti que meu trabalho vale a pena”, sorri.

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Marina Matheus vai reestrear o show “Trava”, em SP (Crédito: Everton Ferreira)

Alem de 3%, Marina também tem o show “Trava”, cuja reestreia ocorre no dia 19 de junho, no Teatro Sérgio Cardoso, e no dia 20, no Chama Festival, no Teatro Oficina, ambos em São Paulo. No audiovisual, ela estará na série Unidade Básica, da Universal. É aguardar!


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