Ir para conteúdo

Assassinato da Rosinha do Beco aos 63 anos evidencia urgência de olharmos com afeto para as travestis idosas

Rosinha1

Quando encontramos uma travesti que conseguiu chegar na terceira idade hoje, é possível enxergar muitas marcas para além daquelas ocasionadas pelo tempo. Muitas têm cravadas na pele as cicatrizes das batalhas, da violência policial, dos clientes, da lâmina que fizeram uso para se protegerem e da transfobia social que se arrasta até hoje. São raras e, ao se sentar para um bate-papo, também é possível ver estampado no olhar as tristezas das perdas e, no discurso, um suspiro de “sobrevivi”.

Rosinha (Rosemeire) do Beco, de 63 anos, era uma dessas travestis históricas. Ela vivia na pequena cidade de Seabra, na Bahia. Era conhecida pelo trabalho como feirante, por ajudar muitas pessoas e pelos vídeos e fotos que as pessoas publicavam nas redes sociais – como um em que se divertiu tomando banho de chuva em plena rua. Era bem-humorada, demonstrava ser uma pessoa de bem com a vida e que era querida por grande parte da população.

Uma prima declarou no Instagram que Rosinha chegou a passar por muitas coisas difíceis, mas que nunca deixou de ser quem é. No relato, ela escreve que a prima foi a responsável por levar a mãe para São Paulo no fim da década de 70 e que a ida foi um verdadeiro caos pela transfobia. “Todo mundo queria ver o tal ‘homem que vestia roupas de mulher’ no ônibus. Queriam dar risada, tirar sarro e, principalmente, jogar pedras”, diz, ressaltando que a polícia precisou intervir, colocá-la dentro da delegacia e esperar um novo ônibus, pois as pessoas queriam apedrejá-la. “Apesar disso, ajudava todo mundo, até mesmo quem não gostava dela ou a tratava mal”, escreveu.

Em um dos vídeos que circulavam nas redes sociais, Rosinha disse com orgulho que era a travesti mais idosa da Chapada Diamantina, falando que amava todos que a assistiam. Aliás, fazia questão de ressaltar que era a travesti mais antiga da cidade a todas as pessoas. Isso porque ela sabia que era uma grande conquista ter sobrevivido às múltiplas violências no país que mais mata travestis e transexuais no mundo em números totais (Transgender Europe) e de sua ousadia de ter driblado a estimativa baixíssima de expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil, 35 anos, sendo que a população em geral vive até os 74,9 anos (IBGE).

Por outro lado, vivenciava as dificuldades do combo de ser uma travesti e idosa. Pense: Quantas travestis idosas você conhece? Como elas são assistidas pelo Estado? Como são apoiadas pela militância? Como são atendidas nos serviços de saúde e em serviços assistenciais? Como se relacionam? Conseguem viver uma vida digna e com tranquilidade? Das matérias que já fizemos no NLUCON, Sissy Kelly denunciou que se sente vivendo “abaixo da linha da invisibilidade”. Anyky Lima declarou que sofre preconceito até das pessoas trans mais novas. “A gente sofre a vida inteira, chega na velhice e ainda vê uma debochar da outra”.

Como se não bastassem todas essas questões que uma travesti idosa desbrava, Rosinha foi alvo de uma violência brutal que custou sua vida. No último dia 30, ela foi assassinada a pauladas dentro de sua casa, que também foi incendiada. Foi encontrada com o corpo carbonizado pelo incêndio e com o crânio afundado. No local, havia um porrete sujo de sangue, que foi usado na violência. O principal suspeito é um adolescente de 15 anos, que pôde ser visto pelas imagens de segurança caminhando em direção à casa da vítima. Ele chegou a ser preso, mas foi liberado e agora está foragido.

Rosinha2

O crime contra idosas travestis não é algo comum no Brasil, até porque a maioria é assassinada ainda na adolescência e vida adulta. O Mapa da Antra aponta que 67,9% das vítimas de 2018 tinham entre 16 e 29 anos, 29,1% 30 a 39 anos, e 10,5% de 40 a 49, o que evidenciaria que quanto mais jovens, mais suscetíveis à violência e à mortandade; ou, por outro lado, pode ser um demonstrativo da baixa expectativa de vida da população trans, resultando em uma quantidade menor de pessoas trans idosas e, por consequência, um número menor de pessoas trans vítimas na terceira idade. Mas, como mostra o homicídio cometido contra Rosinha, esses casos também acontecem. Em 2017, segundo apontou o Mapa, 1,8% dos assassinatos tiveram, como vitimas, travestis e mulheres trans acima dos 50 anos.

Amigos, familiares e a militância pedem justiça. Para além da captura e punição do assassino, o caso de Rosinha aponta para a urgência de uma lei que criminalize os crimes de LGBTfobia – que se aproxima via Supremo Tribunal Federal, ante o descaso do Congresso Nacional. Denuncia ainda que precisamos enxergar as pessoas trans idosas, olhá-las com afeto, sensibilidade, acolhimento. Afinal, elas também estão suscetíveis a diversas violências, carregando outras violações decorrentes da idade, numa sociedade estatista que trata pessoas idosas como descartáveis, e precisam ter suas vozes e vivências ampliadas, escutadas e asseguradas. Para que vidas sejam preservadas, com dignidade, e para que o fim, pelo qual todos nós passaremos inevitavelmente um dia, não seja mais uma vez trágico.


* Texto foi escrito por Neto Lucon.
A revisão é de Vivian Navarro

Ela é assistente judiciário, andreense, feminista e ativista dos direitos humanos.


Acredita que o jornalismo é uma importante ferramenta contra o preconceito?

Apoie o site independente NLUCON e contribua com o financiamento coletivo para quitar os gastos com a produção de notícias, entrevistas e vídeos. Sua colaboração é fundamental para a existência desse site. Clique aqui.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: