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Modelo trans Bernardo Ribeiro revela como foi concorrer ao Mister RJ e desfilar de peito aberto: “Desafio”

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Bernardo Ribeiro: “Fui evoluindo durante o concurso”

O modelo e estudante de educação física Bernardo Ribeiro, de 23 anos, fez história no último mês ao ser o primeiro homem trans a participar da história do Mister Rio de Janeiro CNB. Trata-se do concurso tradicional e oficial, que na etapa nacional já revelou nomes de grandes modelos do país, bem como Gustavo Gianetti, Lucas Gil e Jonas Sulzbach.

Natural de Resende, interior do Rio de Janeiro, Bernardo conta que desde sempre se identifica com o gênero masculino. Ele lembra que na infância tinha um sonho: crescer e se tornar um homem bonito para ser capa de revista, ainda que não soubesse da existência de homens trans. Foi por volta dos 19 anos, quando se consultou com uma psicóloga, que conseguiu se entender e se identificar enquanto Bernardo.

O tempo passou, ele conseguiu externalizar a sua identidade e, hoje, já pode se realizar com o fato de ser considerado um dos 19 homens mais bonitos do estado do Rio de Janeiro. Porém, dentro da competição de Mister ao lado de 18 homens cis, ele ganhou novos sonhos e objetivos. Passou a almejar levantar a bandeira da diversidade e mostrar para o mundo a beleza do homem trans.

Não foi por acaso que ele fotografou, desfilou descamisado e de peito aberto, sem ter realizado nenhuma cirurgia ou procedimento estético no peitoral, para o grande público. O feito chamou atenção e Bernado diz que conseguiu atingir o objetivo de mostrar que homens trans são plurais, que a beleza masculina é diversa e que não é preciso seguir padrões para ser considerado homem. Ele simplesmente é.

Em entrevista exclusiva ao NLUCON ele fala sobre os bastidores do concurso, padrões de beleza, como se sentiu não ter avançado na competição, desafios da profissão e novos sonhos. Confira!

– Como foi que decidiu se inscrever para tentar ser o novo Mister Rio de Janeiro?

Era algo que eu nunca pensei e que aconteceu do nada. A única vontade que eu sempre tive era de ser modelo e ator, pois sempre gostei de tirar foto, da ideia de desfilar e de atuar. Mas fiquei sabendo do concurso através da minha antiga agência. Vi que nenhum homem trans havia se inscrito ou participado, então quis ser o primeiro para saber como seria. Aí comecei a me dedicar.

– Você já estava participando do concurso há um mês. Por qual motivo você foi anunciado na véspera do concurso?

Não sei porque foi tão em cima e porque não divulgaram antes. Talvez seja porque a mídia estaria lá no fim de semana. Mas não sei responder.

– Como foi a sua preparação?

Sinceramente não tive tempo de me preparar, se a gente for comparar com as pessoas que investem com muita antecedência. Moro em Resende e, como aqui não temos muitos recursos, acabei indo sem saber nada. Quando cheguei para a primeira prova, que foi uma prova de passarela, eu fui no estilo “iniciante mesmo”, bem do interior, sabe? Vi os meninos desfilando e eles mandavam muito bem, vi que eles tinham os trajes bem melhores que o meu.

– Quais são os bastidores e desafios do concurso de mister?

As provas ocorriam aos finais de semana na Barra da Tijuca e eu tinha que sair de Resende e ir pra lá para participar. Então minha preparação foi correr atrás de patrocínio, bater de loja em loja para ter as roupas do desfile, tentar emagrecer e definir mais meu corpo, porque o biotipo do modelo geralmente é mais magro e até então eu treinava para crescer. Tive ajuda de um professor para me ensinar a desfilar, dei entrevista para a rádio da cidade, ajudei duas entidades carentes aqui, falei com grupos LGBTI+ de Resende e Volta Redonda. Tive muito apoio dos meus amigos, que me ajudaram na divulgação. A agência que eu fazia parte não me deu nenhum suporte. Eu consegui tudo por minha conta, eu que corri atrás do figurino, das aulas, foi tudo comigo.

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Bernardo (ao centro) e os demais misters do concurso de 2019: Respeito

– Como os demais misters, todos cisgêneros, lidaram com o primeiro homem trans do concurso?

No começo, alguns achavam que eu era um homem com ginecomastia, mas quando contei a minha história, que eu sou um homem trans, eles me trataram super bem, com muito respeito e cuidado. O mais legal foi que no domingo, antes de a gente se apresentar, eu conversei com eles e agradeci a maneira como eles me trataram. Acho que é fácil a gente criticar as pessoas quando elas nos afetam negativamente, então achei importante parar tudo e agradecer pelo cuidado que todos eles tiveram comigo. Ainda mais no mundo que a gente está hoje, principalmente entre os homens, onde o machismo reina, é importante ressaltar atitudes positivas.

– Ocorreu algum contratempo por ser homem trans?

Quando o fato de eu ser homem trans ganhou visibilidade, ocorreu um episódio em uma das enquetes. Uma fanpage colocou a disputa de um mister contra o outro. Todos estavam sem camisa, somente eu fui colocado com uma foto de camisa. Os meus amigos ficaram bolados, pois sabiam que eu também tinha tirado a foto sem camisa e criticaram a fanpage. Mas os responsáveis se desculparam e disseram que não sabiam que eu era um homem trans. A partir disso, as pessoas começaram a me mandar mensagem de incentivo, força, carinho e motivação. Fui para a final com todo amor dos meus seguidores e fiquei mais tranquilo. Sabia que, independente de qualquer crítica que viesse ou se eu perdesse, que foi o que aconteceu, eu ainda teria o carinho das pessoas que estavam torcendo por mim.

– O fato de você ter desfilado sem camisa e de ter exibido o peitoral sem cirurgias também foi bastante comentado. Foi tranquilo para você desfilar de peito aberto?

Foi um grande desafio para mim. A primeira vez que fiquei sem camisa em público foi no réveillon deste ano, na praia. Lá só duas pessoas olharam para mim, mas não teve aquilo de “ó, que absurdo”. A maioria levou de maneira totalmente natural. Como foi meu primeiro concurso, ficar sem camisa ainda é um pouco difícil. Senti vergonha no começo, nervoso, mas não tinha jeito, eu tinha que colocar o meu corpo pra jogo. Até porque a minha ideia era mostrar pro concurso outro tipo de beleza, mostrar que nós, pessoas trans, somos belos e belas pelo que somos, independentemente de cirurgia. Ninguém precisa sentir vergonha do corpo que tem.

– O que você pensava nos momentos em que estava desfilando?  

Ficava ansioso. Porque uma coisa é a gente tirar foto, desfilar só pros jurados, mas quando você vai aparecer ao vivo no canal do Youtube, com uma plateia enorme vendo você, caraca, foi realmente algo que me deixou nervoso. Mas já que estava ali, usei aquele medo pra me superar. Eu sabia que não seria fácil, mas não estava ali só por mim. Então eu pensava que estava lá por todos os meninos que tem o sonho de tirar a camisa em público, de tirar uma foto ou de ir à praia sem camisa. Eu estava lá por eles. Também estava pela minha esposa, que tem uma marca devido a um câncer hormonal, e que muitas vezes não gosta de mostrar quando vai na praia ou na piscina. Eu estava mostrando que nosso corpo é bonito do jeito que é.

– Você sente que, para além de uma vontade individual, há quem te pressiona a fazer a cirurgia no peitoral?

Existe uma imposição e uma pressão da sociedade, sim. Às vezes as pessoas perguntam: “Ah, você não pretende fazer a cirurgia para masculinizar mais o seu corpo?”, “Não vai fazer musculação para disfarçar o peito?”. Mas esquecem que se você não fizer a cirurgia você não vai ser menos homem. Cabe a gente parar e refletir: Se estou bem comigo mesmo é o que importa. Eu nem discuto e deixo a pessoa falando. Até quero malhar porque sempre gostei de um corpo mais musculoso e por conta da saúde, mas estou bem com o meu corpo. No momento não penso em fazer a cirurgia no peitoral, até porque tenho medo da ideia de estar numa mesa de cirurgia (risos). Eu gosto de mim assim, mas é claro que opiniões mudam e não sei se mais pra frente eu vá querer fazer. No momento estou bem como estou.

– Como foi não ter chegado ao TOP 6?

Fiquei chateado, principalmente por nem ter ido ao TOP 12. Me dediquei muito, me esforcei pra caramba, tive semanas em que até passei mal por tentar conciliar tudo: faculdade, trabalho e concurso. Dei o meu melhor e o meu sangue. Por mais que eu não tivesse ido bem na primeira prova, na segunda eu já estava muito melhor e estava evoluindo muito. Eu já sabia que não ganharia, até porque sou baixinho, mas fiquei chateado.

– Coisas de concurso de beleza…

Mas eu acredito que Deus tem planos maiores para mim. Posso não ter ganhado a faixa, mas ganhei algo melhor, que foi o carinho de todos Estar conversando com você também, por exemplo, que é algo que o Mister Rio de Janeiro não ganhou (risos). Também tentei absorver muita coisa para conseguir passar para outras pessoas que queiram participar.

– Antes de ser mister você já trabalhava como modelo, né?

Procurei uma agência porque sempre quis ser modelo. Fez um ano que estive contratado, mas não considero um trabalho, porque nunca ganhei nada, não fiz nenhum trabalho que possa se dizer trabalho. Às vezes a gente faz um desfile pequeno para uma loja da cidade, faz umas fotos e só. A gente não recebe, é só divulgação mesmo. Mas essa é uma ideia que eu sempre tive desde criança: quando for homem, eu quero ser aqueles de capa de revista, de tirar foto, ser bonito. Hoje eu trabalho mesmo como operador da Michelin. Sou o primeiro homem trans a trabalhar em indústria da América do Sul. Então tem muita coisa pra contar a respeito da Michelin.

– Como foi que se tornou operador da Michelin?

Quando mandei meu currículo, ainda estava com o nome anterior. A minha sorte é que, como sou muito carismático, contei minha situação para o RH, dizendo que queria que as pessoas me tratassem com o nome social masculino. E ela se dispôs a me ajudar. No começo, a ideia era que eu fosse chamado pelo meu sobrenome, até porque eu não havia iniciado a transição. Então todos me chamavam de Rabello. Mas daí vieram pessoas do RH de Campo Grande para conversar comigo, para que a empresa soubesse o que poderia fazer para o ambiente de trabalho ser agradável para mim, para que eu não sofresse nenhum tipo de preconceito. Eles me deram todo o apoio: colocaram o nome social no crachá, em todos os documentos que eram visíveis e em dezembro eles reformaram o vestiário masculino para que eu pudesse usar.

– Por qual motivo reformaram?

O boxe era todo aberto, os homens ficavam pelados, tomavam banho sem porta. Para a minha ida ser mais confortável, eles tiveram que colocar portas e fazer uma obra para que eu pudesse usar. Eu janeiro entrei para o vestiário masculino.

– Como é o seu trabalho lá?

Sou operador de produção e rodo turno. Cada semana estou em um horário diferente. Nessa semana estou trabalhando das 8h às 4h, semana que vem vou estar das 4 à meia noite, na outra vou estar da meia noite às 8h e assim vai. Folgo todo domingo. Não acho que tem nada difícil no meu trabalho.

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Bernardo Ribeiro: “Diretamente nunca fui alvo de transfobia”

– Foi fácil se entender homem trans, sendo que não tinha outros exemplos na cidade?

Descobri primeiro por causa do Thammy Miranda e depois quando percebi que não estava feliz com o meu corpo. Isso dos 19 aos 20 anos. Procurei uma psicóloga e ela falou de outros homens trans e eu vi que era isso. Mas é preciso dizer que quando a gente pensa em homem, a gente vê a voz, a barba, o pelo, mas têm muitos homens que não têm nada disso, não podem passar pela hormonioterapia até por questão de saúde e eles não são menos homens por causa disso. Até onde eu sei, sou o primeiro homem trans da cidade que “saiu do armário”. E muitas pessoas acabam vindo falar comigo para tirar dúvidas, fazer perguntas, tanto que sou fundador do grupo Diversidade de Resende. Acho que as mulheres trans e travestis acabam aparecendo mais na militância e na política, porque são elas as que sofrem mais. Os homens trans, principalmente aqueles que têm a passabilidade e fizeram a retificação, não sofrem tanto quanto elas.

– Você já foi alvo de transfobia?

Diretamente não. Ninguém nunca me parou para me atacar e me ofender. Sofria muito quando eu me assumi lésbica. Eu estava num colégio de freira e as meninas não gostavam que usasse o mesmo banheiro que elas, não queriam fazer trabalho comigo, não queriam conversar comigo. Eu era muito excluído. Quando eu cortei o meu cabelo bem curtinho, eu sofri muito. Passava na rua e as pessoas me zoavam: “Menino ou Menina?”, gritavam na rua, faziam brincadeiras de mal gosto, sendo que na época eu não sabia que era um trans. Eu sofria muito.

– Hoje você namora. Como foi que se conheceram?

A gente se conhece desde a escola, mas nunca conversamos. Quando nos aproximamos, eu estava no início da minha transição, mas ela já olhava para mim antes da transição. Ela me apoia em tudo, assim como eu a apoio.

– Também conta com o apoio dos seus pais?

Eles acham incrível tudo isso, ver até onde eu cheguei e o que estou conquistando. Meus pais veem tudo com orgulho.

– Pretende participar de outros concursos e seguir uma carreira artística?

Eu pretendo. Quis descansar um pouco a cabeça, pois realmente passei por muita coisa, mas quero sim voltar com o foco nos treinos, seguir na carreira de modelo ou ator. Quero terminar a faculdade de Educação Física e quem sabe ser um futuro educador físico. No momento tem aparecido muita parceria, uma agência de modelos do Rio de Janeiro entrou em contato comigo também. São oportunidades que eu quero agarrar e fechar essas parcerias. Quero ver o que vai dar e, se for para dar em nada, pelo menos eu tentei. Se for para ser, vai ser. Somos capazes de sermos o que quisermos ser. Só nos basta força e união. Juntos somos mais fortes.


* Entrevista foi realizada por Neto Lucon
*A revisão é de Vivian Navarro

Ela é assistente judiciário, andreense, feminista e ativista dos direitos humanos.


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