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Filme ‘Antes que ele chegue’ retrata corrida de LBTs para casamentos e retificações de nome: “A gente tem o direito de viver”

Imagem de destaque - Antes que ele chegue
(Foto: Divulgação)

Por Camila Nishimoto

O atual presidente, Jair Bolsonaro, tomava posse do mais alto cargo executivo do país há pouco mais de seis meses. Mas o medo e o retrocesso não esperaram o dia 1º de janeiro de 2019 para tornarem-se ainda mais presentes na vida de muitos brasileiros e brasileiras, antes mesmo da contagem de votos no segundo turno das eleições.  

Somente em outubro de 2018 foram registradas mais de 50 ocorrências de agressão cometidas por apoiadores do atual presidente. Assim que sua ascensão ao poder foi confirmada, iniciou-se um outro fenômeno: uma corrida aos cartórios para realização de casamentos e uniões estáveis entre pessoas do mesmo gênero e para a retificação de nome nos documentos de pessoas trans e travestis.

A cineasta e professora da UFPE, Clara Angélica, tomou conhecimento dessa movimentação e viu que era preciso agir para registrá-la, usando o cinema como condutor. “Começou um movimento porque as pessoas sentiram a necessidade de construir coletivamente esse documento”, recorda Clara, em entrevista ao NLUCON.

A partir disso nasceu a ideia para o documentário “Antes que ele chegue”, que retrata esse momento de pressa de pessoas LBT para solidificarem a legalidade de suas existências frente ao risco iminente de terem suas liberdades ainda mais cerceadas pelo governo Bolsonaro.

Sem o G

O filme retrata apenas personagens mulheres (cis ou trans) ou travestis. Destacar vivências que não fossem masculinas foi uma escolha consciente de Clara ao montar o roteiro. Ela diz que optaram por esse recorte “por dois motivos: primeiro porque ele sempre disse que nós somos o resultado de uma fraquejada. A gente está mostrando que fraquejada é essa”, explica Clara, em referência ao vídeo no qual Bolsonaro diz que teve uma filha porque “deu uma fraquejada”.

“Depois porque eu acho que o cinema fala muito pouco das meninas LBTs. É muito mais dos meninos, os documentos que a gente tem são muito mais dos meninos do que das meninas”, pontua ela.

Antes que ele chegue - set de gravação
Parte da equipe do filme Antes que ele chegue em set de gravação (Foto: Arquivo Pessoal)

O filme conta com mulheres cis, trans e travestis com as mais diferentes vivências. Um dos objetivos do documentário é expor quem são elas e o que fazem para mostrar que “não vão parar de lutar”. “A gente quer entregar no filme a vida das meninas. O que elas fazem? São professoras, são fisioterapeutas, são estudantes, são advogadas, são doutorandas, são mulheres classe média, são mulheres negras, são mulheres periféricas.”, enumera Clara.

Para ela, evidenciar isso é uma maneira de buscar a garantia do direito à cidadania que todas elas têm. É dizer “nós estamos aqui, nós produzimos, nós somos cidadãs, e aí? Nós temos todos os direitos, inclusive o direito básico que é o direito à vida. Tem coisa mais básica do que essa?”, completa a cineasta.

O título

Quando perguntada sobre o significado do título do documentário, Clara explica que não é uma referência direta à posse de Bolsonaro, mas ao seu poder de fragilizar ainda mais o acesso da população LBT aos direitos básicos de cidadania que são o nome e o casamento. “Tanto os casamentos quanto as retificações de nome estão no nível da jurisprudência. Eles ainda não são lei. Então antes que ele chegue e consiga tirar essas conquistas, a gente tem que avançar, tem que resistir, tem que lutar.”, explica ela.

“Porque a gente tem direito de viver, no mais amplo sentido e sentimento da palavra. A gente tem direito de ser quem a gente quiser, a gente tem direito de amar quem a gente quer, a gente tem direito de ir e vir, porque o filme não só retrata o medo. O medo pode ser a causa, mas não é o motivo”, finaliza a diretora do documentário.

Construção coletiva

“Eu não tinha – e ainda não tenho – 1 real para fazer o projeto, mas me cerquei de pessoas e apresentei o que tinha em mente. Imediatamente elas compraram a ideia”, relembra Clara. Por tratar-se de um tema atual e que precisa de visibilidade imediata, tornou-se inviável aguardar a participação burocrática e demorada em editais culturais de patrocínio e financiamento, que tornaram-se ainda mais escassos no novo governo.

“O MiC acabou, a Petrobras acabou, todos os aliados da cultura foram retirados de cena. A prova disso são os festivais nacionais que estão correndo perigo de não acontecerem porque todos perderam os seus patrocinadores federais. O financiamento coletivo, a construção coletiva é o caminho. Ou a gente se une ou a gente se junta. Não tem outra alternativa”, pondera Clara.

Por isso, todo o documentário foi construído através de voluntariado. A equipe principal era formada por 4 fotógrafos e 4 profissionais de som, além de Clara Angélica, Luciano Campelo e Jô Conceição, que coordenaram a captação de imagens e direção. O filme também conta com o apoio da produtora Opara Filmes.

“Formamos um grupo e fazíamos uma agenda: ‘Hoje tem essa história, quem pode ir?’. E nunca fomos para uma diária ou para um set com um fotógrafo só.”, comenta a diretora. A construção coletiva do filme fez com que ela acreditasse nas pessoas. “Isso é muito incrível. Como tem pessoas que se solidarizam e entendem o projeto, independente de estar ou não inserido como LGBT”, conta emocionada.

Além do apoio de voluntários, Clara também reverencia a coragem e confiança das entrevistadas que aceitaram fazer parte do documentário. “Foram momentos de muita confiança. Porque essas meninas se entregaram e confiaram a história delas, a vida delas ao projeto, nesse momento tão f*dido que a gente está vivendo. Eu agradeço demais, sou muito grata. Não tenho nem palavras para dizer dessa confiança, sabe? Porque sem ela nada disso poderia acontecer.”, conclui a cineasta.

O filme foi rodado em 2018 e atualmente está em fase de pós-produção, mas que ainda depende de um financiamento coletivo para chegar às telas. Você pode conferir o teaser do documentário aqui embaixo e fazer a sua contribuição através da Benfeitoria do projeto clicando aqui.


Camila Nishimoto é jornalista, feminista e está sempre querendo abraçar o mundo.
Twitter: @CamilaNishimoto


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