Gabeu fala sobre sucesso do “pocnejo”, relação com pai Solimões e revela se já viveu um amor rural

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Por Neto Lucon
Fotos: Henrique Suenaga

Gabriel Felizardo, 21 anos, se tornou conhecido nacionalmente pelo relacionamento mega fofo com o pai Solimões, da dupla com Rio Negro. Mas nas últimas semanas ele anunciou a carreira musical no sertanejo, o nome artístico Gabeu e um hit que está na boca do povo: “Amor Rural”.

A música, que resgata o sertanejo raiz, foi escrita em parceria com o namorado, Well Bruno, e fala sobre o romance entre dois homens em um ambiente rural. Ela também ganhou um clipe fofo, divertido e gay, com direito a uma maquete de fazenda e muita pinta.

Com referências que vão de Milionário e José Rico a Lady Gaga, Gabeu viu sua música ser batizada pelos fãs de “poc nejo” e  viralizar rapidamente. São mais de 500 mil visualizações no Youtube só no primeiro trabalho. Além de levantar a importante discussão sobre a importância da representatividade LGBT dentro do universo sertanejo.

Em conversa exclusiva com o NLUCON, o artista falou sobre como vem sendo a sua entrada no universo sertanejo, a recepção do público, os objetivos na carreira e se ele já teve algum amor rural. Confira:

– Você lançou “Amor Rural”, uma música dançante, divertida e que levanta a bandeira. Como surgiu a letra?

A música foi composta por mim e pelo meu namorado. Surgiu de uma brincadeira. Ele me mandou o refrão da música por mensagem e falou: “Olha o que eu escrevi aqui de zoeira”. Aí a gente riu, mas na hora eu pensei: “Muito boa essa sacada, vamos continuar escrevendo”. Aí eu peguei e compus o restante da música. Foi uma parceria de composição.

– Já chegou a viver algum amor rural ou tem alguma experiência que mostre alguma relação da sua orientação sexual no cenário rural?

Essa pergunta é incrível (risos). Mas não. Tem muita gente perguntando se Amor Rural é inspirado em alguma história, em algum romance que eu tive na fazenda. Mas ela surgiu mesmo de uma brincadeira. Por mais que eu seja do interior, e tenha vivido durante 18 anos no interior, eu cresci no centro da cidade e hoje moro em São Paulo. A minha vida e a minha relação com o ambiente rural era nos fins de semana, nas férias, quando eu ia pra fazenda com a família ou com o meu pai. Eu tive as minhas vivências na roça, mas nada nesse sentido.

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– Como foi a concepção e gravação do clipe?

A música em si já remete ao sertanejo raiz, os timbres…  Então a gente quis trazer essa estética para o videoclipe também. Colocamos efeitos de VHS, um cenário rústico, o figurino, com chapéu e calça que lembrasse um fazendeiro. Também montamos uma fazendinha de maquete. Tudo isso fazendo a referência da vida na roça, as questões do interior. Foi muito divertido pensar o clipe, porque trabalhei com uma equipe reduzida, formada por meus amigos, e as ideias fluíram bem, a gente se comunicou bem. No dia de gravar foi tranquilo, apesar do nervosismo que sempre rola.

– Como foi que decidiu investir na música sertaneja? De alguma forma se viu influenciado pelo trabalho do seu pai?

Quando eu nasci, o meu pai já tinha lançado alguns discos e já estava trabalhando como cantor. Então a música foi muito presente na minha vida, sobretudo a música sertaneja. E desde pequeno eu gosto de cantar. Já fiz aula de teclado, piano. Com 12 pra 13 anos eu comecei a compor as minhas próprias músicas, então sempre soube que queria levar a música na minha vida de alguma forma. Senão profissionalmente, ela estaria ali como um hobby. Só de uns tempos pra cá eu decidi me arriscar mais, me jogar mais. Inclusive paralelamente estou fazendo faculdade de produção musical.

– Quais são as suas referências no sertanejo?

Minhas referências musicais são muito variadas. Além do Rio Negro e Solimões, eu escutei muito os clássicos do sertanejo raiz, porque o meu pai escuta muito e eu automaticamente acabei ouvindo. Daquilo que ouvi, os clássicos me influenciaram muito. Tonico e Tinoco, Chitãozinho e Xororó, Lorenço e Lorival. Mas acho que Milionário e José Rico são os reis da música sertaneja.

– Tem alguma diva?

A minha diva mor é a Lady Gaga. Sempre fui fã dela desde o começo da carreira e sou fã até hoje. Acho que ela é uma artista incrível e completa, que se sai bem em tudo o que se propõe a fazer. É uma das minhas maiores influências, senão a maior. Também admiro muito e escuto muito essa galera independente que está surgindo, principalmente em SP. Sou apaixonado pelo Jaloo, Mc Tha, Mia Badgyal, Potyguara Bardo. Gosto do conceito estético, pelas letras, pela autenticidade.

– Existe uma ideia de que LGBT não gostam de sertanejo. Por acha que isso acontece?

É um meio predominantemente masculino e hétero e isso distancia a comunidade LGBT. A gente não se identifica nem com as figuras que estão representando o sertanejo – os maiores nomes da música sertaneja são de homens héteros.  E nem com o que eles estão cantando – que é sobre relacionamentos heterossexuais e coisas que não fazem parte da nossa vivência, do que a gente é. Existe essa coisa de que gay não gosta de sertanejo, mas me pergunto: até que ponto a gente não gosta porque a gente só não se sente representado? Mas isso tudo não descarta o fato de que há grandes cantores sertanejos, que cantam muito bem compõem muito bem. Quando toca Evidências, por exemplo, todo mundo canta sofrendo, sentindo a dor da música e isso é incrível. Só que quando a gente começa a pensar nas outras questões é um pouco assustador. Teve uma fase da minha pré-adolescência e adolescência que eu meio que negava o sertanejo e tudo o que era das minhas raízes mesmo.

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– Como foi que você superou a fase de negação e passou a querer ser um artista de música sertaneja?

Durante muito tempo, por essas questões de representatividade e de não me enxergar no sertanejo, eu só queria saber de música pop gringa; Lady Gaga, Britney Spears. Aí fui crescendo, passei pelo processo de autoaceitação, a saída do armário e as coisas foram encaminhando. Eu já queria trabalhar com música, mas o pop ainda estava um pouco apagado no Brasil naquela época. Quando veio a Anitta, a Pabllo, muitas pessoas se sentiram encorajadas a mostrar o que elas tinham pra oferecer. As pessoas se jogaram, fizeram as coisas que queriam fazer, da forma que queriam fazer. Inicialmente foi no pop, mas depois comecei a ver as pessoas indo além. Tem bixa se jogando no brega, se jogando no rap, tem o Rico Dalasam, a Quebrada Queer. E eu vi que todo mundo estava encontrando o seu lugar artisticamente falando. Aí comecei a me questionar.

– Quais foram os questionamentos?

Qual é o meu lugar nesse cenário? Aí comecei a questionar também essa falta de representatividade no sertanejo e a amadurecer a ideia de como poderia fazer isso: mesclar o sertanejo, que é muito forte em mim, e o fato de eu ser gay, que também é muito forte em mim. Me preparei, comecei a compor e as coisas foram fluindo criativamente. Também tive ajuda de pessoas que gostam de mim e que acreditam nos meus projetos.

– O que o público tem falado sobre Amor Rural?

Recebo muita mensagem das pessoas dizendo que elas não se sentiam representadas no meio e que agora estão muito felizes por se enxergarem nesse estilo musical. Porque para muitas pessoas, principalmente aquelas que são do interior, o sertanejo é muito forte, elas crescem escutando a música sertaneja, mas ao mesmo tempo não se enxerga naquilo e acaba consumindo outro tipo de coisa. Outras disseram: “Agora eu gosto de sertanejo”, “Vou começar a ouvir sertanejo”, “Só assim pra ouvir sertanejo”. Então estou conseguindo o que eu queria, que é trazer o sertanejo para pessoas que não consomem esse tipo de música porque não se sentia representado, assim como eu.

– Já recebeu algum comentário homofóbico?

Diretamente não. Eu recebi coisas online, mas é internet, né? Internet a gente lê, abstrai, joga fora, finge que não viu e é isso.

– O título “pocnejo” pegou. Como define o estilo?

Pegou realmente. E eu amei, porque achei perfeito para definir o que faço. O pocnejo é o sertanejo, bebe das fontes, carrega as mesmas características sonoras, mas o que muda é o locutor. As narrativas são outras, as histórias são outras, as vivências são outras. Não é mais o homem hétero cantando sobre o amor que ele sofreu, sobre o pé na bunda que ele levou da mulher. Então o que acaba ocorrendo é o olhar de um garoto gay, que está se relacionando com outro homem.

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– O termo “poc” há um tempo atrás era bastante pejorativo e ninguém gostava de ser referido como tal. Acha que houve uma ressignificação e empoderamento?

O termo poc era pejorativo, assim como viado era. Acho que viado foi ressignificado, porque hoje dentro da comunidade a gente se refere uns aos outros como viado e, pra gente, é normal. Acho que o termo poc está caminhando pra isso. Acho que já está inclusive na boca das gays, como algo não pejorativo. A gente já está dando outro significado para a palavra e usando ela a nosso favor.

– Além de você, são raros os cantores sertanejos que declaram publicamente ser gays. Por que acha que isso acontece? E como você está disposto a combater a LGBTfobia?

Acho que até hoje ninguém se arriscou muito nesse meio porque não é um meio que abre as portas e diz: “Vem cantor gay, cantora lésbica, a gente vai te abraçar com amor e carinho”. Não, ele não faz isso. Inclusive eu não tenho a ambição de achar que o sertanejo vai me abrir portas ou que eu vou fazer parte do meio sertanejo e estar em contato com outros cantores sertanejo. Estou mais em outro rolê, justamente por essas questões mesmo. Hoje, tem rolado uns convites sim, mas não para festa de peão.

– Chegou a conhecer outros artistas LGBT que cantam sertanejo?

Muita gente veio atrás de mim e disse: “Eu sou músico também, canto sertanejo”. São cantores que fazem cover, que postam vídeos cantando no Youtube e fazendo shows em bares. Ou seja, pessoas que estão começando também. Elas assistiram o clipe, vieram falar comigo e eu achei tudo, tudo. Tem uma artista específica, que eu conheci antes de lançar Amor Rural: a Reddy Allor. É uma drag queen que canta sertanejo, só que é mais estilo feminejo, como Marília Mendonça, Maiara e Maraisa. Ela tem um single chamado Tira o Olho. A gente conversa super, porque a gente está no mesmo barco, viramos amigos instantemente.

– Ser cantor e filho de uma pessoa famosa ajuda ou atrapalha a carreira?

Ajuda bastante. Acho que, se não fosse o nome que o meu pai tem, não teria tido essa repercussão toda. Todas as matérias que saíram falam disso: “Filho do Solimões lança música”, “Filho dos Solimões lança pocnejo”. Então por eu ser desconhecido, nunca ter lançado nada, não ser uma pessoa pública – agora que vim a me tornar – é normal que as pessoas se refiram a mim como filho do Solimões. O trabalho agora é ir desvinculando, para que eu não viva a sombra do meu pai, para que eu crie a minha identidade e que as pessoas me reconheçam enquanto Gabeu.

– A relação fofa com o Solimões vem sendo abordada bastante pela imprensa. O que ainda não teve a oportunidade de falar?

Eu só queria ressaltar que essa aceitação que o meu pai tem em relação a mim se dá pelo afeto e que isso não quer dizer que ele seja uma pessoa engajada e entendida de todas as questões do movimento LGBT. Tem muita coisa que a gente discute, no sentido de diálogo, coisas que a gente dialoga que eu tento desconstruir na cabeça dele. É um processo ainda. Eu queria desmistificar essa relação perfeita que talvez esteja na mente de algumas pessoas. É uma relação de desconstrução constante e de muito diálogo e respeito.

– O que pretende a partir de agora?

Pretendo seguir carreira, fazer shows… Amor Rural foi só o primeiro passo disso tudo. Estou com várias ideias na minha cabeça e estou amadurecendo cada uma delas para produzir coisas bacanas e que as pessoas gostem.


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Um comentário sobre “Gabeu fala sobre sucesso do “pocnejo”, relação com pai Solimões e revela se já viveu um amor rural

  1. Interessante! Primeiro que é bem interessante e muito bom que a comunidade LGBT comece a ter representação em todos os nichos sociais, independente de gosto é um nicho artístico, que traz visibilidade e a possibilidade de desconstrução de conceitos do nicho em si. E isso é importante em um aspecto geral. Pessoalmente tenho asco de “sertanejo raiz” e “moda de viola”, conheço alguma coisa por influência paterna e 90% daquilo tudo possui letras absolutamente misóginas, que fazem alusão a relacionamentos abusivos e violência contra a mulher de forma natural e aceitável.

    O que ele disse sobre o pai, no fim, me lembrou o meu. As pessoas achando que tinhamos alguma boa relação, que ela era “o cara meio hippie sem preconceito algum”. Mas nunca foi assim, nunca foi desconstruído, nunca amou, aceitou, se relacionou. Simplesmente nunca fez o extremo oposto como agredir, mas nem de longe era uma boa relação, era um sujeito sem preconceitos. Não aceitou e ainda levantou aquele rótulo de “é assim que aceito”. São relações complicadas, especialmente se há dependências se há ainda tentativas de resgaste e construção de aceitação. O que, quando acontece, é bom pois há alguma desconstrução.

    Curti! Muita sorte para o “pocnejo” então. 🙂

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