Conheça 5 cantores sertanejos LGBT que levantam bandeira, quebram preconceitos e transformam o gênero

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LGBT do sertanejo formado por Duda, Gabeu, Reddy, Melany e Cristiano

Duplas sertanejas formadas por homens brancos, héteros e cis, que cantam sobre amores e sofrências no palco, fazendo a linha machão nos bastidores e aos olhos da imprensa. O enredo repetido em massa, principalmente nos últimos 30 anos com o sertanejo romântico, fez com que fosse criado um padrão no estilo. E ele aparece até mesmo entre as mulheres: todas brancas, héteros e cis. Tudo isso poderia indicar que a diversidade LGBT jamais teria voz e vez. Mas isso está mudando.

Nas últimas semanas, notícias envolvendo a comunidade LGBT dentro do universo sertanejo ganharam força novamente quando Gabriel Felizardo – o Gabeu – lançou a música e o clipe Amor Rural. Ele é filho do cantor sertanejo Solimões, da dupla com Rio Negro, e já virou o representante do “poc sertanejo”, já que como ele mesmo diz “falta representatividade” no gênero.

Para quem não sabe, “poc” é um termo usado entre pessoas LGBT para designar um homem homossexual que é mais feminino e chamativo. A gíria já foi usada de maneira pejorativa, mas hoje foi ressignificada e usada de forma empoderada.

No hit, ele canta de maneira leve, divertida e cheia de representatividade sobre o romance entre dois homens gays que se conhecem em uma fazenda. Aliás, a música foi escrita em parceria com o namorado, Well Bruno, e diz: “Vamo assumir o nosso amor rural Larga a inchada e pega no meu *** Quero montar na sua cela Cavalgar até ela descobrir Que nóis é viado”.

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Gabeu adorou o título pocnejo dado pelos fãs (Crédito: Henrique Suenaga)

Nas redes sociais, a repercussão positiva sobressaiu ao preconceito. Foram 46 mil likes contra 5,7 mil dislikes, com muitos comentários elogiosos. “Nunca gostei de sertanejo, mas pocnejo, foi totalmente diferente”. “Brokeback Montain merecia essa música”. “Gente, sertanejo é super machista, isso é uma evolução”. “As poc são o viver desse mundo, respeita caralho”, foram alguns deles.

Porém, apesar da repercussão, é preciso dizer que a presença de cantores e cantoras LGBT no universo sertanejo não é algo recente, apesar de sempre levantar curiosidade, virar notícia e até polêmica, dado o preconceito existente no gênero. Nos últimos anos, há outros casos de artistas que levantaram a bandeira, combatem preconceitos e que vem ocupando o seu lugar ao sol.

QUASE LÁ

A primeira vez que falaram sobre uma dupla formada por gays ocorreu em 1996. Foi quando Rosa e Rosinha percorreram programas de TV com roupas cor-de-rosa, paródias de músicas famosas falando, muitas delas falando sobre ser gay e com muita pinta para deixar qualquer Damares de cabelo em pé.

Em entrevista, a dupla conta que no início da carreira os demais cantores tinham preconceito, dizendo que elas manchavam a imagem da categoria. Contudo, Rosa e Rosinha, ou melhor José Renato Castro e Daniel Cardamone Sanchez, fazem apenas personagens gays. Na vida particular eles são declaradamente… Heterossexuais.

Outros cantores também foram apontados como gays ao longo dos anos, mas sempre tratou de especulações. Luan Santana disse, em entrevista, que ficava triste com as insinuações de que ele fosse gay. O cantor Daniel teve que desmentir em programa de detector de mentiras na TV que era gay. Luciano, da dupla com Zezé de Camargo, vem sendo apontado como gay pela ex-mulher, como se isso fosse uma ofensa, e nunca comentou as declarações.

Os questionamentos acerca da sexualidade dos artistas são comuns, feitos muitas vezes como tentativa de ofensa e até visto como tentativa de prejudicar a carreira, e nunca foram confirmados pelos próprios envolvidos.

PIONEIRISMO DAS BOFINHAS

Dentre as artistas que realmente são do “vale LGBT” destacamos o pioneirismo da dupla As Bofinhas, com Aline Criscolim e Eduarda Maria, lançadas no fim de 2012. Com visual e comportamento atribuídos ao masculino, elas cantavam de maneira divertida, apostando sempre no duplo sentido das letras, sobre diversos temas, dentre eles o amor entre mulheres. Chegaram a participar de muitos programas de TV, bem como o extinto Gabi Quase Proibida, apresentado por Marília Gabriela, no SBT.

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Duda trabalha a música Talco nas Coisinhas (Crédito: Edmar Crespo)

Nas entrevistas, elas disseram que sempre sonharam em cantar sertanejo, mas que não queriam esconder que são lésbicas do público. Segundo Duda, tudo começou com uma brincadeira nas redes sociais e, de um dia para o outro, viu sites de todo o Brasil as anunciar como “a primeira dupla gay do Brasil”. Foi quando o divertimento ficou sério e virou profissão. Gravaram as músicas “Surra de Língua”, “Saindo do Armário”, “A Onda é Só Ficar” e “Dá uma Chupadinha” e fizeram shows por todo o Brasil.

Seis anos depois, muita coisa mudou na vida das Bofinhas, que deixou, por exemplo, de ser uma dupla. Duda, que mora no Rio de Janeiro, conta que a antiga parceira, que morava no estado de São Paulo, foi decidindo sair a partir de 2014 para se dedicar a projetos pessoais. Sabe-se que ela cursava faculdade de direito. Posteriormente, Duda tentou outras parcerias que, por diversos motivos, também não deram certo.

“O que acontece é que querem o sucesso muito rápido, mas não é assim. O sucesso vem se a gente trabalhar por ele. Fiquei muito triste com as desistências, mas não posso obrigar ninguém a ficar onde não quer. Então decidi seguir carreira solo. Não é fácil, mas este é o meu sonho, está no meu sangue, é o que mexe comigo ”, diz a cantora ao NLUCON.

Cheia de gás, a artista divulgou há dois meses a divertida música “Talco nas Coisinhas”, que está fazendo sucesso no nordeste, e se prepara para lançar a música “Top das Tops”, que fala que a mulher deve ser enaltecida. “Meu público tem de 18 a 60 anos e 75% são mulheres. Canto em todos os lugares, não só para LGBT, e muitos homens me param na rua, me chamando de Bofinha. Também não me importo com as críticas e piadas. Elas só me levantam e me deixam mais forte”, declara.

FEMINEJO TRANS

A cantora Melany Marinho, de 28 anos, investe na voz gostosa, canções de amor e dançantes para conquistar os fãs do sertanejo. Ela é uma mulher transexual – que iniciou a carreira há 12 anos cantando com o irmão gêmeo – e desbravou com pioneirismo o cenário do feminejo – sertanejo cantado por mulheres – de Manaus, que segundo ela era carente de representantes mulheres, sejam elas cis ou trans.

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A cantora afirma que seguir na carreira não foi tão simples, principalmente pelos comentários desmotivadores e machistas de que nunca conseguiria chegar lá. Durante alguns anos, preferiu evitar dizer que é uma mulher trans ao grande público, até pelo receio de dobrar o preconceito e perder oportunidades. Hoje ela fala com orgulho e consciente do seu papel em quebrar paradigmas.

“Se eu disser que não sofro transfobia estaria mentindo. Enfrento isso todos os dias, enfrento resistência de me contratarem e já fui agredida uma vez. Mas hoje pessoas sabem que há uma mulher transexual representando outras mulheres no ramo sertanejo. E me orgulho disso. Em muitos shows, vi pessoas rindo de mim, mas quando desço, recebo da maioria delas um aperto de mão, um abraço e um elogio. Isso faz a diferença”, diz.

Criada em berço sertanejo, Melany tem como referência o sertanejo de raiz, bem como Roberta Miranda e Irmãs Galvão, e se apresenta principalmente em casas de shows de Manaus. Além de embalar sucessos de outros artistas, a cantora também tem músicas autorais, bem como “Eu Neguei” e “Aviso”. “Escrevo minhas próprias músicas baseando nas experiências das pessoas e também nas minhas experiências. O cotidiano é uma excelente fonte de inspiração”, declara.

Neste mês, Melany participou do Programa Boteco, da Band Amazonas, cantando sucessos da cantora Marília Mendonça. Ela mostra todo dia e a cada apresentação que está no lugar onde sempre quis e merece estar: lá, no palco!

DE OLHO NO DRAGNEJO

Se Pabllo Vitar faz sucesso no pop, outra drag queen vem embalando músicas autorais e de sucesso no sertanejo. É a Reddy Allor, de 20 anos, que canta profissionalmente desde os 12 anos por influencia da família. Antes, formava dupla com o irmão mais novo, Gah Bernardes, e fazia shows no interior de São Paulo. Até que ela fez o outing, passou a ir mais feminina nos bailões e, hoje, trabalha em carreira solo como cantora drag queen.

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Reddy quer que LGBT se identifique no sertanejo (Crédito: Guilherme Martinez)

“Entendo que a drag é como meu alter ego, como a extensão do que eu sou. Eu sempre fui muito de criar, desde muito novo, e eu acho que a Redd é a evolução do meu lado artístico”, declara a cantora. “Resolvi me manter no sertanejo porque é o que eu sempre escutei, de forma que é algo verdadeiro e que não vai soar falso para o público. Também quis ficar no estilo para que as pessoas entendam que não existe um padrão”, defende.

O nome Reddy Allor veio das palavras “vermelho” e “preparada” em inglês e de uma maneira de se empoderar do bullying que sofria na infância por ser ruiva. “Sempre me senti afastado das pessoas, porque elas usavam o fato de eu ser ruivo para me atacar. Acho que a gente cresce com traumas, ainda mais sendo afeminado. Então é uma forma de eu me sentir mais forte, de mostrar que sou ruivo, sim, que sou viado, sim e que vão ter que me engolir desse jeito”. Sempre de peruca vermelha!

Morando em São José do Rio Preto, em São Paulo, Reddy diz que o repertório é inspirado no feminejo e aponta para a semelhança das lutas LGBT e das mulheres. “Vejo que elas ainda são muito diminuídas e estão no sertanejo pelo mesmo motivo: pra quebrar barreiras, para mostrar que podem isso”, declara. Recentemente lançou a música e gravou o clipe Tira o Olho, de composição em parceria com o irmão. Com voz potente, timbre marcante, ela faz um hino à solteirice e dispensa o boy que está de olho nela. Tem mais de 30 mil visualizações no Youtube.

As diferenças na carreira já são sentidas pela artista. Alguns contratantes dos tempos da dupla pararam de convidá-la para cantar. Alguns fãs antigos ficaram chocados no início e agora se curtem. Ela também passou a ser aplaudida por um novo público: o LGBT. Segundo Reddy, o desafio agora é conseguir unir os dois universos e acessar os espaços. “Temos que estar juntos e mostrar que é natural e normal (ser LGBT). Acho que as pessoas ainda estão nesse susto, do que está acontecendo e tentando entender. Creio que agora temos que passar muita informação para que esse susto seja só uma fase e para que eu volte a fechar os contratos”, declara.

SOU HOMEM TRANS

Natural de Cabeceiras, Goiás, Cristiano Sertanejo canta desde os seis anos e sempre gostou de moda sertaneja, além de pagode e baladas românticas. “Sempre vi a música sertaneja como uma vitrine da vida no interior. Podemos descrever as dificuldades que passa o homem do campo para tirar o sustento da família, e invejar a tranquilidade de ter o café no bule, o franguinho na panela, o radinho na rede no fim da tarde. A música sertaneja é a cara do Brasil, simples, mas muito rica”.

Com alguns anos de carreira, esta é a primeira vez que o artista fala publicamente sobre ser homem trans. Ele diz ao NLUCON que “dá um friozinho na barriga” pensar sobre como o assunto vai repercutir, mas acredita que sua dedicação, talento e o contato com o público superam qualquer possível adversidade. “Ser homem trans não diminui meu trabalho e profissionalismo. Levo o meu trabalho muito a sério, conquisto o carinho das pessoas através da minha música e falando diretamente ao coração”.

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O artista diz que o próprio sertanejo deveria fazer parte da sigla LGBT, pois foi um estilo que sofreu preconceito, quebrou barreiras por anos até chegar no patamar de aceitação em todo o país. Ele aponta para um período em que as mulheres tiveram que cantar a vivência masculina para poder trabalhar, sendo que hoje elas podem cantar seus próprios temas e fazer sucesso. “Então acredito que os tempos mudaram e a partir de agora as pessoas vão gostar mais das minhas músicas, pelo contexto da letra e da melodia”.

Com voz poderosa, Cristiano faz shows em Goiânia, onde mora, e já chegou a formar dupla. Hoje, em carreira solo, ele canta tanto músicas autorais quanto músicas de outros artistas. A música “Meu Sertão”, escrita e cantada por ele, está na trilha do filme Maria Luiza, com direção de Marcello Diáz e produção Diazul de Cinema. A obra conta a história da primeira mulher transexual das forças armadas. Outros hits de artistas que aparecem no shows são de Zezé Di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, Rio Negro e Solimões, Bruno e Marrone, Gusttavo Lima e Marília Mendonça.

Dentre as emoções que já sentiu nos shows, o artista destaca o dia em que viu seu pai na plateia. “A reação dele quando me viu cantar pela primeira vez em um palco me marcou bastante. Ele chorou do início ao fim do meu show. Foi inesquecível e muito emocionante. Ele é o meu maior fã”, se emociona.

Hoje, Cristiano prepara uma nova música de trabalho, “Fecha esse Bar”, e estuda lançar carreira nacional. “O que gostaria de falar para as pessoas é que a vida é um trem bala e nós só estamos aqui emprestados, um dia todos nós vamos embora. Então, ame, ame e ame o seu próximo do jeitinho que ele é. O respeito é o princípio de tudo e o amor é a solução para unir o mundo. Espero que vocês me acompanhem nessa nova trajetória da minha vida”.

PASSOS PRA FRENTE E PRA TRÁS

Apesar dos exemplos mencionados, a discussão sobre representatividade LGBT no sertanejo ainda caminha em passos lentos e às vezes recua. Ora surge uma iniciativa, que é amplamente divulgada pela mídia, bem como a criação da primeira festa country gay do país, em São Paulo e Brasília em 2017, ora surge uma declaração LGBTfóbica ou machista de algum cantor cis hétero famoso, que reforça o lugar esperado dos artistas sertanejos.

Em 2016, o cantor Thiago di Melo lançou um videoclipe da música “Para Sempre”, em que trouxe um casal gay como protagonista. O clipe – que contou com dois atores brancos, fortes e não-gays – foi divulgado em diversos veículos, até pela presença do ator global Felipe Titto. Houve declarações positivas, bem como a de que “Um amor é igual a qualquer outro” e, por outro, comentários como “Que sacanagem, botaram um barbudo no meu colo”.

Em 2013, o cantor Diego – da dupla com Vinícius – declarou ao jornal O Diário de que não há espaço na música sertaneja para homossexuais. “Olha, eu não tenho preconceito. Tenho até amigo gay nesse meio. Mas acho que se uma dupla assumisse, não daria certo. Os sertanejos não iriam gostar, não”.

Em 2017, o cantor Rick – da dupla com Renner – fez um vídeo contra os direitos da população trans, usando a falácia de que existe uma “ideologia de gênero”. “Se você acha que seu filho não tem sexo, se seu filho é trans, se o seu filho pode tocar no corpo de qualquer pessoa nua por aí, aplique dentro da sua casa, mas não queiram que as escolas façam isso. É uma aberração”. Vale dizer que “ideologia de gênero” é uma expressão usada por fundamentalistas para dizer de maneira distorcida de que há uma tentativa da comunidade LGBT em transformar crianças cis em trans – o que nunca ocorreu.

Jorge Barcelo, da dupla com Mateus, demostrou seu apoio à população LGBT ao dizer que “o mundo está mudando”, então logo os artistas que são gays podem começar a falar sobre a vida amorosa sem medo de sofrer preconceito. “Vai acontecer. Se você é homem (hétero), pode ser cantor. Se é mulher, pode chegar a ser cantora. Se é (homem) homossexual, também”.

Num cenário de música, aplausos, incentivos e preconceito, os artistas afirmam que as agressões verbais, virtuais e tentativas de desmotivá-los são frequentes, mas que não voltam mais para o armário, tampouco cogitam parar de cantar. Eles demonstram ter força na peruca, no chapéu, na sola da bota, na palma da mão e na convicção do direito de ser o que é, com liberdade para ser e se firmar como um cantor ou uma cantora publicamente LGBT no universo sertanejo. Para todos eles e elas, e tantos outros que estão espalhados pelo Brasil, nós tiramos o chapéu!


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5 comentários sobre “Conheça 5 cantores sertanejos LGBT que levantam bandeira, quebram preconceitos e transformam o gênero

  1. Matéria maravilhosa! Vim por um storie do Gabeu no Instagram. Amei saber que existem outrxs artistxs ocupando esse espaço! Nós existimos e já passou da hora de deixar de sermos invisibilizadxs! Vou conferir todxs xs citadxs! ❤

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  2. O fato de eu não curtir o estilo e não seguir quaisquer cantores não impede de apoiar quem está a busca de um lugar ao sol. Parabéns aessas pessoas. Aproveito para parabenizar a matéria muito bem escrita com profissionalismo e respeito!

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