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Conheça a história de Patricia Araújo (1982-2019), a travesti mais bonita do Brasil

Por Neto Lucon
Revisão: Camila Nishimoto

“A travesti mais bonita do Brasil”. Foi assim que Patricia Araújo foi anunciada em uma entrevista realizada por mim ao site Virgula e ao site Yahoo! em 2011 para falar sobre sua carreira, oportunidade na moda e comentar o novo fenômeno que surgia nas passarelas: a Lea T. O título chamariz “de mais bonita” foi questionado e reivindicado por muitas, mas grande parte compreendeu só de olhar as primeiras imagens.

Com 1,80m, rosto de boneca, cintura fina, olhar sedutor, quadris largos, pernas grossas e uma maneira muito charmosa de mexer nos longos cabelos pretos, Patricia já era considerada um mito de beleza há muito tempo. Ganhou inúmeros concursos de beleza nacionais e na Europa, bem como o Miss Brasil Trans 2002, Miss T-Girl World 2004 e Miss Universo Trans 2005, e inspirava muita gente.

Também havia feito história ao ser a primeira travesti a desfilar no encerramento do Fashion Rio pela grife Complexo B em 2009. E brilhou. O jornal “o Dia” a colocou em uma página inteira com o título: “Que Gisele, o quê? Patrícia Araújo será a grande estrela do Fashion Rio”. E, como Gisele Bundchen era eleita por diversas revistas como a “mais bonita do mundo”, achamos justo retribuir o título de “travesti mais bonita do Brasil” para aquela que ocupou espaço e fez bonito.

Na entrevista por telefone, Patricia disse: “Vencer os concursos sempre foi uma vitória a mais. Nasci um menino, com corpo de menino e espírito de mulher. Hoje sou vista como uma figura totalmente feminina e admirada por isso. Me sinto realizada por minha família ver o que sou, chegar à casa da minha mãe e ver inúmeros troféus, faixas. Não é aquela coisa de vaidade. É mais uma questão de vitória. Eu consegui, consegui meu espaço. É maravilhoso”, disse, ressaltando que não queria ser uma versão de Gisele, mas de Deborah Secco, que na época vivia a personagem Natalie Lamour, da novela Insensato Coração, da TV Globo.

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A matéria repercutiu, sendo uma das mais acessadas do dia e tendo visibilidade na home do site UOL. Foi por meio de todo esse frisson, haters e muitos elogios, que ela foi convidada para posar para um ensaio fotográfico do Virgula Girl. A editoria geralmente trazia ex-BBBs, assistentes de palco e mulheres-frutas. Todas cisgêneras. Patricia seria a primeira travesti da história a ocupar o lugar e assim foi feito. Evidentemente fui responsável pela indicação, mas nada teria acontecido se não fosse a própria Patricia e o apoio do jornalista Vitor Ângelo e da aprovação da diretora de conteúdo Claudia Assef.

SER TRAVESTI NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Patricia nasceu na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, em uma família de classe média-baixa e evangélica. Foi designada menino ao nascer, mas sempre teve a feminilidade como uma das maiores características. O que facilitou quando revelou ao mundo que era Patricia e na vivência enquanto pessoa de identidade feminina na sociedade, mas que também a fez enfrentar muitas pelejas ainda na infância e adolescência.

“Sou mulher. Eu sempre me pareci com uma e nunca tive dúvidas sobre a minha sexualidade. Eu ainda era bebê e as pessoas falavam para a minha mãe: ‘Nossa, como a sua filha é linda”, declarou em entrevista à Contigo, em 2013.

Na escola, poucos entendiam quem era aquele “garoto tão garota”. E, enquanto os meninos tentavam abusar dela na ida ao banheiro, a diretora da escola a chamava para conversar regularmente por não entender sua feminilidade tão aparente. Aos 12, deu o primeiro beijo em um colega que se apaixonara por ela. Aos 13, depois de tanto ser pressionada, revelou para a diretora que gostava de garotos. Resultado: foi expulsa da escola por “mal comportamento”. Não havia nem completado a sétima série.

Em entrevista à Marie Claire, Patricia disse que a expulsão motivada pelo preconceito institucional foi o seu maior trauma. Mas que impulsionou a dar um grande passo em sua vida: contar tudo para os pais, o segurança Severino e a dona de casa Terezinha. Disse com todas as letras que gostava de rapazes e que se sentia na verdade uma mulher. Ela conta que os pais, apesar de ficarem assustados num primeiro momento, não discriminaram. O irmão mais velho não aceitou, mas na mesma hora o pai interveio, dizendo que independente de qualquer coisa Patricia era filha dele e que contaria com o apoio.

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Patrícia Araújo em fotos pessoais

Aos 13 anos, passou a tomar os primeiros hormônios, por intermédio de uma travesti que morava perto de sua casa. Ela disse que os anticoncepcionais a dariam formas delicadas, como de qualquer mulher cisgênera. Apesar de fazer o uso sem acompanhamento médico, o que já era bastante visto como feminino passou a ficar cada vez mais. Com os hormônios, Patricia também evitou que caracteres secundários atribuídos ao masculino, como barba e pomo de adão, por exemplo, se desenvolvessem em sua puberdade. Transformava-se em uma linda mulher.

Mas se cada vez mais ela fazia as pazes com o espelho e via seus pretendentes aumentarem, era só pisar fora de casa para sentir na pele o peso da transfobia. Patricia era conhecida como “o travesti do bairro” e era alvo de apontamentos, piadas e chacotas de vizinhos. Tudo piorou quando passou a ser alvo de fofocas e mentiras cada vez mais frequentes. Ela afirmava que foi um período difícil e que tanto preconceito a deixava muito abalada, mas que suportava principalmente porque os pais a respeitavam.  

ELOGIE UMA TRAVESTI

Patricia veio ao meu encontro no dia 17 de setembro de 2011, para posar para o tal ensaio sensual histórico do site Virgula. Nos conhecemos no prédio do portal, localizado naquele período em plena Avenida Paulista, em São Paulo. Ela vestia uma calça de lycra cinza e uma blusinha branca que deixava a barriga à mostra. Todos estavam de olho nela, confirmando todo o frisson que eu já suspeitava que ela provocava. A identificação foi imediata e conversamos pela manhã sobre a vida, carreira e a temática do ensaio.

Enquanto caminhávamos pela rua e conversávamos, percebi que um homem de terno nos acompanhava. Ele suava frio e parecia estar nervoso. Me assustei num primeiro momento, lembrando que a Avenida Paulista que abraça a Parada do Orgulho LGBT é a mesma que coleciona diversos casos de violência contra LGBTs, a mais conhecida delas ocorreu em 2010, um ano antes, quando jovens foram agredidos com lâmpadas fluorescentes.

Foi então que o homem a abordou:

_ Você é a Patricia Araújo? Sou seu fã. Você é uma mulher muito linda. Sempre quis te conhecer.

– Não, bebê. Eu não sou uma mulher – disse ela, mexendo nos cabelos longos, com expressões de uma pin-up pós-moderna. E continuou: Sou uma travesti.

O rapaz engoliu a seco e respondeu de volta: – Claro, me desculpe, você é uma travesti muito linda. Pode me passar o seu número?

Perguntei depois se ela não se considerava mulher, afinal mulheres trans e travestis também se identificam com o feminino e devem ser tratadas como tal. Ela respondeu que sim, mas que naquele momento quis se valorizar e tirar da boca dele um elogio público para o fato de ser travesti. Depois, em outra conversa, declarou que se o homem tem problema em verbalizar que se relaciona com uma travesti, não é um homem que mereça sua atenção na vida cotidiana.


MERCADO DO SEXO E CINEMA PORNÔ

O primeiro relacionamento sério de Patricia ocorreu quando ela era menor de idade, de 14 para 15 anos. O pretendente era um homem 30 anos mais velho e muito rico, sobre o qual ela nunca gostou de comentar quem era ou o que fazia. Foi ele que a levou para São Paulo, pagou pelas cirurgias no nariz e nos seios e proporcionou a ela uma vida dos sonhos.

Com quatro anos de casada, o homem passou a ter crises de ciúme, começar a vê-la como uma de suas posses e o relacionamento começou a ficar extremamente abusivo. Após a situação ficar insustentável, Patricia abandonou a vida que levava e voltou para o Rio de Janeiro.

Concluiu os estudos por meio do supletivo, mas ainda assim encontrou dificuldades de  inserir-se no mercado formal de trabalho. A esquina tornou-se sedutora, afinal era onde outras travestis estavam, e também a única opção. A partir daí ela passou a pagar as contas como profissional do sexo, uma realidade para muitas pessoas trans e travestis do mundo. Segundo a Antra, estima-se que 90% das travestis do Brasil trabalham como profissionais do sexo, cuja maioria não o faz por escolha, mas devido ao preconceito e imposição social.

“Não é prazer fazer parte de um grupo marginal. Ninguém que se prostitui é totalmente feliz”, declarou. “Olha, a prostituição é como uma droga, um vício, algo que absorve toda a sua energia e te faz escrava. Pode acabar com você. Mas criei um escudo que separa meu corpo da alma. O que vendo é meu corpo, nunca minha alma. E isso liberta”, declarou ela à Marie Claire, em 2008. 

Com 17 anos, entrou para o cinema pornô, sendo conhecida e anunciada como Patricia Chantily ou Patricia Dollface. O primeiro filme foi Rogue Adventures 5, em 1999, em que fez uma cena dupla com Julio Vidal, que hoje é pastor evangélico, e Fabio Scorpion, ícone do pornô que morreu em 2004 após uma cirurgia para aplicar silicone na panturrilha. Ela protagonizou outros 11, sempre como destaque de capa. Chegou a gravar também com Camilla de Castro, travesti ícone de beleza e sua amiga que cometeu suicídio em 2005.

Com um ano trabalhando e juntando dinheiro, embarcou rumo a Itália. Conseguiu ganhar muito dinheiro e ajudar sua família com bens, como a casa que comprou para os pais. Patricia revelou que, apesar de ter tido a sorte de não ter se deparado com clientes agressivos, conheceu o lado nada saudável da competição com outras travestis e mulheres trans que faziam programa. “É um submundo podre e triste. Como todas já sofreram muito, encaram a vida de um jeito duro e predatório. Penei para me adequar”, relembrou ela.

Dentre as revelações mais surpreendentes, Patricia contou que chegou a trabalhar como acompanhante em Dubai, nos Emirados Árabes. Um sheik árabe ficou encantado com a beleza das travestis brasileiras e mandou contratar Camilla de Castro e Patricia. Como Camilla estava passando por problemas pessoais, Patricia teve que embarcar nessa aventura sozinha. “Lá eu usava burca para não sofrer preconceito. Fui alertada para só andar com o olhar para baixo e não encarar ninguém”, declarou à Contigo!.

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BELEZA E ESTRELA

Patricia já tinha inúmeras fotos e ensaios espalhados pela internet. Os temas variavam entre torcedora do Brasil, colegial e noiva. Em 2009, foi a primeira modelo travesti a posar quase como veio ao mundo para a capa da revista carioca “A Gata da Hora”, espaço habituado geralmente por musas cisgêneras,  como a Mulher Melão. Nos cliques, ela aparecia ao lado de Paloma Sanchez. Um produtor declarou que a intenção é de que os leitores pudessem compará-las. 

Dois anos depois, a modelo se preparava para o nosso ensaio do Virgula Girl, fotografado por Gabriel Quintão, clicado dentro da extinta boate Glória, que anteriormente era uma igreja, na Rua 13 de Maio. Ela mesma escolheu o figurino em uma loja especializada em peças sensuais e dividiu comigo os custos de uma peça de medalhas que não fazia parte da permuta do espaço. Enquanto provava, conversava com o TV Fama, da RedeTV!, que cobria o ensaio.

Nos bastidores, senti que ela estava um tanto insegura de ser fotografada em algumas partes do corpo, resultado de algumas reações pontuais do silicone industrial – produto que não deve ser aplicado no corpo humano, mas que foi e ainda é frequente na construção da identidade travesti. Mas com um pouco de maquiagem no bumbum e nas pernas, algumas peças que favoreciam e lá estava ela, pronta para trabalhar em fotos sensuais, não eróticas e sem nudez.

Assim que as fotos iniciaram, Patricia se transformou totalmente. Era uma modelo que sabia seus melhores ângulos, caras, bocas e uma pessoa que era dona e apaixonada pelo seu corpo. Quase não precisou de direção e em menos de uma tarde tudo estava pronto. Sim, a travesti mais bonita do Brasil não se considerava perfeita, mas tinha algo que fazia questão de pontuar: “Tenho estrela e isso faz a diferença”. De fato brilhava.

A jornalista cis Mônica Apor, que trabalhava na RedeTV!, esteve lá para uma matéria sobre Patricia e o título de mais bela do Brasil. A jornalista perguntou ainda se ela não seria uma bela candidata para ser panicat – num momento em que Nicole Bahls e Juju Salimeni haviam sido afastadas do programa Pânico na TV, da RedeTV!. Patricia ironizou que era tímida e semanas depois realmente foi cotada. Em seguida, a jornalista quis saber se Patricia realmente havia ficado com o jogador Adriano Imperador. Ela desconversou: “Minha boca é um túmulo”.

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Patricia em ensaio do Virgula Girl


MODELO E ATRIZ

Com muitos títulos de beleza, fama pelos filmes adultos e frisson pelos ensaios, Patricia poderia se manter como uma musa entre as travestis e seus admiradores. Mas foi além. O mais surpreendente é que conseguiu estourar a bolha, driblando o preconceito por ser travesti, o preconceito por ter trabalhado como profissional do sexo e o preconceito por falar sobre todas essas questões abertamente.Tudo conquistado por meio da beleza, da simpatia e da tal estrela que ela sempre mencionava.

Em 2009 caiu nas graças do estilista Beto Neves, da grife Complexo B, que a chamou para desfilar no badalado Fashion Rio. O convite surgiu porque Beto trazia em sua coleção uma homenagem à malandragem e à boemia da Lapa, que reunia muitas tribos, dentre elas as travestis. A presença da modelo new face, que ocorreu um ano antes do fenômeno Lea T, repercutiu na imprensa e rendeu a comparação com Gisele Bündchen.

Graças ao desfile, Patricia passou a dar entrevistas para programas de TV, tirar registro para trabalhar como atriz e teve portas abertas para fazer algumas pontas. A primeira foi uma participação na novela A Luz do Sol, da TV Record. No mesmo ano, esteve na série A Lei e O Crime, da Record, em que viveu uma travesti profissional do sexo que se envolve com um galã de novelas e que aparece assassinada. O episódio gira em torno deste assassinato.

Em entrevista ao NLUCON, em 2011, a atriz disse que toda a repercussão do desfile e participações foram realizações, mas que a deixaram assustada. Ela revela que tentou entrar em uma agência de modelos, mas teve as portas fechadas logo na primeira conversa. O dono da agência declarou que era impossível colocá-la no casting, pois era uma agência de família e muitos pais não gostariam de ver uma travesti ao lado de suas filhas cis. “Fora do Brasil é diferente. Em Roma, uma menina me chamou para um trabalho de biquíni.  Acho que o preconceito é quebrado quando a gente consegue a oportunidade”.

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Outro convite ocorreu em 2013. Patricia entrou no elenco da novela Salve Jorge, da TV Globo, escrita por Gloria Perez. Era a Priscila, uma travesti que havia sido enganada por Wanda (Totia Meirelles) e que traficada para a Turquia para se prostituir. Foi ali que Patricia conseguiu mostrar o lado atriz, com fala, atuação e troca de figurinhas com artistas cisgêneros como Adriano Garib, Nanda Costa e Roberta Rodrigues em pleno horário nobre da TV. Por fim, fez uma ponta no filme “O Vendedor de Passados”, com Lazaro Ramos, que fui conferir no cinema só por causa dela.

PRECONCEITO E INVEJA

No fim de setembro, todos estavam ansiosos para conferir o ensaio sensual de Patricia Araújo no Virgula Girl. Foi uma das maiores audiências das estreias dos ensaios. O site UOL divulgou o ensaio na home com o título “Patricia Araújo: surpreenda-se com o ensaio sensual desta travesti” em meio as matérias mais importantes do dia. Foram mais de 2 milhões de pageviews somente no dia de estreia, muitos elogios e muitos haters.

Em um discurso pronto, Patricia dizia que fechava o preconceito na gaveta e que não pensava nele. Em outros momentos, dizia que enfrentava muita inveja e perseguição. Tanto de outras travestis, quanto de mulheres cis e até de homens gays cisgêneros. “Às vezes estou em uma loja e uma mulher chega, dá um olhar de inveja e depois começa a rir. Hoje mesmo uma mulher passou por mim com o namorado e, quando viu que ele me olhou, disse: “Não é mulher, é travesti”, comentou ela.

Depois do ensaio, Patricia curiosamente pediu para comemorarmos as fotos em uma sauna gay de São Paulo, que ela havia ido há muitos anos. Ao chegar, tivemos que fingir que éramos namorados e ela só conseguiu entrar porque a documentação ainda estava com o nome de registro e sexo atribuído ao masculino. Quando Patricia atravessou aqueles corredores, todos os garotos de programa do espaço passaram a ir atrás dela, rejeitando todos os homens que aguardavam sedentos nas mesas. O sucesso foi tão grande que os clientes começaram a reclamar da presença da modelo e o dono da sauna veio pedir nossa retirada.

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Saímos logo, pois recebemos um convite para ir à The Week, um clube de elite em São Paulo conhecido por gays musculosos. Foi marcante ver a pista se abrir para a atriz dançar e sambar em uma mistura de eletrônico e samba. Mas foi desesperador pouco depois ver diversas travestis, mulheres trans e cis a empurrarem, puxarem o cabelo, pisarem no pé dela e ficarem provocando. Ela não revidava, mas não abaixava a cabeça.

Poderia elencar uma série de reclamações de Patricia sobre tais perseguições, que iam desde denúncias quando estava fora do Brasil, haters nas matérias em que participava, até reclamações de atrizes quando era convidada para pontas em novelas. Mesmo aquelas que deveriam ser as primeiras a apoiar achavam um absurdo ter que dividir espaço com uma atriz pornô e tentavam boicotar.

Durante muito tempo, falar sobre a existência de uma modelo travesti e de uma atriz travesti era motivo de piada e desdém, sobretudo se esta travesti fosse associada à prostituição. Mas apesar de todas as pressões e de ficar extremamente triste, Patricia mantinha-se firme no seu sonho. “Sempre quis brilhar. Tinha esse sonho em ser sucesso, mas nem todos entendem isso. Tenho talento e muita vontade de dar certo. Só precisava de uma boa oportunidade”, declarou ela em matéria da Contigo! no período de Salve Jorge.

AMIZADE

Realizei inúmeras matérias com a modelo e atriz. Desde participações dela na TV, outros ensaios, pontas em novelas e outras entrevistas. Ela também participou da coluna “Trans em Debate”, em que pessoas trans davam opiniões exclusivas ao NLUCON sobre os mais diversos assuntos. Dentre eles, Patricia opinava se o homem que gostava de travesti era ou não gay. “São héteros, nossa imagem é feminina e o gay não se interessa por essa imagem”, opinou.

Patricia sentia receio de sair nas matérias do NLUCON, pois dizia que sempre era perseguida por parte de nossas leitoras. Mas topava, principalmente pelo respeito que tinha por mim, pela repercussão positiva com outra parte e para não me deixar na mão quando todos os demais sites publicavam algo.

Falávamos sobre todos os assuntos e tivemos momentos de uma amizade inocente, sincera e parceira. Certa vez, veio para São Paulo de carro com um namorado e nos levou para o Hopi Hari. Em outra, comprou uma camiseta com a frase “Good Vibes” de aniversário. Quando voltei do trabalho, em uma das visitas dela, quase não reconheci meu apartamento, pois ela havia feito uma faxina geral. Também me recebeu no apartamento dela em Copacabana algumas vezes, preparou um macarrão delicioso e até brindamos a chegada do Papa Francisco.  

Jamais vou esquecer da noite em que eu estava triste por qualquer motivo e ela me acompanhou até a praia. Disse que um bom mergulho no mar me faria repor as energias. Ela me levou até a praia de madrugada e ficou tirando fotos minhas naquele momento mágico. Jamais vou esquecer as noites em que falávamos sobre a vida, a sociedade e estratégias para querer se manter vivo.

Relendo algumas entrevistas, me arrisco dizer que nos unimos porque o bate-papo superou o assunto que grande parte esperava e incentivava para ela: o sexo. “A minha maior aflição é saber que represento sexo. Ninguém me pergunta se eu li tal livro, ninguém quer bate papo ou ir ao cinema. Sou sinônimo de sexo e isso me deixa carente por um tipo de amor que não esteja vinculado a sexo ou a dinheiro”, soltou na Marie Claire.

Algumas pessoas também diziam que ela era muito difícil de se lidar e que em alguns momentos foi esnobe. Questiono se o comportamento não foi apenas uma casca que ela desenvolveu ao longo da vida para sobreviver e revidar as violações que sofria.

CARNAVAL E CINZAS

Outro ponto alto na trajetória de Patricia foi a presença marcante nos carnavais cariocas. Lembrando que as travestis sempre foram ressaltadas no período carnavalesco, seja com bailes voltados para travestis ou com a presença de travestis nos desfiles tradicionais. Vale lembrar que a primeira rainha de bateria na história uma travesti: Eloína dos Leopardos, pela Beija-Flor, em 1976. Já Patricia desfilou desde os anos 2000 para a Caprichosos de Pilares, Portela e Grande Rio.

Chegou a ser musa da Porto da Pedra e destaque da Mocidade. Em 2007, chegou a passar no tradicional “aviãozinho da Globo” e conta que William Bonner ofereceu o elogio, ainda que não a conhecesse: “Bela sois vóis entre as mulheres”, ressaltando que era uma das mais belas mulheres do Brasil.

Mas foi em 2014, quando Patricia representou Alamoa pela Mocidade, na ala de Fernando de Noronha, que um episódio controverso e trágico aconteceu. Ela estava com os seios à mostra e em lugar de destaque no momento em que um paparazzo começou a tirar fotos estrategicamente de baixo, que mostravam parte de seu genital. A imprensa explorou o “flagra”, ressaltou algumas partes do corpo em posições que não a favoreciam, e Patricia foi duramente criticada, ofendida e alvo de chacota nas redes sociais.

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Diversas pessoas tentaram defendê-la, dizendo que era óbvio que veriam um genital debaixo de seu biquíni (“esperavam ver um papagaio azul?”, como sugeriu Sayonara Nogueira) mas as agressões verbais, críticas e xingamentos – inclusive de pessoas que diziam apoiá-la – foram fortes demais para Patricia. Houve quem disse que ela fez de propósito para ter mídia e aparecer. Mas todo aquele bafafá e exposição fez Patricia chorar, querer se recolher e tentar uma vida reclusa.

VIDA PACATA E DEPRESSÃO

Querendo se apoiar no anonimato, Patricia chegou a ficar um tempo loira, viajou novamente para a Europa e até tentou abrir um salão de beleza no Rio de Janeiro. Em 2016, ela topou falar com a gente: “Estou vivendo a vida, cuidando de mim, preferindo ficar mais anônima. Depois de toda a exposição que tive, precisava dar uma sumida, me recolher e pensar em tudo. Tinha muita gente falsa se aproximando, muita energia negativa. E eu sou da paz, do amor e gosto de energias positivas”.

Ao ser questionada se teria desistido da carreira artística, ela declarou: “Boas oportunidades para travestis aparecem uma a cada década. Então não dá para contar apenas com esse trabalho e nem dá para pensar só nessa carreira. Não é como as atrizes (cis) que emendam novelas inteiras e já estão escaladas para as próximas. Para as atrizes travestis e transexuais falta oportunidade de trabalho, da gente mostrar de fato o nosso talento”.

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Em 2017, Patricia começou a ter forte depressão, tentou suicídio e conseguiu ser salva a tempo. Ela relatou que uma briga familiar a teria deixado ainda pior, pois nada seria pior que ver balançado este laço. Nesta segunda-feira (08), comecei a ser perguntado por várias pessoas se ela havia morrido. Num primeiro momento disse que não, até porque ela já havia pregado uma peça em mim há alguns anos e me deixado muito bravo e mal. Mas infelizmente desta vez não era uma maneira de pedir socorro. A morte foi confirmada.  

Patricia morreu na quinta-feira (04), após ter ficado 10 dias internada com problemas de saúde decorrentes de um quadro de depressão no Hospital Municipal Doutor Arthur Ribeiro de Saboya, em São Paulo. Foi embora em um sopro, deixando amigos, familiares e fãs desolados. O corpo foi levado para o Rio de Janeiro no sábado (06) e enterrado no domingo (07) na Ilha do Governador, onde nasceu. A família não quis que a imprensa ou outras pessoas soubessem da morte, mas após os rumores se confirmarem, todos os sites  anunciaram.

Ela tinha apenas 37 anos quando se foi, fazendo parte da baixíssima expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil, que é de 35 anos. A morte precoce também alerta para a depressão e a falta de acolhimento às quais pessoas LGBT estão submetidas. Em nossa última conversa, perguntei: “Patricia, você está bem? Você é muito importante para mim”. Ela respondeu: “”Estou bem melhor, amor. Comecei a sair mais, isso faz bem, grupos de amigos. Tenho fé que isso tudo foi para me fortalecer. Você também é muito importante. Vamos um dar força ao outro e seguir em frente. Ainda iremos dar altas gargalhadas disso tudo, tenho certeza. Somos do bem e mal nenhum nos alcançará”.

Em meio a essa trajetória – que não tem nem 1% de tudo o que ela já viveu e aprontou – sabemos que Patricia não precisava ser comparada a nenhuma mulher cisgênera, como muitas vezes tentaram fazer. Sempre foi Patricia Araújo e escreveu o seu nome como uma das travestis mais importantes e marcantes. Talvez reafirmar sua beleza e reconhecê-la mais uma vez pelas expectativas de padrões binários e cisnormativos de feminilidade, que nem sempre podem ser medidos pela régua de todos, não devesse mais ser um dos únicos fatores para elevá-la a alguma coisa. Patricia conquistou o país pela beleza física dentro de um padrão, mas estava além disso.

Era amiga, filha, irmã, talentosa, divertida, sorridente, modelo, atriz, preocupada com o outro. Era um ser humano brilhante, único, que fez história e que já faz muita falta na vida de muita gente.

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Pride, Realidade

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3 comentários em “Conheça a história de Patricia Araújo (1982-2019), a travesti mais bonita do Brasil Deixe um comentário

  1. belíssima Homenagem a Patricia, merecida e com todo tom de amizade e bem querer entre vocês. Amizades assim são poucas. Que as lembranças boas perdurem para sempre. Eu ficarei com as minhas que acompanhei muito desta trajetória.

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  2. Essa matéria mexeu muito comigo. Parabéns pelo empenho e dedicação, tenho certeza que ela teria ficado muito feliz. Espero que as pessoas tenham mais sensibilidade com a sua trajetória. Aliás, parece a história de muitas, pois nossos destinos se repetem.

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