Gabriela Almeida critica invisibilidade trans em evento LGBT e nega abraço a mediadora

Por Neto Lucon

A assistente de marketing, cabeleireira e cantora Gabriela Almeida, travesti de 27 anos, foi protagonista de um vídeo que viralizou nas redes sociais nesta sexta-feira (12). Ela assistia ao “Talk Show LGBT”, realizado no Shopping Pier 21, em Brasília, na quinta-feira (11) e decidiu fazer uma crítica sobre invisibilidade trans quando percebeu  que não havia nenhuma pessoa trans participando do evento.

A manifestação ocorreu quando a jornalista e mediadora Katia Maranhão – que no último ano foi assessora de Michel Temer e que já assessorou Clodovil Hernandes – perguntou se alguém da plateia gostaria de se pronunciar. Gabriela levantou a mão e foi convidada para subir ao palco. Ela pergunta se poderia pegar o microfone, mas a Katia disse que não, tirou as mãos dela do microfone e as segurou para baixo.

Gabriela pediu desculpas e pontuou que não se sentiu representada pelo talk show, porque não viu nenhuma pessoa trans ou travesti no debate ou participando da iniciativa. “Eu, enquanto pessoa LGBT, não me senti representada pelo evento”, disse. “Porque nessa mesa não tinha nenhuma pessoa T, e eu sou uma travesti, e não tinha nenhuma pessoa T para debater sobre o direi…”, sendo interrompida por Katia.

“Quem disse que não?”, questiona a jornalista. “Só porque eu não fui operada quando eu nasci? Tô eu aqui”, continua em tom brincadeira. Gabriela tenta explicar que, apesar da comparação, é bem diferente ser uma pessoa trans. Mas no mesmo momento Katia pede um abraço para ela. A cabeleireira diz “não” com a cabeça e sai do palco. Katia a chama de linda e o vídeo termina.

Ao compartilhar o momento nas redes sociais, Gabriela diz que ser travesti no Brasil é ser invisível e silenciada, mesmo quando se trata de eventos voltados para a população LGBT. “Esse é basicamente a realidade das pessoas trans, que há 50 anos deram início ao movimento Stonewall e ao Orgulho LGB. Somos silenciadas, apagadas, esquecidas e tratadas como seres não humanos. Mas não deitei, querida. Quer peitar a travesti então você se sustente”, escreveu.

Assista: 

Ao NLUCON, a assistente de marketing declara ainda que negou o abraço porque sentiu na verdade uma tentativa de amenizar a situação e encerrar o assunto, além de uma postura de debochar do que ela estava falando. “A mulher falou coisas absurdas durante o evento, bem como que não era necessário ter movimento LGBT, pois dividia as pessoas, que não era para se sentir coitado, pois movimentávamos a economia do país. Ou seja, do alto dos privilégios dela, ela ficava ditando o que era e o que não era LGBTfobia, o que era e o que não era necessário. No mundo utópico dela, ela não tem ideia do que a gente vivencia, as discriminações e o preconceito que sofremos”, declarou.

Gabriela conta ainda que, após o vídeo terminar, continua falando para o público do espaço, mesmo sem microfone. “Comecei a falar em voz alta com as pessoas. Gritando e gritando, para concluir o que eu estava falando. Ela ficou tão desconfortável e pegou o microfone e me devolveu e eu fiquei muito chocada com isso tudo”, declara.

ORGANIZAÇÃO ENVIA NOTA

O NLUCON entrou em contato com o Desfrute Cultural via e-mail, responsável pelo talk show. Por meio da assessoria, o espaço declarou que “o evento foi pensado para agregar todos os segmentos LGBTQI+, porém nem sempre se consegue levar todas as pessoas convidadas, o que desagradou um (sic) participante que estava na plateia”. O Desfrute diz, por exemplo, que os deputados David Miranda e Erika Kokay, que são cis, também estavam confirmados, mas não puderam comparecer.

“O objetivo foi fazer um evento com maior integração possível, mas um comentário feito pela mediadora gerou uma situação desconfortável ocasionando críticas negativas. Queremos deixar claro que a intenção do evento sempre foi agregar e levar pessoas que atuam em favor da comunidade LGBTQI+ para debater essa causa tão importante no mundo, e nunca criar desconforto para nenhum dos presentes”, diz a nota.

O Desfruto informou que o evento contou com a presença de diversas pessoas, bem como o deputado federal Fabio Felix, o presidente do Brasilia Orgulho Michel Platini e da produtora da festa Afete-se Nana Yung. Katia Maranhão mediou os debates, dentre eles o bate-papo de lançamento do livro de Daniela Mercury e Malu Verçosa. Houve ainda um desfile e pocket show do brasiliense Piettro, que levou 36 looks criados a partir da cultura LGBTQI e reutilização de sobras de tecidos da indústria têxtil. Neste caso, pessoas trans, gays, lésbicas e drags apresentaram os looks.

“Entendemos as críticas e aceitamos sugestões para que os próximos encontros desta magnitude possam ser mais democráticos e possíveis”, diz o comunicado.

“SOU UMA MULHER VIADA”

Procurada pelo NLUCON, Katia declara que está impressionada com o “showzinho” e a “má intenção” de Gabriela em querer aparecer com o episódio. Mas destaca que a assistente de marketing não representa o movimento LGBQI+, que, segundo ela, tem como premissa acabar com o preconceito. A jornalista declarou ainda que não mediou o evento por dinheiro, mas por amor e por ser uma mulher que defende o movimento LGBTQI+. “Eu gostaria que no futuro não houvesse a necessidade de uma sigla e que todo mundo fosse igual”.

Inicialmente, Katia diz que não deu o microfone porque não poderia entregar o equipamento do evento na mão de quem não conhecia e de quem não fazia parte da mesa. Frisou que todo o equipamento é caro.

Depois, justificou ter dito que é uma “mulher operada”, pois sentiu que Gabriela estava muito nervosa e tentou apenas descontrair. “Quando ela pegou na minha mão, ela estava muito gelada. Fiz a brincadeira com ela para que ficasse calma, ainda desci do palco e conversei com ela”, conta. “Infelizmente isso causou um desconforto de uma maneira que não deveria. Eu lamento por ela, por mim e por todo mundo, mas não mudaria nada do que foi ontem. Eu vou continuar brincando. Sou uma mulher viada”.

Sobre a ausência de pessoas trans na programação, Katia afirma que havia todo tipo de gente durante o evento, inclusive travestis desfilando num segundo momento. E frisa que o debate em questão era escutar “políticos falarem coisas sérias como rumo que essa população terá no futuro” e não para falar “sobre questões pessoais”. “Acho que ela queria ali contar o sofrimento dela, mas não era o momento. Eu sinto muito. Ela não perguntou as minhas dores e eu não perguntei as dores delas. O que eu não queria era exatamente isso: mostrar um complexo de inferioridade, a vulnerabilidade de alguém. Não considero o LGBTQI+ uma minoria. São 20 milhões de pessoas no Brasil, representando 10% do PIB nacional”.

Segundo a jornalista, Gabriela está a desrespeitando nas redes sociais e está agindo com preconceito reverso. “Não sou uma branca, empresária e burguesa, como ela está dizendo. Sou uma senhora, operaria, que trabalha muito e para todo o tipo de pessoa. Luto por todos os tipos de causa que envolvam injustiça e também sofro preconceito. Quando querem me ofender, me chamam de velha e de puta, em alto e bom som. Então não vem dizer que só o gay sofre preconceito”.

Por fim, ela diz que não imaginaria que passaria por essas críticas, sobretudo por se considerar uma pessoa que com senso de justiça apurado e por ser uma pessoa com trajetória de apoiar a diversidade. “Mas que ela seja feliz e que ganhe alguma coisa às custas do quadrinho que fez, pois ela já foi mal intencionada. Acho que a necessidade de autoafirmação e de querer aparecer às custas do evento é maior que o sentimento comunitário. Deixa ela tratar do complexo de inferioridade dela achando que vai durar muito tempo. Porque vai ter um dia que não vai ter a menor importância, já que o que a gente precisa é de igualdade e não essa maldade que ela está fazendo”, finaliza.

DEBATE VÁLIDO E NÃO PERSONALISTA

Vale destacar que a matéria em questão não é personalista ou pessoal com os envolvidos. Trata-se de um debate já existente no movimento LGBT: a de que pessoas trans e travestis, bem como pessoas negras, devem estar presentes em eventos ligados à temática LGBT, de diversidade, de direitos humanos e outros assuntos.

O objetivo é que haja pluralidade de discursos, abrangência de demandas, voz, vez, oportunidade de que pessoas trans e travestis sejam donas dos seus próprios discursos e que rompa com os preconceitos e mitos mediante a ocupação de pessoas trans no espaço e contato pessoal. E que tais espaços de discussão não seja mais um de exclusão.

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