Ir para conteúdo

Escritora trans Giuliana Zambotto adota galinha Fifi e encontra aliada para enfrentar a depressão

67175791_2402279946764425_6175993835835883520_n
Giuliana e Fifi: afeto transformador

Diversos estudos comprovam que o contato com animais de estimação ajuda a combater os males da depressão. Cachorros e gatos são as opções mais corriqueiras. Mas a escritora Giuliana Zambotto Furlan, mulher trans de 39 anos, viu em outro bicho a companhia e o apoio necessários. Trata-se Fifi, uma galinha que passou a morar com ela, a mãe e três gatos em Marília, São Paulo.

Giuliana conta ao NLUCON que Fifi surgiu misteriosamente nas mangueiras de um terreno baldio da rua onde mora. Inicialmente ela, que tem penas pretas, estava acompanhada de outra galinha, de penas amarelas. Até que houve a derrubada das árvores e o desaparecimento também misterioso da companheira. Fifi ficou sozinha, desolada e assustada. Cachorros corriam atrás dela, crianças tacavam pedras e o fim trágico parecia questão de tempo.

Certo dia, Fifi se escondeu em um arbusto em frente da casa de Giuliana. Pela manhã, a mãe da escritora, Marijunia, saiu da casa e se deparou com a galinha. Fifi se assustou com o encontro e saiu correndo, cacarejando e direto para a garagem da casa. Posteriormente foi encaminhada ao quintal e adotada em tom de comemoração. Ganhou um nome, uma nova família e uma nova história.

“Moro com minha mãe, a gente sempre teve muitos bichos, gatos, cachorros, coelho periquitos, gansos, peixes, mas recentemente ela dizia que não queria pegar mais nada (risos). No fundo, durante todo esse tempo ela estava doida para pegar a galinha que estava sozinha na rua”, diz.

É a primeira vez que a escritora tem uma galinha como estimação, mas sempre quis, uma vez que escutava que galinhas são carinhosas e inteligentes. A mãe, todavia, já teve uma galinha quando era criança – tanto de criação quanto de estimação – mas conta que o fim foi trágico: foi perseguida e morta por um cachorro enquanto passeava. As outras, como ocorre em grande parte do Brasil, servem como refeição.

60876067_2859188684307267_7447624598666870784_n
Fifi impressionada com a própria beleza no espelho

AFETIVA

Ao contrário do que muita gente pensa, galinhas são extremamente afetivas e quem as tem como bicho de estimação se apaixona fácil. No Youtube, há vídeos que comprovam que elas gostam de carinho e que até correm para receber um abraço caloroso de humanos. Contudo, Fifi é um caso específico e ainda está no processo de ressocialização. Ela tem um forte medo de… Mãos.

“Ela vem perto, gosta da companha, está sempre na janela me olhando, curiosa, tentando me estudar, mas tem muito medo de mãos. Já fiz carinho nela uma vez, ela estava gostando até perceber que era a minha mão (risos). Aí reclamou bastante”, conta a escritora

Mais que um bicho de estimação inusitado, Giuliana viu em Fifi uma excelente companheira para passar o dia e até os momentos difíceis. Tornou-se uma amiga inseparável contra a depressão – doença caracterizada pela perda ou diminuição de interesse e prazer pela vida que afeta Giuliana há muitos anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, é a quarta principal causa de incapacitação.

“Meus gatinhos me ajudam. Tenho uma gatinha, a Ptchuca, que dorme agarradinha comigo todo dia. Isso ajuda, mas gato é independente e, durante o dia, ela some. Já a Fifi fica fuçando o dia todo (risos). Sempre me visitando, me fazendo acordar cedo, dando atenção para ela se acalmar para botar ovo. É bom ter ela aqui em casa, animou muito por aqui”, afirma.

A escritora declara que não é exagero dizer (inclusive no título desta matéria) que Fifi ajuda no tratamento da depressão. Afinal, ela preencheu os espaços vazios e conquista a atenção para detalhes pouco vistos na vida corrida. “É real. Acho que todos os bichinhos ajudam, mas ela ajuda muito. É todo dia eu e minha mãe falando com ela.  “Pó pó pó” pra cá e “pó pó pó” pra lá (risos). Ela encheu a casa”, declara.

Um estudo publicado pela revista científica Journal of Psychiatric Research, da Clínica Médico – Psiquiatria da Ordem, de Portugal, comprova a relação de melhora em pacientes com distúrbio depressivo grave. Nele, metade se relacionou com pets e mostrou melhoras significativas no quadro, enquanto a outra metade não obteve melhora alguma. A razão, segundo o estudo, é que os animais se forçam a neutralizar um dos principais sintomas da depressão, a anedonia. Trata-se da incapcidade de experimentar prazer encontrado em atividades normalmente agradáveis, como exercícios físicos, hobbis e interações sociais.

ROTINA

A rotina de Fifi começa às 7h, quando ela aparece na janela de Giuliana e canta até que ela também acorde. Fifi é alimentada e fica ciscando no quintal. Ela come arroz, farelo de milho, folhas, legumes, além dos bichinhos que ela cisca no chão. Curiosa, fuça muito e, às vezes, é possível vê-la comendo até a ração dos gatos. Aliás, todos os animais convivem em harmonia no espaço.

À tarde, volta bastante ansiosa para a casa, cacarejando e inquieta. Fica neste desespero até conseguir botar o ovo do dia. “Daí fica tão calminha que até dorme”, entrega Giuliana. Os ovos, que não servem nem para chocar, pois não têm pintinho e nem galos no espaço, viram alimento para a casa.

No período da tarde, a galinha vai e volta do quintal, passeia pela casa e chama atenção. Nas redes sociais, Giuliana mostra algumas peripécias da galinha e a curiosa rotina que repercute na família. Fifi aparece espantada ou se admirando em frente ao espelho, na janela observando atentamente a escritora, sobe na cama e na mesa de trabalho. Dentre suas maiores estripulias, está o dia em que botou um ovo ao lado do computador.

Próximo das 17h30, a galinha começa a se preparar para dormir. Ela dorme em uma cadeira sobre a mesa, bem debaixo da janela da escritora, em um lugar coberto para não tomar sereno. Depois desse horário, não dá mais as caras, até acordar Giuliana horas depois. Sempre animada e pronta para mais um dia.

APRENDIZADOS

Dentre os aprendizados mais marcantes deste encontro, Giuliana vê em Fifi a inspiração e possibilidade real de perdoar e confiar. “Mesmo depois de tudo o que ela passou, gente jogando pedra e enxotando ela, aprendeu rapidamente a confiar em nós aqui da casa. Até com os outros animais”, inspira-se.

Outra questão levantada, é a própria alimentação que começa a ser questionada. Giuliana revela que adoraria ser vegetariana, pois desde então sente-se estranha por comer um bicho que é tão próximo de sua irmãzinha Fifi.

A escritora não sabe ao certo quanto anos Fifi tem, mas estima que seja mais de 1 ano. “Mas não é muito velha, já que bota ovos todos os dias”, opina. Caso tenha uma vida de galinha sem predadores, há muito tempo pela frente. Uma galinha em condições normais vive de 15 a 20 anos.

Que Giuliana consiga cada vez mais se livrar da depressão e gozar da vida com muita saúde e sorrisos. Que Fifi viva muito, sempre com muito amor, companheirismo e qualidade de vida. E que esta história sirva para mostrar que o afeto, a atenção e o cuidado, seja lá de onde eles veem, são de fato transformadores.

66704335_2902609129965222_1728372836516495360_o
Fifi esperando seu comentário positivo nesta reportagem

Um comentário em “Escritora trans Giuliana Zambotto adota galinha Fifi e encontra aliada para enfrentar a depressão Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: