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O que está por trás da inclusão da modelo trans Valentina Sampaio na Victoria’s Secret

Por Neto Lucon

A modelo brasileira Valentina Sampaio, 22 anos, foi anunciada como a primeira mulher trans a ser contratada para posar para a badalada marca de lingeries Victoria’s Secret. A top estampará o catálogo da linha Pink, voltada para jovens de 18 a 25 anos. Para ela, trata-se de um “sonho realizado e que representa muito” para toda a comunidade trans.

A imprensa hegemônica ressaltou o pioneirismo, mas esqueceu de questionar: o que mudou na grife para que houvesse a inclusão? O que está por trás dessa contratação?

Para quem não acompanha o mercado, a Victoria’s Secret é a mais famosa marca de lingeries do mundo e com faturamento que ultrapassa bilhões de dólares ao ano. Desde 1995 promove o Victoria’s Secret Show, em que as modelos em ascensão desfilam com roupas íntimas, asas de anjo, fazem caras e bocas, enquanto alguma estrela da música canta.

Durante 24 anos do tradicional desfile, que foi amplamente divulgado pela televisão, a estética era uma só: mulheres jovens, cisgêneras, geralmente brancas, cabelos lisos e com cinturas finas. O ideal de beleza era colocado como um padrão a ser seguido pelas mulheres e admirado pelos homens pautada numa sociedade heterocisnormativa. Tanto é que muitas das modelos, vide Gisele Bundchen, Alessandra Ambrósio e outras, eram apontadas como as mais belas do mundo.

Mas nos últimos anos houve um movimento político, social e de questionamento, muito por conta do impulsionamento das redes sociais, em torno da estética tradicionalmente imposta, em como ela afeta a autoestima, a saúde e os direitos das mulheres. Se por um lado as críticas foram vistas como algo passageiro e de pouca ameaça à indústria da moda, com o tempo passou a abalar as estruturas do mercado.

Campanha polêmica da Victoria’s Secret sobre o corpo perfeito (Divulgação)
Desfile do Victoria’s Secret Show em 2013. (Foto: Evan Agostini/Invision/AP)

No movimento chamado “corpo positivo”, mulheres de todo o mundo encabeçaram a luta sobre o direito de ser e existir, valorizando o próprio corpo, as próprias medidas e principalmente de querer comprar produtos em que pudessem se enxergar e se identificar na propaganda. Houve uma pressão para que corpos diversos, sobretudo gordos, negros, trans e plurais, estivessem na passarela e estampados nas marcas. Mais que se inspirar e sofrer por um padrão pouco acessível, elas almejavam se ver e se amar.

VISIBILIDADE TRANS E BOICOTE

A vontade de mulheres trans e travestis deslizarem na passarela do Victoria’s Secret Show não começou com Valentina. Em 42 anos de existência e quase 25 do tradicional desfile nenhuma modelo trans foi sequer cogitada a entrar no casting. Não foi falta de candidatas, uma vez que a beleza trans é destaque na mídia hegemônica desde a francesa Coccinelle nos anos 50, Tracey Norman nos anos 70, Caroline Cossey nos anos 80, Roberta Close e muitas outras.

Ao contrário, diversas modelos trans da nova geração, vide Andreja Pejic, Isis King e Lea T, eram apontadas como candidatas. Muitas outras mencionavam o sonho de desfilar na passarela do Fashion Show. Em 2013, Carmen Carrera teve uma petição online para ser uma angel e desfilar no Victoria’s Secret Fashion Show. Conseguiu cerca de 50 mil votos, fez um vídeo inspirado na temática, o sonho repercutiu amplamente na mídia internacional, mas foi absolutamente ignorada.

O mesmo aconteceu com as modelos norte-americanas Leyna Blonn, Nikita Dragun e a filipina Genna Rocero, que verbalizavam a vontade nas entrevistas. “Quero estar na capa da Sports Ilustrated ou na Victoria’s Secret. Contratem-nos. Deem oportunidades”, declarou Genna em entrevista a Elle em 2015. “Esperamos que diretores de casting e designers possam ver um pouco além e nos contratar por sermos quem somos”, continuou, sem sucesso.

TRANSFOBIA E GORDOFOBIA REVELADAS

Se durante décadas o silêncio era a resposta, no último ano a transfobia institucional mostrou a sua cara. O diretor de marketing da VS, Ed Razek – o mesmo que criou as famosas asas do desfile – soltou em entrevista à Vogue, que a grife não atenderia a pressão para incluir uma modelo trans ou plus size.

Ele declarou que nunca incluiria mulheres trans ou gordas no castings, pois nenhuma delas atendia os padrões, que ninguém queria vê-las na passarela e porque “não vendem a fantasia da feminilidade que a empresa promove”.

Posteriormente, o executivo pediu desculpas pelo discurso insensível, disse que era possível haver alguma candidata trans e até mencionou que algumas já participaram do casting, mas sem sucesso. De fato, Valentina Sampaio chegou a participar do casting em 2018 e não foi aprovada na época. Gordas nunca foram cogitadas.

Apesar do diretor tentar conter as declarações, a imagem já estava comprometida para quem apoia a diversidade e acha importante a marca se espelhar nos novos tempos. A cabeça de Razek passou a ser pedida pelo público, mas ele se manteve intacto dada a sua importância histórica. Mas isso não intimidou os protestos.

REAÇÕES

Diante da entrevista de Razek, a modelo transexual Amanda Lepore – nova-iorquina musa de David LaChapelle – teceu uma crítica à VS após aparecer em uma lista de um site como uma das possíveis candidatas a desfilar. “Victoria’s Secret pensa que modelos trans ou plus-size não atendem a seus padrões, mas seus produtos é que não atendem aos meus padrões”, escreveu ela, acrescentando que prefere qualidade e diversidade.   

O mesmo fez a modelo Nikita Dragun, que posou com asas para fotos, vídeo e mostrou que qualquer mulher trans estaria apta a ser selecionada. “Querida VS vocês disseram que mulheres trans não vendem fantasia. Estou aqui, uma mulher trans vendendo fantasia”.

No texto, ela afirmou que todas as pessoas são “lindamente únicas” e deu uma mensagem para as pessoas que não são contempladas pelos padrões. “Abrace as suas singularidades. Mantenha-se firme sendo quem é! Viva sua fantasia e não deixe ninguém dizer o contrário”.

Ed Razek declarou que nunca a VS contraria modelos trans e plus size (Reprodução)

Mas o descontentamento com a marca não passava apenas pela pequena parcela de pessoas trans. Mulheres cisgêneras, de corpos e vivências variadas também questionavam em massa o modelo tradicional de levar sempre mulheres magérrimas, jovens, em sua maioria brancas e com medidas quase inatingíveis para ser o padrão de beleza. Isso começou a repercutir de uma maneira estrondosa e a mexer no bolso.

Em 2018, um grupo de sete mulheres de variados corpos foi até a loja da marca em Lodres, na Oxford Street para protestar. Joanne Baban Morales, CEO da marca Nunude, declarou: “Não estou tentando forçar Victoria’s Secret a fazer algo que não queira. Quero mostrar que somos lindas, sexies, desejadas e, o mais importante, todas podemos ser uma fantasia de alguém”.

A modelo Ashley Graham, destaque entre as plus size, chegou a cutucar o desfile de 2017. Ela usou uma foto de quando desfilou para a Additional Elle e acrescentou as asas da VS. “Consegui minhas asas. Minhas asas da #AdditionalElle”.

Também em 2018, ocorreu um protesto em Nova York com modelos de diversas formas e curvas. Elas promoveram um “desfile da diversidade” em plena rua e divulgaram uma petição para incluir mulheres de variadas idades, cores e maquinequins. “A Victoria’s Secret domina o mercado há quase 30 anos dizendo às mulheres que apenas um tipo de corpo é bonito. Eu tenho uma filha e me recuso a deixá-la crescer com essa ideia ridícula de que o tamanho do sutiã é mais importante do que a saúde físice e emocional”, escreveu Robyn Lawley.

Protesto em Londres: “Somos sexies, lindas, desejadas e a fantasia de alguém”

MUDANÇAS    

Grifes de lingeries internacionais mais jovens, como Aerie ThirdLove, Savage  x Fenty, Lively, passaram a promover diversidade, positividade dos corpos, peças mais esportivas e confortáveis. Outras marcas ficaram de olho na fatia de mercado e passaram a atender os pedidos e demandas das pessoas trans.

A atriz Laverne Cox foi garota-propaganda da Ivy Park. Valentina Sampaio foi embaixadora da L’oreal, entre outras. A modelo Lea T, que já havia posado para a grife francesa Givenchy, tornou-se embaixadora da Viva Glam, da MAC.

A soberana VS se negou a todo custo mudar os padrões e Razek chegou a dizer que “um sutiã da VS irá vender mais como peça única que o concorrente, que anda fazendo barulho, lucra em total de vendas”.

Foi quando começou a ser vista como uma marca fora do tempo, que valoriza o ideal de beleza feminino ultrapassado, objetificante e quase pornográfico. Na véspera dos desfiles, revistas femininas substituíram histórias sobre dietas malucas e exercícios realizados pelas modelos por artigos de mulheres convivendo bem com seus corpos. 

No último show em 2018, em Nova York, a grife até tentou trazer uma mensagem dentro da agenda. Fez com que as modelos mais famosas do mundo dissessem que se sentiam “bem-sucedidas”, “poderosas”, “empoderadas” e “fortes” com as peças. Também trouxe muitas mulheres em tons variados de pele e etnias, mas nenhuma em formas ou idades variadas. Resultado: a máxima de “podemos ser sexy para nós mesmas e quem nós queremos ser, não o que um homem deseja”, não convenceu.

Desfile de 2018 apostou em diversidade de etnias, mas manteve padrão de corpo

Vale informar que, segundo a colunista do The Guardian, Rhiannon Lucy Cosselett, a marca foi originalmente lançada para os homens que gostariam de comprar roupas picantes para suas esposas, mas que se sentiam desconfortáveis. Com o tempo tentou ser mais focada na mulher. Tentou.

ASSÉDIO

Para piorar a imagem da grife, houve o movimento Time’s Up, em que mais de 100 modelos internacionais assinaram uma carta aberta ao CEO John Mehas falando sobre violência sexual contra modelos. Divulgada pela organização Model Alliance, elas pediam que a marca protegesse as angels e aspirantes a modelos de episódios de “assédio, estupro e tráfico sexual”, tão frequentes nos bastidores.

A carta diz que as denúncias não tem relação direta com a grife, mas que ela tem papel crucial na solução da situação, pois mantém relação profissional com fotógrafos, empresários e produtores que teriam abusado sexualmente de modelos, sejam da VS ou não. “É profundamente perturbador que esses homens parecem ter alavancado suas relações de trabalho com a VS para atrair e abusar de garotas vulneráveis”.

A modelo cisgênera Lais Ribeiro – única brasileira a ser angel na atualidade – afirmou que as acusações são injustas, pois trata-se da “marca mais respeitosa com a qual trabalhou”. Ela diz que chegou a ter um episódio de assédio com um fotógrafo e, ao comunicar a empresa, o fotógrafo foi demitido no dia seguinte. Já a modelo portuguesa Sara Sampaio diz que os principais crimes sexuais contra modelos ocorrem nas agências que recrutam garotas. “Se quer proteger modelos contra assédio sexual, vá atrás dos agentes e agências”.

À Elle norte-americana, a VS declarou que está sempre preocupada com o bem-estar das modelos e que pretende “continuar a dialogar com a Model Alliance para alcançar um progresso significativo na indústria. Era mais um alerta de que o desfile de modelos com curvas finas, enfeitadas com asas de anjo, sendo cobiçadas por homens, com a tradicional presença de homens como Donald Trump, precisava de algumas alterações.

CRISE DE IDENTIDADE

O que era impensado começou a tomar forma: a poderosa Victoria’s Secret parecia enfrentar uma crise de identidade e financeira motivada pela rejeição das mulheres à falta de diversidade e, consequentemente, pela queda nas vendas e lojas fechadas.

Tanto é que neste ano, pela primeira vez, o Victoria’s Secret Show foi cancelado e não ocorrerá até segunda ordem. A modelo Shanina Shaik confirmou o cancelamento e declarou que a empresa está – preste atenção – tentando trabalhar a sua marca.

O diretor Ed Razek, responsável por divulgar o pensamento transfóbico e gordofóbico da empresa, também se preparava para renunciar o cargo e se aposentar. Segundo a modelo Lais Alves, ele “preferiu se afastar” para “deixar a Victoria’s Secret seguir o curso do momento atual”.

Foi nesse momento que Valentina Sampaio – que já havia despontando em capas de revistas internacionais e cuja estética é exatamente aquela já valorizada pela grife ao longo dos anos: magra, alta e com passabilidade cis – entra para o trabalho. Muita gente comemorou o pioneirismo, que de fato é uma conquista histórica da modelo, que vem galgando o seu lugar ao sol. Também é uma vitória para a população trans, após muito anos de luta de tantas outras modelos trans.

Resta saber se a marca realmente entendeu a importância da representatividade, da inclusão de pessoas trans, ou se tudo isso tem haver apenas com business e a tentativa de criar uma imagem mais inclusiva. E, se sim, qual será a modelo gorda? Haverá pluralidade de corpos? A visibilidade trans ficará limitada a Valentina? E modelos mais velhas? Os próximos passos e desfiles vão responder…

Valentina Sampaio em campanha de lingerie da HOPE (Divulgação)

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