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Jesuíta Barbosa diz que é “viado”; quando o xingamento vira orgulho

Por Neto Lucon

Jesuíta Barbosa falou sobre como vê a própria sexualidade em entrevista à Vogue Brasil. Ressaltando que a temática ainda está em um lugar retrógrado, o ator disse que acha que as caixas “viado” ou “hétero” são limitadoras, mas soltou: “Se for para me colocar em função da comunidade, pode escrever aí, por favor: sou viado”.

A revelação sobre a sexualidade não é novidade, haja vista que o ator já revelou publicamente em 2017 que ficava com mulheres e homens. Algo que evoca uma reflexão importante é a utilização da palavra “viado”. Antes vista como um xingamento à comunidade de homens gays e que, com o passar dos anos vem sendo reapropriada e ressignificada.

Há diversos estudos e textos antropológicos que apontam a origem da referência viado. As razões e versões são muitas. A mais simples é de que seja uma derivação da palavra “desviado” ou “transviado”. Ou seja, aquela pessoa que teria desviado do caminho esperado e manteve a vida tortuosamente.

Também há quem aplique a palavra ao veado, com “e”, os cervídeos que foram eternizados como saltitantes, sensíveis e delicados no filme Bambi, da Disney, mas que em países do hemisfério norte é símbolo de virilidade.

O sexo entre veados machos está de fato presente na natureza. Isso ocorre sobretudo no período de acasalamento, quando há a produção excessiva de esperma e a interação sexual para se aliviarem e também por prazer, conforme o estudo de Bruce Bagemihl, de 1999. Após esse momento, além de uma questão meramente fisiológica, muitos criam vínculos como casal e vivem assim por muito tempo. Vale dizer que esta não é particularidade do veado, sendo que mais de 1.500 espécies de animais tem prática sexual com o mesmo sexo, conforme o mesmo estudo.

Veado colorido e poligonal em ilustração de @Patrickss

Uma matéria da revista Lado A, com fonte dos antropólogos e historiadores Luiz Mott, James Green, João Silverio Trevisan, Fry & MacRae, sugere uma série de referências para a popularização da palavra “viado”. Há relatos de que a referência surgiu no início do século 20, quando a polícia do Rio de Janeiro perseguia homossexuais e, ao vê-los fugirem correndo e pulando, associavam a veados. Mostra ainda que há associação erudita ao latinismo VENATUS, que significa caça-morta. Uma alusão a violência contra essa população.

A matéria aponta também que pode ter sido inspirado em uma antiga marca de cigarro, que trouxe um veado exuberante na embalagem, sendo associado aos gays mais pintosos. Outra sugestão é que algumas espécies de veados têm pelos brancos em volta do ânus, dando destaque à parte do corpo e fazendo alusão ao sexo anal. Por pura hipocrisia, uma matéria da revista Superinteressante, de 2003, informa que os machos heterossexuais de veados-de-rabo-branco hostilizam e atacam os machos homossexuais, sendo uma das raras espécies a demonstrar homofobia.  

O artigo de Josué Machado, na Folha de São Paulo, em 1994, informa que Tenório D’Albuquerque diz no livro “Atentados à Gramática” que a referência ocorreu porque na Alemanha pré-Hitler havia um médico chamado Dr. Hirsch. Ele falava que o cruzamento entre judeus e alemães produzia casos de “homens-mulheres’ e “mulheres-homens” e considerava as pessoas andróginas como superiores. Ele mesmo se referia assim. A associação com o termo é que Hirsch em alemão significa “veado”, valendo-se desta extensão a homossexuais.

O fato é que “viado” ou “veado” passou a ser utilizado para ofender homens homossexuais, homens femininos ou com comportamentos que fogem à regra normativa. A palavra era disseminada na rua, nas casas e até em programas de TV. Sempre com tom de ofensa e xingamento. Como se ser viado – ou seja gay ou homossexual – fosse uma das piores coisas que alguém pudesse ser. Visto como alguém anormal, pecador, impróprio, inadequado. Não esqueço de uma tia que, certa vez, ao perceber meu jeito mais delicado, soltou: “Qualquer pai prefere uma filha puta a um filho viado”. Não entendi a comparação, mas sabia que ser viado não era visto como algo positivo para a sociedade. Isso me fez esconder e me odiar por muitos anos.

Reportagens que denunciam a utilização da palavra como ofensa e agressão

Com o passar do tempo, comecei a observar que a palavra passou a ser uma referência dentro do próprio meio entre as pessoas LGBT. Quando um LGBT se refere outro de viado atenta-se para uma expressão, uma exclamação ou um simples chamamento. “Viado, venha ver isso aqui”. “Viaaaado, o babado tá fortíssimo”. Mas abriu-se uma convenção interna: isso só vale se a pessoa for LGBT para outro LGBT. Afinal, pessoas héteros cisgêneros continuam referindo-se “viado” como xingamento, intimidação, violência e piada entre si ou contra LGBTs. Não seja essas pessoas e não compactue com esses momentos.

Nesses últimos anos, a palavra “viado” passou a ser ressignificava, reapropriada e dita como sinônimo de empoderamento por muitas pessoas. Virou exposição com o meme “Criança Viada” e até tema de música de cantoras heterossexuais cisgêneras que se dizem aliadas.

Desta vez, a palavra “viado” foi dita por um galã Global – que em outros tempos morreria de medo de ser reconhecido como tal. Assim como a palavra “Queer”, anteriormente usada como xingamento, passou a ser uma identidade fortíssima em todo o mundo. Assim como, ao ser chamada de “bicha” por Silvio Santos, Pabllo Vittar soltou: “Amo ser bicha, sou bichérrima” e, e depois, “Vai ter viado na ONU”. Assim como a atriz Bruna Linzmeyer refere-se a si mesma como “sapatão”. E tantas outras pessoas, sem o apelo midiático e em suas guerras particulares, também se apropriam de uma palavra para agredir para simbolizar algo de bom.

A advogada Talita Menezes e o filho Rafael em manifestação de 2018

Evidentemente que há muitas outras questões envolvidas e recortes que devem ser pontuados – como a vida do homossexual negro, da periferia, trans, feminino, dentro de famílias extremamente conservadoras e fundamentalistas religiosas – e de como essas palavras repercutem na individualidade de cada um. Mas cada vez mais observo um outro momento de lidarmos com a LGBTfobia de todo dia. O momento em que dissemos: não temos vergonha ou sentimos constrangimento de ser referidos como homossexual, gay, viado, bicha ou qualquer palavra que possam criar para nos ofender. Ao contrário, sentimos orgulho e essa emancipação da palavra é uma das nossas maiores defesas e viradas de mesa.  

Categorias

Pop e Art, Pride

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