Ir para conteúdo

Casal trans e gay, Thales e Nathan revelam como foi passar pela transição juntos

Por Neto Lucon

Thales Alves se tornou conhecido em todo o Brasil após participar do Master Chef, da Band, em 2018. Ele foi o primeiro homem trans a participar de um reality show no país e levantou a bandeira. O que o chef de cozinha não poderia imaginar é que a pessoa com que ele é casado, até então lida enquanto mulher, também revelaria que é homem trans.

Para quem não sabe, homem trans é a pessoa que foi designada mulher ao nascer, mas que se identifica com o gênero masculino e é um homem – inclusive com a possibilidade de ser reconhecido legalmente como homem. Neste caso, tanto Thales quanto o marido – o gestor financeiro Nathan Damasceno – são homens trans e formam um casal trans gay.

“Nós tivemos que casar de novo depois da transição. Mesmo com a possibilidade de alteração de nome e gênero no cartório, a gente não pôde fazer duas alterações e averbações na mesma certidão de nascimento. Ou seja, se duas pessoas trans forem fazer a retificação do nome nas certidões, tem que fazer outra certidão. Eu casei duas vezes com a mesma pessoa”, conta Thales com exclusividade ao NLUCON.

Os dois também dizem que tiveram a oportunidade de viver todos os tipos de relacionamento com uma só pessoa. Eles já foram lidos socialmente enquanto um casal de lésbicas, antes de terem realizado a transição e serem identificados como mulheres. Posteriormente, quando apenas Thales revelou que é homem trans, o casal passou a ser lido como um casal hétero. E, agora, com os dois se identificando como homens trans, eles formam um casal gay.

Conseguiu entender? De fato, toda a história passou por um processo bastante diferente, como o próprio casal define. E a gente conta passo-a-passo para vocês em texto e em vídeo!

O ENCONTRO

O primeiro encontro de Thales e Nathan ocorreu quando eles ainda eram lidos como duas mulheres, cujos nomes femininos e fotos antigas não vem mais ao caso. Nathan estava com dúvidas sobre sua orientação sexual e pediu para uma amiga apresentar alguém do curso de psicologia para ajudar nesse processo. “Ela falou sobre o Thales na época, mas a minha intenção inicial era só conversar sobre sexualidade”, garante.

No primeira conversa, os olhos de Thales brilharam e ele tentou roubar um beijo de Nathan na porta da faculdade. Ainda no armário, Nathan correu e se enfiou no primeiro ônibus que apareceu. Mas apesar do medo de ser exposto ele também se interessou e não tirava Thales de seus pensamentos. “No dia que conheci já fiquei meio assim: balançado. Mas achava que ele não prestava. Corri neste dia”.

A química rolou e dois dias depois eles já tinham dado o primeiro beijo. Thales chegou a ir a uma Parada LGBT em Goiânia e declarou que seria a sua despedida de solteiro. Quando voltou, pediu Nathan em namoro. “Eu não fiquei com ninguém, fiquei a Parada inteira no telefone conversando com ele”, garante. “Thales me convenceu”, diz Nathan sobre os motivos de ter deixado o coração balançar e falar mais alto.

A família não aceitou tão facilmente o relacionamento no início, mas eles prosseguiram. Com o relacionamento indo de vento e popa, com direito a casamento no papel, Thales começou a sentir cada vez mais alto que sua identidade era masculina e que não dava para viver uma mentira.

Nathan e Thales: formamos uma dupla dinâmica

THALES REVELA QUE É HOMEM TRANS

O chef de cozinha diz que sempre pensou sobre ser um homem trans e que desde a infância e adolescência dava sinais de que se identificava com o gênero masculino. Mas quando a ideia batia em sua porta, ele corria tentando se distrair com outras coisas. “Cortei o cabelo, despiroquei, fiquei com várias pessoas, entrei no movimento feminista e vi que em nenhum desses lugares era o meu lugar. Tentei me encontrar, mas sempre me negando”, recorda.

De frente para o espelho, ele fechava os olhos imaginando a imagem que gostaria de ver. Ao abrir, se deparava com o reflexo de “estou nesse corpo, que não é meu”. Foi quando ele decidiu se identificar como homem trans e se abrir para Nathan.

Após a revelação, o relacionamento tornou-se bastante conturbado. Segundo Nathan, ele se fechou porque não entendia o que era ser uma pessoa trans. “Eu achava que o homem trans era uma lésbica masculina. Não sabia que tinha todo esse processo. Então fiquei muito na defensiva. E por causa disso ele segurou (contar que é um homem trans para as pessoas por) um tempo”, diz.

Tudo mudou quando o gestor financeiro assistiu ao filme “A Garota Dinamarquesa” e se baseou no casamento de Lili Elbe, que se percebe mulher trans durante o casamento com a mulher cis Gerda Wegener. “No começo, a Gerda era má (sobre a transgeneridade da Lili) e eu falei: ‘Velho, eu não quero ser essa pessoa. Daí eu mudei e falei: ‘Amor, vou tentar e vou pesquisar”.

Com o respeito de Nathan, Thales “saiu do armário” e, embora houve uma mudança de humor no início, por conta do uso inicial da testosterona, tudo continuou bem. E melhor!

A VEZ DE NATHAN

Enquanto Nathan estava pesquisando sobre pessoas trans para entender o marido, ele começou a perceber que muitas das informações também faziam sentido para a própria vivência. O gestor financeiro passou muitos dias assistindo vídeos no Youtube e, a cada um, parecia que todas as informações se encaixavam. “Mas eu ficava procurando um homem trans que tivesse uma história exatamente como a minha, porque eu precisava de uma confirmação”.

A primeira pessoa com quem ele conversou foi Thales, mas houve uma resistência dele de aceitar a ideia. “Como ele tinha recém-transicionado, quando eu fui falar com ele sobre isso, ele achou que eu estivesse indo na dele, como uma maria-vai-com-as-outras”, conta.

O chef de cozinha se justifica: “Eu disse que ser trans não é bagunça e que era algo para sempre. Imagina o Nathan começa a transicionar e depois, boom, descobre que não é isso. Falei para ele não correr esse risco, para ir à terapia, conversar, pesquisar. Ele tinha alguém que estaria do lado dele, que sou eu, mas eu precisava que ele tivesse certeza. Pois não posso decidir pela vida de ninguém”.

Na terapia, Nathan abordava as dúvidas sobre não ter exatamente a mesma vivência de outros homens trans. “É porque na infância eu era muito tímido, fechado, então não era masculino como outras pessoas dizem. E, para mim, eu tinha que bater 100% com alguém para ter certeza”, declara, salientando que foi na terapia que ele conseguiu abandonar essa ideia e deu prosseguimento na busca por sua verdadeira identidade.

Quando ele voltou a conversar com Thales, dizendo que tinha certeza, houve o acolhimento. Thales, que já fazia a homonioterapia, realizou a cirurgia no peitoral e, pouco depois, Nathan passou a realizar aplicações de testosterona e também passou pela cirurgia. “O pessoal da minha família aceitou melhor do que quando a gente se ‘assumiu lésbica’. Foi bem mais tranquilo e leve que da outra vez”, pontua Nathan.

AFETO

Vivenciado suas verdadeiras identidades de gênero, Nathan e Thales também viram suas orientações sexuais serem ressignificadas com o tempo. Se antes eles sentiam atração por mulheres, e eram definidos como lésbicas, hoje eles estão dentro de um relacionamento com outro homem, e se veem como homens gays. Esse processo não foi simples, precisou ser trabalhado, mas eles se saíram bem.

“Sou bem assim: ou eu gosto da pessoa ou não gosto. Eu sempre amei o ser e não o corpo, porque o corpo é algo fluido, vai com a terra. Eu enxergo o Nathan como o ser, não como um corpo. Ou seja, independente do corpo que o Nathan estiver eu gosto do Nathan sendo o Nathan. Eu gosto desse serzinho dentro desse peito”, afirma.

Nathan diz que foi mais complicado entender a orientação sexual quando apenas Thales havia transicionado. “Tive que trabalhar, porque não foi fácil no começo. Eu não queria ser hétero e ter na minha cabeça que eu estava me relacionamento enquanto mulher não estava rolando”, admite o gestor. “A concepção que a sociedade faz de casais heterossexuais é que a mulher está tendo desvantagem e isso é realmente injusto”, explica Thales.

Thales afirma que agora vê uma pessoa feliz e completa, o que torna o relacionamento mais gostoso. “Foi algo que completou ele para que ele se enxergasse como a pessoa belíssima que é e ao mesmo tempo a nossa relação foi se encaixando. Ter alguém trans do meu lado é saber que eu tenho alguém completo e perfeito para aquilo que eu preciso. Preciso de um companheiro, melhor amigo, que me imponha limites. Somos uma dupla dinâmica, super-forte. E esses entraves que tentam colocar, a gente vê que é o contrário e continua sendo esse casalzão: preto, belo e feliz”.

DOIS HOMENS TRANS EM UMA MESMA CASA

O chef de cozinha diz que as pessoas em geral nunca vão entender o que são duas pessoas trans convivendo na mesma casa. “É bom pelo ciclo de testosterona, porque a gente fica chato ao mesmo tempo e a gente fica feliz ao mesmo tempo. É pesado porque temos algumas diferenças de ciclo e eu tenho maior controle emocional porque meu corpo se acostumou mais com a testosterona. Mas essa dificuldade que eu tenho se quebra quando eu já passei por essa experiência”.

Na vida social, Thales afirma que a transfobia é uma constante, uma vez que as pessoas ainda se julgam no direito de invadir os corpos trans. Ele destaca o dia em que foi nadar na piscina do apartamento e uma das moradoras veio apontar, horrorizada, sobre as cicatrizes que ele carrega no peitoral. “Ele falou: ‘Nossa, que marca grande, o que aconteceu? Eu falei: Levei uma facada na rua. E ela ficou chocadíssima e correu. Fiquei pensando: qual é o direito do outro invadir o espaço do meu corpo? Falar como se fosse algo horrível quando foi a primeira vez que eu pude nadar na vida sendo eu mesmo? As mudanças que ocorreram não foram ruins, na verdade me fez bem. Me fez olhar no espelho e falar: você é o cara!”.

Dentre os momentos de diversão, eles fazem um acampamento na sala para organizar uma maratona de filmes e séries. Nathan, às vezes, faz pedidos gastronômicos durante a madrugada. Na entrevista, eles também revelaram o que mais gostam um do outro: “Eu gosto do sorriso do Nathan, porque é o sorriso mais lindo do mundo. E gosto da fibra dele, ele é perseverante”, elogia Thales. “Eu gosto dele todo fisicamente e ele é muito forte, trabalhador e determinado”, devolve Nathan.

Desta experiência de afeto, união, parceria e amor únicos, o gestor financeiro deixa a sua mensagem aos leitores do NLUCON: “Sejam vocês mesmos, independentemente do que os outros achem. E fiquem com quem vocês quiserem, sem se importar com besteiras da sociedade”. Anotou?

Assista o bate-papo em vídeo:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: