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Árbitro paralisa jogo após gritos homofóbicos e mostra que não há mais espaço para homofobia

Por Neto Lucon

O jogo entre Vasco e São Paulo que ocorreu no domingo (25) no estádio São Januário, Rio de Janeiro, marca um momento importante para o futebol brasileiro. O árbitro Anderson Daronco paralisou o jogo aos 19 minutos por conta dos gripos de “time de viado”, vindo da torcida do Vasco, e só voltou quando o técnico Vanderlei Luxemburgo se mobilizou para pedir para que os gritos homofóbicos cessassem.

E eles tiveram que parar.

É a primeira vez no Brasil que um jogo é interrompido para se educar referente a homofobia. É a primeira vez que um árbitro dá o exemplo contra esse preconceito. Tão comum na vida e nos gritos de provocação e ódio nos estádios. Tão comum voltada ao São Paulo, tido de maneira pejorativa pelos adversários como um time de homossexuais. Tão comum na rotina de muitos torcedores (e inclusive atletas) que muitas vezes evitam ingressar ou torcer por medo do preconceito.

Vale informar que momento aconteceu porque na última semana o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), por pressão da Fifa e do Supremo Tribunal Federal, enviou um comunicado para que os 20 clubes da Série A atuassem de maneira preventiva contra o preconceito e determinou que árbitros façam o registro da súmula ao se deparar com manifestações LGBTfóbicas. Daronco poderia ter feito vistas grossas, mas teve coragem e deu o exemplo.  

Além disso, frases e gritos com teor homofóbico têm punição prevista no artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. Isto é, traz ao time a possibilidade de ter que pagar uma multa que varia de R$ 100 a R$ 100 mil, perder três pontos, sendo que a reincidência tem pena dobrada e até, dependendo do caso, a paralização definitiva do jogo.  

Assista o momento:

Num país punitivista, leis ou normas que enquadram e penalizam práticas indevidas surtem efeito e podem mudar as estruturas quando aplicadas de fato. E isso não vale apenas para pessoas LGBT, mas segundo o Código é proibido “praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”. Ou seja, respeito à dignidade da pessoa humana, que deveria ser obrigação básica de todos.

O caso está sendo analisado pelo procurador-geral do STJD, Felipe Bevilacqua, como informou o UOL, e ainda não foi divulgado se o Vasco sofrerá ou não a perda de pontos. Mas a paralização deu o seu recado de que não há mais espaço para a homofobia dentro e fora dos campos. Tanto é que os cantos não voltaram a se repetir no jogo em questão e fez ascender um debate em todos os clubes, que agora se preocupam com a torcida.

Para quem acha que o futebol vai perder a graça, talvez vale repensar na própria prática esportiva, na torcida festiva e o peso que tal grito ofensivo faz emergir. Talvez o que antes era visto como mera piada, entende-se hoje como a demarcação de um preconceito histórico. É só lembrar do caso em que uma torcedora do Grêmio foi flagrada em 2015 chamando um goleiro negro de “macaco”. Talvez em outros momentos uma maioria entendesse apenas como “piada”, mas hoje vemos de maneira nítida o racismo. Tanto que houve comoção e até campanhas. O mesmo vale para a LGBTfobia, que hoje é naturalizada nas arquibancadas, mas que precisa ser combatida.

O jogo terminou com 2 gols do Vasco contra 0 do São Paulo. Mas o placar final mostra que o verdadeiro golaço e o verdadeiro vencedor foi, sem sombra de dúvidas, o árbitro.

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Pride, Realidade

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