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Quem é Lil Nas X, o cantor gay que se tornou fenômeno da música em 2019

Por Neto Lucon

Lil Nas X, 20 anos, é o nome que está na boca e nos aplicativos de música de grande parte dos norte-americanos (e muitos brasileiros) em 2019. Ele é autor de “Old Town Road”, cuja mistura de country com rap vem tendo a maior repercussão entre os fãs, discussão entre críticos e feito história ao ser o artista que mais liderou as paradas da Billboard em mais de 24 anos.

O jovem vive como cantor, rapper, produtor musical e está contratado pela Columbia Records, braço da Sony. Mas nem sempre foi assim. Até dezembro de 2018, ele estava desempregado, tinha largado a faculdade, a conta negativa, dormia no sofá na casa da irmã e tentava emplacar algum hit como artista independente na internet. Sua história é surpreendente.

Lil Nas X é o nome artístico de Montero Lamar Hill, que viveu em Atlanta com os pais até os seis anos, quando eles se separaram. Lil foi morar com a mãe e a avó em Bankhead Court em um conjunto habitacional chamado por ele como “barra pesada”, por haver muitas gangues, violência e assassinatos. Aos 9, foi morar com o pai e o irmão para um pequeno e quieto bairro Austell, em Cobb Conty. Ele afirma que, apesar de não querer ir, foi a melhor coisa que pode ter feito para “não ir para o caminho errado”. Com a mãe, perdeu contato há muitos anos.

Na infância, Nas já demonstrava várias habilidades artísticas, humor e dedicação. Ele era um aluno aplicado e ainda no Ensino Fundamental já tocava trompete, apontando para o talento na música. Mas quando o pai se mudou com a família para Lithia Springs, no Ensino Médio, Lil Nas parou as atividades extracurriculares e viveu quase o tempo todo na internet em diversas contas no Twitter, fazendo memes e brincadeiras. “Eu passei a me isolar – não sei o motivo. Eu acho que estava descobrindo quem eu era”, cogita.

No Twitter, Facebook e Vine, o adolescente fazia sucesso divulgando vídeos, montagens e memes engraçados, construindo uma base de seguidores. Em 2015, ele era conhecido pela conta NasMaraj, em menção a Nicki Minaj, repleta de tweets virais. Em 2018, decidiu tentar se arriscar na música – algo que até então ele nunca se imaginou fazendo – e a atitude foi drástica e precisava ser certeira. Ele deixou de estudar ciências da computação na Universidade de West Georgia e passou a produzir e a publicar músicas no SoundCloud.

SUCESSO VINDO A GALOPE

Os artistas que Lil Nas cresceu ouvindo são Drake, Kendrick Lamar e Kid Cudi, o que de alguma forma o inspiraram e contribuíam para o novo trabalho. A primeira música que escreveu foi Shame, que publicou no SoundCloud. Ele diz que logo nesta primeira tentativa conseguiu receber comentários positivos, principalmente de que as pessoas “transavam com a música ao fundo”.

“Eu não sou supersticioso, mas enquanto eu ouvia a batida, flows e melodias vinham na minha cabeça. Eu não tive que pensar, eu apenas senti uma força ou algo parecido”, declara a Rolling Stone.

Neste período, Lil comunicou o pai sobre suas escolhas e passou a dormir no sofá da irmã. A sua renda vinha do dinheiro que havia guardado trabalhando como caixa de uma rede de lanchonetes de frango frito da Geórgia, e como atendente no Six Flags, supervisionando crianças nas montanhas-russas.

A música que o tornou conhecido – “Old Town Road” – começou a surgir em outubro de 2018, quando pagou 30 dólares pelo beat do produtor holandês YoungKio, de 19 anos. Tratava-se de um sample da faixa “34 ghots IV”, do grupo Nine Inch Nails, que se encaixava exatamente na proposta que o artista vinha estudando e testando: criar versos divertidos e ter uma estética que misturava o rap e o country. Algo inovador.

Lil Nas uniu talento artístico e habilidade de viralizar nas redes sociais

Ele usou toda a habilidade como criador de posts virais para pensar em uma música que também pudesse atingir um grande número de pessoas, que elas pudessem usar como legendas, memes e que de fato pegasse. Quando publicou “Old Town Road” no Twitter em dezembro – primeiro um trecho e depois ela completa – começou a promover, divulgar e retweetar a música sem parar. Ela aparecia como trilha sonora em vídeos e memes de cavalos e caubóis e até no game Red Dead Redemption 2, que se passa no Velho Oeste. Neste último, ultrapassou 66 milhões de views.

“Isso lentamente foi se desenvolvendo”, conta. “As pessoas dizem que eu pago os influencer, mas eu nem tinha dinheiro para produzir um vídeo. Como eu iria pagar alguém?”. Um dos empurrões veio do digital influencer Michael Pelchat, que gravou um vídeo viral na plataforma TikTok usando a música de Lil, e que fez com que diversas pessoas também fizessem vídeos imitando. Lentamente? O sucesso estava vindo a galope.

COUNTRY-RAP

No SoundCloud, Lil Nas X categorizou “Old Town Road” como “country”, aparecendo pela primeira vez na Billboard na 19ª posição na Parada Country do dia 16 de março. Para muitos críticos, foi mais uma estratégia para ter o trabalho notado, já que seria bem mais difícil para um artista iniciante emplacar as paradas no muito mais competitivo hip-hop.

A revista decidiu tirar a música na categoria nas semanas seguintes. A justificativa foi que ela não “abraçava elementos suficientes da música country de hoje” para estar na Parada Country.

A decisão movimentou o debate na indústria da música. De fato o hit rompe a fronteira da tradicional música country, com estética rural e conservadora e traz uma mistura com o rap urbano e desconstruído. Aliás, nos primeiros segundos é possível acreditar que se trata de mais uma música country tradicional. Tudo muda quando a batida do rap e o vocal no estilo aparecem e trazem uma mistura absolutamente inovadora no cenário.

O The New York Times publicou um artigo do jornalista Jon Caramanica, dizendo que Nil Nas reaquece a discussão se o rap é “amigo ou inimigo” do country e se os gêneros podem se misturar. “Por décadas, Nashville enquadrou e comercializou a experiência rural como arte branca. Então, quando um artista como Lil Nas X reivindica a estética rural, mesmo que de uma maneira parcialmente irônica, causa uma ruptura real”, diz o artigo.  

Ao “NYT”, Lil Nas declarou que considera a música em questão como um “country-rap”. “Mas se eu tivesse que escolher qual dos dois faz mais sentido, definitivamente seria country”, disse. Ele destaca que não vê a problemática da questão racial nas críticas quanto a repercussão, mas acredita que tudo se dá por ser um trabalho inovador. “Acho que é por ser uma música diferente demais”, pontuou.

RESPOSTA  

Durante o debate, Lil viu o sucesso meteórico dar seus primeiros grandes frutos. Contratado pela Columbia Record e apoiado pelos fãs, ele teve a oportunidade de dar a volta por cima na Billboard. Respondeu com um remix da música “Old Town Road”, desta vez com a participação especial de ninguém menos que Ray Cyrus, cantor da música sulista e pai da cantora pop Miley Cyrus.

O veterano diz que não imaginava que voltaria a retomar as atividades tão intensamente aos 57 anos e que o novato é um “gênio” e “grande pensador”. “Acho que Lil Nas é um herói que veio quando o mundo precisava de um”, afirma a Rolling Stone. “Em uma época em que estamos todos divididos, ele é uma luz”, continua.

Juntos também lançaram um clipe bastante humorado, dançante e com a estética bem misturada dos estilos. Vestiram calças apertadas, chapéus de caubói Gucci e se divertiram a beça. Lil acaba, sendo teletransportado do faroeste para os dias atuais e teve até uma corrida entre um cavalo e um carro, em que o caubói Lil leva a melhor. A obra, que contou com a presença do ator Chris Rock como um xerife, tem mais de 288 milhões de visualizações.

A nova versão foi publicada no dia 5 de abril e logo – para quem achava que todo sucesso seria passageiro ou que uma nova entrada na lista dos melhores seria inviável – o artista retornou em grande estilo. Desta vez como topo da Hot 100, que se refere ao ranking da revista que engloba todos os gêneros, por várias semanas.

Lil desbancou nomes como Madonna, Justin Bieber, Shawn Mendes e Taylor Swift, que também lançavam trabalhos novos e contavam com toda a estrutura midiática.

Assista abaixo:

O hit alcançou números históricos, ultrapassando o maior recorde de um artista no topo da Parada de sucesso. Foram 19 semanas em primeiro lugar, tirando o pódio que há 24 anos era de – prestem atenção – Mariah Carey com o “One Sweet Day, que ficou durante 16 semanas em primeiro. A própria cantora fez questão de parabenizar o rapper nas redes sociais.

“Enviando amor e parabéns a Lil Nas X por ter quebrado um dos mais longos recordes da história. Fomos abençoados com este recorde com uma canção que significa uma ótima parceria entre mim mesma e o Boyz II Men, tocou tantas pessoas! Continue vivendo o seu melhor!”, escreveu.

No fim de agosto (mais precisamente no dia 25, quando escrevemos esse artigo), ele ainda continua aparecendo na lista da Billboard, na terceira colocação. O artista também fez uma versão com o fenômeno do K-Pop, RM, do grupo BTS, e Young Thug. Vale dizer que, no Brasil, o MC M10 e DJ RD lançaram a música “Sentou e Gostou”, com a música de Lil Nas X em versão funk (já com 52 milhões de visualizações). UAU!

PRIMEIRO EP

Além de “Old Town Road” e suas novas versões, o primeiro EP de Lil – 7EP – também traz outros seis sucessos como “Panini”, Rodeo e “C7osure”. O registro tem colaboração de Cardi B, Travis Barker (Blink-182) e Ryan Tedder. Todos disponíveis nas plataformas e aplicativos de música.

A música Panini também vem fazendo história, apesar de romper com o country proposto anteriormente. Ela conta com sample da música “In Bloom”, do Nirvana, que o artista revelou no Twitter ter recebido autorização de Frances Bean Cobain, filha de Kurt Cobain. Falando sobre os números… Ela já conquistou milhões de streaming e bateu os Beatles e Madonna no Spotify.

Escute:

SOU GAY

Como se não bastasse toda a ousadia com seu country-rap, Lil Nas resolveu levantar outra bandeira aos olhos do público. Durante a divulgação do novo trabalho, resolveu aproveitar o Mês do Orgulho LGBT, em junho, para sair do roteiro e fazer uma revelação aos fãs: “Sou gay”.

“Alguns de vocês já sabem, alguns não ligam, outros não vão mais me acompanhar. Mas antes que esse mês acabe, eu queria que todos vocês ouvissem com atenção ‘C7osure”, escreveu no Twitter, com emoji do arco-íris.

A música em questão tem versos como “deixo meu passado para trás/ me agarro ao meu futuro / É isso que eu vou fazer, não posso me arrepender quando estiver velho” e “Abrace esta notícia, eu vejo o desdobramento / Eu sei que parece que não é a hora / Mas quando eu for olhar para esse momento, vou ver que estou bem”.

À revista Time, ele disse:: “Eu não tinha planos para me assumir. Fui ensinado desde adolescente que a homossexualidade nunca seria aceitável. Me diziam ainda que eu perderia fãs por isso… E, de fato, eu conheço as pessoas que escutam às minhas músicas e a maioria delas não aceita essa diversidade”.

“Lil Nas X representa uma visão mais unificada do futuro, na qual um negro jovem e negro pode dominar a cultura pop sendo ele alguém sem arrependimentos ou culpa”, diz a Time.

Capa da publicação, Lil foi eleito a pessoa mais influente da internet em 2019. A revista destaca o talento, a música, as bandeiras do artista e o novo momento de uma estrela em ascensão, que não se intimida em ser exposto com verdade. Algo que, em outros momentos, a própria homossexualidade seria um segredo guardado a sete chaves com receio de o preconceito atrapalhar a carreira.

A maioria das mensagens que o artista recebeu foi de apoio e, até o momento, a revelação só tem contribuído para a carreira do rapper enquanto mais um atributo de representatividade. Nas redes sociais, todos estão curiosos e se perguntando qual será a próxima performance, o próximo clipe, as próximas letras, os próximos sons e, principalmente, qual será o primeiro grande show do cantor.

De fato, Lil Nas e o seu country-rap laçou muita gente!  

(Mas se você ainda está avesso ao sucesso do rapaz – o racismo e a homofobia tem dessas, né? – assista ao vídeo abaixo, gravado no ginásio de uma escola do ensino fundamental, e sinta mais um pouco de todo o poder do nosso caubói).

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Pop e Art, Pride

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