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Pessoas trans comentam cena em que Britney revela ser mulher trans e contam experiências

Por Neto Lucon

Diversas pessoas trans – dentre elas travestis, mulheres trans e um homem trans que acompanham a novela “A Dona do Pedaço”, exibida pela TV Globo – conversaram com o NLUCON para comentar a cena exibida na sexta-feira (23). Trata-se do momento em que a Britney, vivida pela atriz Glamour Garcia, revela ao pretendente Abel (Pedro Carvalho), que é uma mulher trans e acaba sendo rejeitada.

Para quem não assistiu, o momento foi explorado pelo autor Walcyr Carrasco como um grande mistério a ser desvendado ao pretendente. E que após saber sobre a história de Britney e sua transgeneridade, o confeiteiro demonstra estar decepcionado por ela o ter “enganado” durante tanto tempo, a chama de “homem”, “extraterreste” e pede para que eles se afastem. Britney chora e é consolada por sua família, enquanto Abel vai ao bar “encher a cara”.

De olho na trama, Kimberly Luciana Dias, ativista e digital influencer, diz que a novela evidencia a discriminação da sociedade cisnormativa em relacionamentos com pessoas trans. Ela afirma que Abel demonstra covardia porque é criado dentro de um sistema que não cogita relacionamentos e muito menos uma história de amor com uma mulher trans, apenas com mulheres cis, e que espera que o preconceito sobressaia ao afeto ao se verem nessa situação.

“Homens cis são criados neste contexto de transfobia. Muitos pais, mesmo se dizendo a favor da diversidade, não desejam que seus filhos cis se relacionem com uma mulher trans e esperam que eles neguem essa forma de amar. Sendo assim, esses homens deixam de viver um grande amor porque são preconceituosos e covardes em enfrentar a sociedade como nós pessoas trans enfrentamos”, afirma.  

Para Roberta Conrado, a maioria dos homens cisgêneros não tem a mesma reação que Abel teve ao saber que a pretendente é uma mulher trans. Segundo ela, a reação mais comum é mudar o discurso romântico e deixá-lo mais sexualizado. “Nossa realidade é um pouco diferente. A maioria dos caras aceitam o fato de você ser trans, mas o teor da conversa muda. Os carinhos e elogios se tornam perguntas apenas relacionadas a sexo, tudo no sigilo. E se você diz não, aí sim, você se torna a pior pessoa do mundo, e ofendida de todas as formas”, conta.

A youtuber Odara Soares pontua que relacionamentos com pessoas trans estão inseridos em dois contextos e dados: o Brasil é o país que mais mata pessoas trans (Transgender Europe) ao mesmo tempo é o que mais consome pornografia dessa população em sites pornôs (segundo pesquisa do RedTube). “Os homens nos adoram, estão sempre se relacionando conosco, muito mais que o senso comum imagina. Mas sempre sigilosamente pelo que isso pode significar, pelo medo da exposição, de situações vexatórias, de terem sua masculinidade colocada em xeque e obviamente de perder seus privilégios de homens normativos”.

Vale dizer que, se a transfobia não fosse tão forte no Brasil e se não se estabelecesse de maneira tão naturalizada, a informação de que uma mulher é trans seria vista apenas como mais uma das muitas características que alguém tem, sem qualquer pormenor, revelação ou passível de polêmica. Haja vista que mulheres trans não são menos mulheres que as mulheres cis. O homem que se relaciona com uma mulher trans não é menos hétero do que aquele que se relaciona com mulher cis. E, no caso de ser confundido com gay, ser gay também não deveria ser uma ofensa.

Odara: “Brasil é o que mais mata e o que mais busca pornografia trans”

PERSONAGEM SOFRERÁ MUDANÇAS

Para quem achou a cena de Britney e Abel tensa, vale dizer que Silvio de Abreu, diretor de Dramaturgia da TV Globo, vetou uma outra cena de ir ao ar. Nela, que foi divulgada pelo site Notícias da TV, Abel teria uma reação muito mais agressiva ao saber da história da amada e eles até falariam sobre o pênis da personagem. “Eu… Eu devia dar uma surra em você, por ofender minha dignidade”, diria o personagem, ameaçando partir para a agressão física.

Com a cena alterada, a cúpula da Globo decidiu que a partir de agora o romance da personagem é que ganhará destaque. Isso muda os planos originais do autor, que havia decidido que a partir de setembro a grande luta de Britney seria pelo respeito ao uso do banheiro feminino no mercado de trabalho.

Novela vai focar no romance entre Britney e Abel

Para a cabeleireira Luísa Martins, ainda que a primeira cena tenha um texto mais problemático, a reação agressiva de Abel seria mais realista. “Para ser franca, com certeza ou ela apanharia ali, ou então o cara seria mais agressivo, fazendo ameaça ou tentando intimidá-la. Em poucos casos, ele gostaria de ter algo casual às escondidas com ela”.

A atriz, diretora e dramaturga Eme Barbassa diz que a emissora está atenta ao conteúdo exposto sobre pessoas trans, sobretudo os que atestam o preconceito. Mas que ainda há muito o que ser feito. “Não acho positiva a abordagem cômica, como se a personagem fosse uma mulher falsificada que quer enganar o homem. A personagem ainda não tem vida própria, não é humanizada e tudo gira no fato dela ser trans. Gostaria de ver personagens trans inseridos em contextos que suas histórias fossem mais que o fato de serem trans”, diz.

Eme defende que construções problemáticas se devem muitas vezes pelo fato de o texto e direção serem feitos geralmente por pessoas cisgêneras. “Representatividade para quem atua é importante, mas também precisamos abarcar outras esferas da criação artística. Precisamos ter autoras, diretoras e produtoras trans”, pontua.

Já para o estudante de Cinema e Audiovisual, Chris Araújo, a novela e a personagem tem seus méritos, sobretudo por estar inserida em um núcleo humorado. “Isso faz com que a grande massa, aquelas pessoas que não tem tanto acesso a informação, possa conhecer a realidade trans de uma forma leve”.

Chris diz que a cena adaptada foi triste e respeitosa, sendo coerente com o que o casal está vivendo no desenrolar da trama.  “Considero a química dela com o Abel perfeita e eles são bem fofos juntos. Para mim, é uma personagem com diálogos e cenas respeitosas. Não é caricata, não é forçada e não é tão irreal. Amo as cenas em que Glamour está, apesar de achar que a história dela está muito parada e chega a ficar arrastada algumas vezes”, frisa.

JÁ ACONTECEU COMIGO

Revelar ou não que é mulher trans para um parceiro cis faz parte da realidade de muitas pessoas trans ou travestis. As justificativas são diversas. Muitas revelam que não acham necessidade de falar sobre algo tão pessoal para alguém que acabou de conhecer. Outras dizem que é algo irrelevante, já que são mulheres como qualquer outra. Tem aquelas que temem sofrer transfobia ou que carregam a transfobia internalizada. E tem quem prefira dizer logo de cara ou assim que cogita que o romance ficará sério.

Eme recorda do dia em que estava em uma festa com uma turma de teatro em São Paulo e flertou com um homem que correspondia aos seus olhares. Ela não deixou explícito que é uma mulher trans, mas a informação surgiu por meio de terceiros. “Quando estávamos indo pros finalmentes, um amigo meu chamou pelo meu nome de nascimento. O boy se assustou e eu naturalmente expliquei a situação. Foi um pouco constrangedor, mas depois dei um sermão nesse amigo”, diz aos risos.

Luísa Martins afirma que a cena de Britney e Abel lembrou do período em que saía com alguns homens sem contar sobre sua trajetória trans. Ela afirma que já passou por diversas experiências desagradáveis e passíveis de violência física. “Às vezes rolava de ficar com um cara e ele conhecia alguém que sabia da minha condição enquanto trans. Essa pessoa falava para ele, jogando lenha na fogueira e diminuindo ele por ter ficado com uma mulher trans, aí esse cara ficava furioso. Teve um caso em que ele chegou a mandar mensagem me ameaçando”, lembra.

Um dos casos de violência fatal dentro desse contexto ocorreu na Rússia neste ano, quando o médico Mikhail Tikhonov matou e desmembrou o corpo de Nina Surgutskava, de 25 anos, ao descobrir que é uma mulher trans. No Brasil, Mirella de Carlo foi assassinada aos 29 anos em fevereiro de 2017, por Caio César Viana de Almeida. Ele declarou que sentia vergonha de manter relacionamento com uma mulher trans e que temia que familiares e amigos soubessem. Neste ano, a travesti Quelly da Silva foi assassinada em Campinas e teve o coração arrancado pelo mesmo homem que teve relações sexuais com ela.  

Luísa explica que foi por conta de sua segurança que passou a deixar explícito desde o início do relacionamento que é uma mulher trans. “Não somos obrigadas a nos expor como trans se não quisermos, principalmente quando temos certa passabilidade. Mas fui vivendo certas situações que, com o tempo, fui deixando claro num encontro. Pela minha segurança, primeiramente, e por uma questão de amor próprio também. Se a pessoa realmente gostar de você e quiser sua companhia, ela não irá ligar pelo fato de ser trans. É ilusão achar que, ao se passar por cis, o homem vai abrir a mente. Esse papel não pertence a gente”.

Luísa: “Passei por experiências desagradáveis por não contar que sou trans”

Kimberly diz que jamais esconderia sua identidade de gênero a um homem com quem se relaciona. “Isso faz parte da minha vivência de vida. Tive grandes amores sendo eu mesma, fui até mesmo muito mais amada que uma mulher cisgênera. Enfrentar a sociedade faz o amor ser muito amor”, defende.

FALAR RESOLVE O PROBLEMA?

Falar abertamente sobre sua trajetória nem sempre livra pessoas trans de violações e agressões. Isso porque, não acostumada a ver casais transafetivos, parte da sociedade transfóbcia tenta boicotar a relação ou intimidar os envolvidos. Odara afirma, por exemplo, que o problema de um relacionamento antigo não foi o parceiro cis saber sobre ser uma mulher trans, mas o desejo dele não querer que outras pessoas soubessem.

“Ficamos nos encontrando e nos ‘amando’ por dois anos, durante vários dias da semana. Quando questionei sobre nosso envolvimento, ele simplesmente agiu como se nada tivesse sido construído junto comigo, indo contra toda aquela energia que emanava quando estávamos juntos. Meu mundo caiu, principalmente por saber que o que ele sentia por mim foi menos forte do que o medo à exposição e o preconceito”, reflete.  

Roberta Conrado conta que no início de sua transição ficou com um homem em uma festa e, antes de qualquer coisa, revelou que é uma mulher trans. Ele lidou bem com a informação num primeiro momento, até que outras pessoas começaram a querer avisá-lo sobre sua transgeneridade de maneira pejorativa e ofensiva. Foi quando ele se transformou.

“Começaram a gritar: ‘ela é homem”, ‘Cilada’. E o cara, em vez de me defender, saiu dizendo que não sabia e que foi enganado. A sorte é que o primo de uma amiga me tirou de lá e me levou para casa. Foi horrível e essa não foi a única vez”, lamenta, ressaltando que poderia escrever um livro sobre encontros pautados na transfobia.

Dessas experiências, ela diz que atualmente se vê obrigada a dizer que é uma mulher trans em todos os espaços. “Até nas minhas redes sociais está claro isso, porque sempre sobre pra mim, que eu estou enganando ou mentindo. No início eu não falava porque eu tinha vergonha do que eu era. Hoje não tenho mais. Eles vão ter que me engolir exatamente como sou”. Dizendo-se desiludida de ter um relacionamento, ela reforça que as pessoas cis esquecem que pessoas trans são humanas, tem sentimentos e que não entende com um genital pode mudar todo o conceito de amor.

QUANDO DÁ CERTO

Ao saber da reportagem sobre a novela, Jéssica Cravo disse ao NLUCON que conheceu o atual marido em uma balada. Inicialmente, sem revelar que é uma mulher trans. No dia seguinte, ele foi visitá-la em sua casa, mas ela só conseguiu se sentir segura para falar sobre sua história via telefone.

“Falei que era trans e ele perguntou: o que é isso? Eu respondi: sou travesti. Ele só respondeu: ‘Fuja, louco’ e desligou na minha cara”, lembra. Três dias depois ele retornou à ligação e pediu para encontrá-la, dizendo que não tirava ela da cabeça.

“Falei que tinha medo que ele poderia fazer algum mal e, depois de conversarmos muito, combinamos de nos ver em uma praça. Quando cheguei, ele me beijou e disse que me assumiria, que não estava nem aí para família e amigos e que eu seria a mulher dele”, se emociona.

O relacionamento de Jessica completa 10 anos e atualmente ela visita o marido na Colônia Penal Agrícola de Palhoça, em Santa Catarina, onde ele está preso há dois anos. “Já passei poucas e boas nessas visitas”, diz.

Jéssica: “Ele disse que não conseguia me tirar da cabeça”

DESFECHOS POSITIVOS

Outras trajetórias, com desfechos mais positivos, também podem ser vistas entre famosas e anônimas. É possível destacar o casamento da modelo Roberta Close com o suíço Roland Granacher desde 1993 – que curiosamente ela também não revelou sua história no início – o namoro da atriz Gabriela Loran com Pierri e as declarações de amor entre a atriz Laverne Cox e o namorado Kyle Draper nas redes sociais.

Recentemente a modelo Ticiane Narciso foi a um programa de TV dizer que o namorado Wesley ficou meses sem saber que ela é uma mulher trans. Ele inclusive iniciou o namoro antes mesmo de ter relações com ela. Ele admite que suspeitava da informação, mas não tinha certeza. Quando soube, nada mudou. “Por minha criação e cabeça mais aberta, acabei aceitando”, declarou.

Ao NLUCON, a ativista Geovanna Soares contou em sobre sua história de amor com Rafael Dantas (lembre aqui). Na época, Rafael disse que é preciso dizer à sociedade que ele não tem medo de expor que é casado com uma travesti. Ao contrário, a trajetória da esposa é algo que ele sente muita admiração, orgulho e que sabe que contribuiu para a pessoa que ela é e que ele ama. A entrevista foi dada em 2016, mas continua importante, atual e necessária.

Sobre a novela, Kimberly afirma que torce para que Britney e Abel fiquem juntos e que deem um exemplo positivo na TV. “Torço para o casal. Isso tudo que eles estão vivendo agora só vai fortalecer o amor de ambos. Se existe amor de coração e alma, isso será superado. Caso contrário, ninguém precisa de um homem para ser feliz. Podemos ser felizes com nós mesmas e essa é uma das maiores lições que devemos tirar”, finaliza.

  • Essa matéria refere-se a casais heterossexuais entre mulher trans e homens cis, baseada na abordagem do relacionamento do folhetim. Mas vale ressaltar que mulheres trans ou travestis podem ter diversas orientações sexuais (lésbica, bissexual, pansexual, assexual) e se envolver afetivamente ou sexualmente com pessoas de todas as identidades de gênero, como mulheres (trans, travestis ou cis), homens (trans ou cis), pessoas não-binárias, entre outras… Tome nota!

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