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A mulher trans lésbica e sua luta por validação – Por Líryan Lourdes

Por Líryan Lourdes

No dia 29 de agosto foi celebrado o dia da visibilidade lésbica, e em meio às bandeiras levantadas sabemos que estamos em uma sociedade absolutamente desigual, machista, misógina, transfóbica, repleta de fobias sociais, que constrói uma abordagem de fetiche sobre o amor expressado por duas mulheres. Esta sociedade está inserida em uma cultura muito eficiente em manter as pessoas desinformadas e não educadas, inclusive sobre aquilo que elas pretendem defender. Aquilo que as afeta, que as limita, que as condena, que eleva seus relacionamentos a status de “fetiche social”.

Uma das consequências deste tipo de cultura, que produz pessoas com o ódio à flor da pele e agindo por achismos, preconceitos e não por conhecimento racional, filosófico e científico é que grupos sociais excluídos e marginalizados acabam vivendo em guerra entre si mesmos. É um projeto manter subgrupos sociais em guerra com outros subgrupos sociais, pois isso ajuda, e muito, a tirar o foco do problema real. Basicamente são grupos de pessoas brigando entre si, dizendo serem contra uma violência que atinge a todos os grupos. E a manutenção da violência social fica resguardada com isso.

Existe um feminismo branco que não se importa em escravizar a mulher negra, enquanto é necessário um feminismo interseccional para trazer luz à causa da mulher. Existe também um feminismo radical que praticamente reconstrói e reproduz uma objetificação masculina a partir de uma visão feminina. Há um movimento gay que invalida e constrói um aspecto pejorativo à comunidade bissexual ou transgênero. Há ainda movimentos de origem LGBTQI que excluem, ou pelo menos não pensam, a situação da população indígena, quilombola ou afrodescendente. Sendo assim, as engrenagens de controle social, baseadas em alienação e ideologias, funcionam plenamente. Uma vez que não possuem um “forte grupo contrário” e sim, dezenas de grupos pequenos que, apesar de ecoarem estas engrenagens, perdem muito tempo e energia com conflitos entre si.

Neste contexto acaba existindo um profundo apagamento das pessoas transgênero, e mesmo dentro da comunidade transgênero, assim como da comunidade LGBTQI como um todo, existe um apagamento e uma invalidação das mulheres trans lésbicas, e também dos homens trans gays. Muitas lésbicas cis gênero radicais insistem na ideia de que uma mulher trans não possa ser lésbica, ou, possa ser mulher. Mulheres trans hétero muitas vezes propagam o entendimento equivocado sobre gênero e sexualidade pregando que a mulher é sempre hétero e passiva. Existem os homens gays cisgêneros, da mesma forma, objetificam o corpo masculino invalidando a homossexualidade de um homem transgênero. O que os pensamentos radicalizados como estes fazem é exercer sobre mulheres, e homens, um comportamento genuinamente masculino e machista: a redução de um ser humano a uma genitália! Ou a objetificação de um ser humano a partir de uma perspectiva de “uso do seu corpo para o próprio prazer”.

Ao reduzir a mulher a uma vulva, as lésbicas cis radicais continuam o discurso de objetificação e desumanização da mulher, do Ser Mulher. Invalidando não só as mulheres transgênero mas medindo as mulheres cis por um elemento corporal como objeto de prazer! E da mesma forma existe o oposto na relação de homens transgêneros gays, onde a ideia de reduzir o homem em sua humanidade a um pênis impera, excluindo assim o Ser Homem, para objetificar e manter uma ideia tóxica de masculinidade.

É importante entender que a genitália de uma pessoa não é para que outra pessoa tenha prazer, é para que ela mesma tenha prazer! Nenhum ser humano, nenhuma pessoa, deve ser reduzida à sua genitália, e assim sendo vista como objeto de prazer do outro. A noção de relacionamento romântico ou sexual neste sentido é, absolutamente, distorcido e deturpado… Não há um romance, não há um amor, há uma busca de uso do corpo alheio como possibilidade de prazer pessoal. Uma noção de objetificação onde o corpo da outra é para outra ter prazer, e não ela mesma!

É importante enfatizar que o corpo de uma pessoa é para que ela tenha prazer! Estar com outra pessoa, ou outras pessoas, é uma troca, onde cada uma tem seu corpo para ter prazer, em duas, em três, em conjunto… Sem ter que objetificar a outra depositando a expectativa do próprio prazer no corpo dela. Uma construção de troca, de carinho, de possibilidades em conjunto, com respeito à individualidade e humanidade da parceira, do parceiro, das parceiras… Mulher não é para ser comida, usada, fodida, não é uma vulva ambulante, e o pensamento e comportamento que leva a isso é fundamentalmente masculino, pertencente a uma cultura que visa impedir a mulher de ter autonomia sobre seu corpo. A genitália de uma mulher é para ela ter prazer! E não para ela “dar de presente” para outra pessoa como um tipo de “troféu de conquista” dentro de um pensamento de relacionamento objetificador.

Há quase nenhuma visibilidade trans lésbica na cultura ao nosso redor! Em seriados há em Orange is New Black, Sense 8 e também em Euphoria, mas nem me lembro de outro seriado ou algum filme que aborde o tema. Há pouca aceitação de pessoas trans, e quando são gays ou lésbicas, a coisa piora. Mas, entender o que é o gênero é compreender que Ser Mulher vai muito além de uma vulva, ou de uma estrutura biológica, e que reduzir a mulher a uma genitália é profanar toda a luta, todo o feminismo, toda a morte que passamos e revivemos em cada mulher que se vai em decorrência da violência social que sofremos.

Hunter Schafer (Jules) e Zendaya (Rue) em cena de Euphoria

É claro que é muito simples e fácil entender que outra mulher possa verdadeiramente não querer ter experiências com nada que a lembre o sexo masculino, pois como mulher, eu sei o que é o masculino em toda sua toxidade. Mas isso, e respeitar esta individualidade, não significa invalidar a mulher, brigar com ela, querer sua morte, falar ofensas e invalidar sua existência. Até porquê, este “que lembre o sexo masculino”, não precisa ser especificamente uma genitália! Podem ser outras características, como físicas, ou comportamentais, ou postura moral, ou o ato de reduzir uma mulher a uma “genitália-objeto-de-prazer”. Todos estes elementos são característicos do  masculino e podem não ser o foco de uma mulher que queira para si uma experiência absolutamente feminina.

Assim como eu, como mulher, como lésbica – sim – como transgênero, que não tem nenhum problema com a genitália alheia – pois eu tenho a minha, para o meu prazer – e que não tenho problemas com características físicas, simplesmente jamais ficaria com uma mulher que apresente comportamento masculino. Com um comportamento tóxico, que me lembrasse um homem machista colecionando vulvas para contar para os amigos. Desta mesma forma, e exatamente pelo mesmo motivo, é muito simples entender que outra mulher não queira se envolver com determinadas características que lhe lembre o masculino.

Mas, esta mulher, com esta postura machista e masculina, reduzindo as outras mulheres a uma vulva, é mulher! Ela continua sendo mulher, ela continua sendo lésbica, ela continua sendo um ser humano, que comete erros, que terá acertos, que pode odiar as próximas, que pode objetificar outras mulheres. E eu, ou qualquer outra lésbica, seja cis, seja trans, seja não binária, não me interessar por este tipo de mulher, não as desclassifica, não invalida sua lesbianidade. E é esta a diferença entre simplesmente não se interessar por alguém, em função de seu comportamento, caráter, ética, características, ou mesmo genitália ou outros elementos corporais. E sair por aí querendo propagar ódio e invalidar as pessoas que são como ela, que possuem suas características.

Ou seja, sendo aquela peça obtusa do sistema, brigando com as pessoas marginalizadas ao seu lado, enquanto o as engrenagens que fazem girar o movimento que nos condena, sorriem ao ver que “todo o esquema” segue saudável.

  • Líryan Lourdes é filósofa, escritora nas horas vagas e pesquisadora sobre gênero e sexualidade dentro da ótima filosófica e terapeutica. É mulher trans e lésbica. 

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