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OPINIÃO: As diferenças das reações contra censura a um beijo gay e a uma atriz travesti

Por Neto Lucon

Estou achando ótima a repercussão e reviravolta referente à HQ internacional que Marcelo Crivella, o prefeito religioso do Rio de Janeiro, tentou censurar por causa de um simples e singelo beijo gay, mas que acabou beneficiando a obra (leia aqui).

A Bienal peitou o comunicado extrajudicial. Os livros foram vendidos todos em menos de 1h. A Folha de SP colocou o beijo na capa histórica. Artistas famosos publicaram seus próprios beijos LGB em seus Instagrans. Políticos de esquerda se manifestaram quanto à barbárie de censura. O youtuber hétero cis Felipe Neto, que no passado fez inúmeros vídeos LGBTfóbicos e que hoje se pauta no bom exemplo como aliado, decidiu comprar e doar gratuitamente os livros principais de temática LGBT (sendo que a maioria é internacional ou com autores já conhecidos) para se posicionar contra o preconceito. Militantes agradecendo a bondade e apoio de Felipe.

E todo mundo vendo agora o que nós sempre vimos: a homofobia camuflada mentirosamente como preocupação com a família e crianças, como se não fôssemos famílias, crianças, adolescentes ou dignos do direito ao afeto. Como se um beijo fosse pornográfico e uma afronta, só porque tem como protagonistas duas pessoas do mesmo sexo/gênero.

De fato é preciso fazer alguma coisa e se manifestar frente a qualquer opressão e censura, pois se Crivella, os fundamentalistas religiosos, e conservadores que estão na política tiverem alguma brecha para censurar, colocar como imprópria a temática e pessoas LGBT em obras e intimidar para que voltemos para o armário, o estrago em nossas vidas pode ser cada vez mais pior – apesar de termos algumas decisões via STF que nos garantam alguns direitos, ainda assim passíveis de outras brechas. Ou seja, a manifestação e apoio precisam vir.

Contudo preciso dizer que toda essas manifestações não ocorrem na mesma proporção quando outras injustiças atravessam nossos olhos e que, para além de uma suposta hipocrisia de nossa parte, talvez não consigam fazer muita coisa a longo prazo. Para não sair da comunidade LGBT e da temática da censura, lembro quando a atriz Renata Carvalho, de nossa “unida” comunidade e aliados verdadeiros, foi censurada, não somente por este prefeito bispo chamado Crivela, mas por prefeitos de diversas cidades do Brasil. E a repercussão e toda a luta que enfrentou e enfrenta foi bem diferente.

Para quem não acompanhou, o motivo da tentativa de censura foi porque a atriz é travesti e estava interpretando Jesus numa peça maravilhosa, sensível e respeitosa chamada O Evangelho Segundo Jesus: Rainha do Céu, de Jô Clifford. Só o fato dela ser travesti já foi motivo suficiente para acharem impróprio, sexualizado, pornográfico, desrespeitoso. Nem se atentaram que a peça fala de amor, respeito, união, acolhimento. Foi só transfobia mesmo.

O fato é que Renata chegou a ser censurada de maneira muito cruel, insistente e desumana – sinceramente nem sei como teve estrutura, saúde e força física e mental para superar. E isso não foi durante a ditadura. Foram nesses últimos dois anos. Foi praticamente ONTEM. E se ela retomar com a peça agora, vão tentar censurar de novo, pois fizeram de tudo para calar Renata e o espetáculo. Com manobras jurídicas, guardas chegando na hora da apresentação, fazendo ser excluída de festivais, tendo que brigar diretamente com os policiais e políticos, que faziam de tudo para atrapalhar a obra, recolhendo cadeiras do público durante a performance e fazendo-os assistir tudo na chuva. Não em uma, mas em várias cidades, incluindo a do Rio.

É evidente que tudo isso saiu na imprensa e nos sites, que contou com o apoio de artistas específicos como Daniela Mercury e Johhny Hooker. É evidente que, com tantas injustiças, é impossível conseguir se revoltar com tudo. Mas sinceramente a repercussão desse grave caso de censura – talvez o mais grave que enfrentamos nos últimos anos após a ditadura – esteve longe dessa repercussão gigantesca da HQ internacional, o beijo gay e a tentativa frustrada de Crivelle. Talvez seja um reflexo de quanto avançamos em relação a sensibilização no combate a homofobia e o quanto ainda precisamos avançar na luta contra a transfobia.

A censura envolvendo Renata esteve longe de ser de CAPA da Folha, assunto do Jornal Nacional e outros jornalíticos da TV, com youtubers LGBT ou cis aliados bancando a peça com o próprio dinheiro, com tantos artistas LGBT manifestando apoio e com a própria comunidade e todo esse burburinho de políticos quererem comprar a briga e mostrar que tais representantes do povo não podem agir assim. Muitas vezes em cada matéria que soltamos, e víamos grande parte ignorar – inclusive a própria classe artística LGBT e ativistas LGBT, inclusive trans e travesti – era como se estivéssemos gritando, gritando e poucos parassem para escutar.

Volto a dizer, é importantíssimo que não deixemos passar qualquer brecha de preconceito, censura, tentativa de retrocesso aos direitos humanos. Mas também é importantíssimos reavaliar nossas revoltas e refletir porque nossos olhares permitem sensibilizar para alguns temas e populações ao mesmo tempo que insistem em ignorar outros temas e populações.

Sabe porque eu falo isso? Porque a gente se revolta, consegue tapar um buraco, mas não está preocupado ou conseguindo em mexer nas estruturas. Seria ótimo se autores independentes de livros LGBT fossem beneficiados, não somente os autores já famosos, muitas vezes internacionais e de livros que já estão no ápice e indicados pelas editoras. Seria ótimo que artistas famosos saíssem do ego de publicar seus próprios beijos e se atentassem e sensibilizassem aos casos, ainda sem repercussão na mídia, para que sua fama pudesse contribuir de fato com visibilidade ao caso e ao artista anônimo censurado.

Gente, é fácil bater no Crivella, quem vem afundando o Rio mais do que já está e cujo discurso de preconceito fundamentalista religioso é facilmente desmascarado. Mas na mesma proporção que a tentativa de censura fez com que o livro internacional fosse o mais vendido, contribuísse para outros autores de sucesso conseguissem mais vendas, e causasse repercussão entre quem já apoia os gays, a fake news e preocupação mentirosa com a família e crianças feita por ele fortalece o eleitorado conservador e preconceituoso. E isso pode beneficiá-lo nas próximas eleições. Pois foi exatamente isso que elegeu Bolsonaro.

Estou achando ótima toda essa repercussão. Mas que ela amplifique, se estenda e que nossas revoltas sejam menos levianas e mais combatendo as estruturas. Beijo gay a todos.

2 comentários em “OPINIÃO: As diferenças das reações contra censura a um beijo gay e a uma atriz travesti Deixe um comentário

  1. Então, um dos problemas é que a comunidade LGBTIQ não é unida e não está exatamente sinérgica aos problemas de outras minorias como negros, indígenas, mulheres periféricas, pessoas com nanismo, cultura surda, down, TEA e segue… Estas minorias, assim como os nichos da comunidade LGBTIQ sofrem preconceitos de exata origem que trazem muitos prejuízos em termos de colocação social e trabalhista. Os dois casos são diferentes, e infelizmente o impacto passa a ser diferente pois há um olhar religioso, para uma pessoa religiosa pode ser mais fácil empatia com a questão do beijo gay do que com a questão de uma mulher interpretando Jesus, que equivocadamente é propagado na nossa sociedade como “herói europeizado”. Estas dimensões mudam os afetos das pessoas. Claro que não esto defendendo a religião, minha posição sobre isso é simples: nunca se registrou, por toda a história, nenhum benefício às comunidades humanas vindo de religiões! E mesmo a religiosidade perde sua possibilidade de exercício quando relacionada com a maioria das religiões existentes, em função da estrutura utilizada de alienação social mais idealismos.

    É importante buscar união, traçar estratégias e ter sim reações séries sobre estes tipos de movimentos, estas abordagens são “treinos estratégicos” para ver como a sociedade reage e assim ir avançando em políticas de censura e higienização social, que são os pilares da política atual e seguem no discurso distorcido da religiosidade cristã. É importante neste momento não só união, mas estratégica e muito se ganhará se for se dando voz para pastores e cristãos de ramos religiosos que não sejam racistas, LGBTQI-fóbicos, que não propagam ódio às religiões de matrizes africanas e que apresentem visões humanitárias do cristianismo. Novamente, não sou cristã, mas entender que existem pessoas aliadas dentro do seguimento é importante.

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