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Saiba quem é Nicky Bandini, a mulher trans que marca gol no jornalismo esportivo

Por Neto Lucon

Imagine diversas atletas trans tendo espaço para competir nos mais diversos esportes. Agora imagine que, ao ler uma matéria sobre uma partida, ela fosse escrita, narrada ou avaliada por uma jornalista que também é trans. A máxima de que pessoas trans devem estar em todos os lugares estaria cumprida com sucesso.

Na Inglaterra, a jornalista e radialista Nicky Bandini vem ocupando um espaço ainda marcado por transfobia e machismos: o jornalismo esportivo. Foi com muita resistência, profissionalismo e driblando muitos desafios, inclusive pessoais, que ela conseguiu acessar a porta e fazer história.

Nicky é especializada em futebol europeu e NFL. Escreve em veículos como The Guardian, ESPN, Talksportes e muitos outros. Mas para que conseguisse chegar lá, ela teve que passar por muitos anos como sendo um homem cis. Algo que, se por um lado causava desconforto por não ser sua verdadeira identidade, por outro abriu portas para que conseguisse furar a bolha e mostrar a sua capacidade profissional.

Foi só depois de milhares de reportagens jornalísticas e avaliações bem-sucedidas, durante 13 anos, que ela resolveu publicar um vídeo nas redes sociais, que classificou como “saída do armário”. “Meu nome é Nicky Bandini, mas você talvez tenha me conhecido antes como Paolo Bandini, porque este era o nome que eu usava nos últimos 13 anos como jornalista. Eu sou transgênera”, falou.

SOU TRANSGÊNERA

Em artigo publicado ao Guardian, Nicky revelou que sempre amou escrever e que a prática vem acompanhando por toda a vida. “Quando era pequena, lembro de pensar que as provas de inglês eram um prazer: uma oportunidade de me sentar e brincar com as palavras, de colocar a minha imaginação no papel”.

Com o passar dos anos, teve acesso aos meios de comunicação jornalísticos, que passaram a indicar uma opção profissional. Quando precisou decidir uma profissão, escolheu o jornalismo. Em 2006, já na faculdade, recebeu uma oportunidade do Guardian para trabalhar. Ela tinha 23 anos e diz que gosta de dizer para ela mesma que eles nunca se arrependeram de tê-la chamado.

Nicky revela que sua transição e gênero não foi um processo rápido como muitas pessoas pensam. Mas que foi uma jornada lenta, tanto para conseguir se entender quanto para decidir fazer alguma coisa por ela mesma. Foram três décadas só para que ela conseguisse reconhecer e dizer “Eu sou transgênera” em voz alta.

Ela afirma que desejava que o mundo parasse e que suas disforias de gênero sumissem. “Mas o mundo não parou, nem mesmo nos muitos dias em que desejei. Nem minha disforia”. Até que ela se viu diante de duas possibilidades: desistir da vida ou encontrar um novo caminho a seguir. “Por fim, escolhi o segundo caminho”.

Ela mudou para uma nova cidade com o objetivo de recomeçar, experimentar novas formas de apresentação e de acompanhamento com psiquiatras. “Foram necessários um milhão de pequenos passos de bebê para começar a me sentir confortável comigo mesma”.

O processo de comunicar às pessoas sobre as mudanças também foi outro passo desafiador, muitas vezes ocasionando um “balde de lágrimas” e “ataque de pânico”.

MERCADO DE TRABALHO E FUTEBOL

O medo de perder o emprego ou ser prejudicada profissionalmente faz parte de grande parte das pessoas trans, que ainda são alvo de muito preconceito. Ainda mais se tratando de um ambiente extremamente machista como o do esporte, cujos atletas LGBT ainda não conseguem falar abertamente sobre suas vidas sem que isso cause polêmica, enxurrada de comentários preconceituosos e até ameaças de demissão.

A jornalista conta que na vida particular a maioria das pessoas já sabia há certo tempo que é uma mulher trans, mas que na profissional ainda adotou uma identidade masculina até que se sentisse segura para verbalizar ao mundo. “Agora estou me declarando (trans) na minha vida pública, se você preferir chamar assim, ou talvez como jornalista”, afirmou.

Vale lembrar que, um dia antes de revelar que é mulher trans, dois funcionários trans denunciaram o Guardian, onde ela trabalha, de transfobia institucional. Tanto é que, em artigo publicado no site Pink News, houve quem atribuiu a revelação da jornalista como conveniente para a empresa. “O sentimento anti-trans na imprensa aumentou no Reino Unido desde que o governo abriu sua consulta pública sobre a reforma da Lei de Reconhecimento de Gênero no último verão”.

Segundo ela, dizer que é uma mulher trans no trabalho exigiu algo como “um salto de fé”. “O jornalismo esportivo nem sempre é um lugar acolhedor para pessoas que não são homens heterossexuais (cisgêneros). Não conheço escritoras trans em canais esportivos. E, embora ninguém precisa se sentir pressionado a falar sobre sua sexualidade, a menos que queira, é surpreendente que não haja nenhum jogador abertamente gay nas quatro principais divisões do futebol masculino na Inglaterra”.

Ela lembra que durante a Copa do Mundo, uma conta no Twitter “The Gay Footballer” alegou que era um jogador do campeonato que estava prestes a revelar que era gay. Contudo, após o término da partida, ele escreveu: “Pensei que era mas forte, eu estava errado”. “Não conheço o jogador em questão, nem posso contestar a sugestão de que pode ter sido uma farsa. Mas certamente posso simpatizar com qualquer figura pública que prefere trilhar um caminho que os impeça de se tornar um para-raios da diversidade – seja em críticas ou elogios”.

Dentre os momentos positivos, Nicky destaca a Copa do Mundo Feminina, em que diversas atletas falam abertamente sobre serem lésbicas ou bissexuais. “A Copa Feminina ofereceu um vislumbre de uma realidade alternativa. Talvez nos lembremos  nos próximos anos e vejamos esse torneio como um ponto de virada para as pessoas LGBTQ+ no futebol”.

SER TRANS É SÓ UMA CARACTERÍSTICA

No vídeo, Nick mostrou segurança de seu comunicado, mas fez questão de frisar que sua identidade de gênero não terá impacto na capacidade de analisar uma partida de futebol, nem com o compromisso com o trabalho que realiza. “O que preciso dizer é que nada mudou no meu trabalho. Continuarei cobrindo futebol italiano e europeu e um pouco de NFL, como já fazia antes. Então você vai continuar encontrando meu conteúdo nos canais”.

Ela afirma que, para quem a acompanha, talvez possa ser tudo um pouco confuso e que possa ter dificuldades para tratá-la pelo nome social e os pronomes. Contudo diz que “tudo bem se levar algum tempo” para as mudanças. “Seria hipócrita da minha parte esperar que outras pessoas digerissem instantaneamente informações que levaram inúmeras horas de terapia e experiência de vida”.

E frisou: “Tudo o que peço é respeito e bondade – para mim e para as pessoas trans no geral”.

Se Nicky fez história ao se revelar mulher trans num veículo esportivo, agora ela vai continuar fazendo história ao continuar trabalhando. Na nova temporada, ela continua fazendo resumos regulares da série A para o Guardian e divulgando seus trabalhos no Twitter. Todos os artigos estão assinados como Nicky e, o último, publicado no domingo (08), ela fala sobre racismo contra o jogador Romelu Lukaku em uma das partidas da série A.

“Os tempos mudaram, a tecnologia mudou e eu mudei. Mas contar histórias continua sendo minha grande paixão. Estou ansiosa para continuar compartilhando-as com você como Nicky”, finalizou.

Espaço para os artigos de Nicky no The Guardian

Categorias

Pop e Art, Pride

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