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“Não dá para errar”, diz Luh Maza, a 1ª mulher trans a roteirizar série de TV no Brasil

Por Camila Nishimoto
Foto: Rui Mendes

A 4ª temporada da série brasileira Sessão de Terapia estreou no último dia 30 na plataforma de streaming GloboPlay. Com direção e atuação de Selton Mello, a trama volta após 5 anos de hiato com mudança de tom e progresso, à frente e atrás das câmeras. 

A produção conta com o exímio trabalho de Luh Maza, mulher trans, negra, autora, dramaturga, diretora e roteirista. A estreia faz dela a primeira mulher trans a roteirizar uma série de TV no Brasil.

Inserida no mundo da dramaturgia desde os 12 anos, Luh, hoje com 32, começou como atriz. Mas trabalhar com a criação de personagens e de histórias foi o que a atraiu para os bastidores na função de roteirista e diretora.

Desde a adolescência, a escrita faz parte da vida da carioca, que hoje é autora de mais de 15 peças de teatro. Dentre elas estão “Carne Viva”, ”Três T3mpos”, “A Memória dos Meninos” e “Restos”, incluindo também a “Cabaret TransPeripatético”, que esteve nos palcos em 2018 e na qual Luh contribuiu com a dramaturgia.

Em 2019, Luh republicou sua peça “Carne Viva” na antologia Dramaturgia Negra, lançada pela Funarte, podendo assiná-la com seu nome após a transição, realizada em 2017.

Mesmo que sua carreira de direção e roteirização tenha crescido e se consolidado no teatro, Luh também faz parte do mundo literário, com textos publicados na coleção Primeiras Obras (Imprensa Oficial, 2009) – indicada ao Prêmio Jabuti de Literatura em 2010.

Autora de mais de 15 peças de teatro, Luh Maza é a primeira mulher trans a roteirizar uma série de TV brasileira (Foto: Rui Mendes)

Pessoas trans em todos os espaços

Em entrevista ao NLUCON, Luh falou sobre o que representa no País, hoje, ter a presença de pessoas trans em espaços variados, incluindo na produção de conteúdo e construção de narrativas. “Temos que ter pessoas trans em todos os espaços. Todos. Inclusive os de poder. Acredito que criar é um poder que deve ser utilizado para construir novos imaginários para o público”, aponta ela.

A presença em espaços de criação é uma forma de proporcionar real protagonismo e respeito a pessoas trans e suas narrativas, evitando a conhecida prática de apagamento trans – quando uma pessoa cis interpreta o papel de uma personagem trans. Ela ainda é a prática mais comum em produções audiovisuais em todo o mundo quando tratam da temática trans e travesti.

Mas o roteiro escrito por ela para a 4ª temporada de Sessão de Terapia conta a história de um casal negro, cisgênero e heterossexual. A possibilidade de trazer essa história às telas é um reforçador da importância de pessoas trans ocuparem espaços criativos não apenas para contar histórias relacionadas à transexualidade. “Acho muito bom poder escrever também sobre outros temas porque o fato de ser uma roteirista trans me faz levar aos trabalhos um ponto de vista novo, mesmo para temas já conhecidos”, explica Luh.

Confira abaixo um teaser do personagem Nando, escrito por ela e vivido pelo ator David Junior.

Por dedicar seu tempo à pesquisa de temas ligados a gênero e raça, a roteirista também considera a discussão dessas temáticas uma parte importante da sua trajetória criativa. “Adoro falar de trans porque o tema gênero me interessa amplamente, bem como o tema racial”, pondera ela.

O outro lado do pioneirismo

Mesmo presente no mundo da dramaturgia desde antes de sua transição, Luh não deixa de enxergar o percalço em ser uma mulher trans e negra e ocupar um espaço de criação em uma das maiores produtoras de audiovisual do País. Especialmente considerando que o Brasil é o lugar onde mais se mata a população trans em todo o mundo e no qual 75,5% das vítimas de homicídio no País são negras, segundo o Atlas da Violência 2019.

“É sempre um desafio quando qualquer pessoa trans chega a um ambiente novo. É preciso lidar com a solidão e ter paciência e didática e, assim, ir desconstruindo preconceitos e educando sobre as peculiaridades que desconhecem”, explica Luh.  

Poder desenvolver projetos com pessoas que a recebem de maneira positiva é, segundo ela, o que tem feito a grande diferença nesse processo. “Felizmente tenho desenvolvido projetos com produtoras e players que têm uma relação muito positiva com minha inclusão e respeito com minha representatividade”, pondera a roteirista. 

Não ter margem para erro e conseguir manter-se construindo em conjunto as demandas com as comunidades que representa são as grandes preocupações de Luh. “Não dá para errar. Estou ocupando pela primeira vez essa posição enquanto ainda lidamos com a realidade do Brasil ser um país genocida com as populações trans e negra”, explica a autora. 

Luh explica que, fora dos sets, a transfobia ainda tem peso indiscutível e letal: “Sempre digo que fora da TV, do teatro, atravessando a rua, eu não sou uma roteirista, uma atriz. Sou vista apenas por minha identidade de travesti negra e serei tratada como tal. Posso ser morta somente por ser”.

Celebrar e lutar 

A vigília e o estado de alerta, para Luh, são as duas principais ferramentas para manter abertas as portas já atravessadas por ela e outras pessoas trans nos últimos anos. “É preciso estar atenta porque, às vezes, esquecemos que direitos foram conquistados com luta e tempo e que estão sob ameaça de nos serem arrancados em meio ao retrocesso real que estamos vivendo”, explica a roteirista e diretora.

“Nós que conseguimos atravessar essas portas da visibilidade temos que atuar em vigília, cobrar posição dos governos, das instituições e da sociedade”, continua. Articular formas de aumentar ainda mais esse acesso, para a ela, é fundamental. “Pensarmos juntos em meios de fortalecer a atuação nesse contexto e em como ampliar o funil do acesso para nossos pares chegarem até aqui com menos dificuldade do que nós”, enumera Luh.

Comemorar a conquista de novos e diferentes espaços sendo ocupados por pessoas trans é essencial para a garantia de direitos, dignidade e cidadania da população T, mas a batalha continua. “Fico muito feliz com todas as conquistas, mas não dá para somente celebrar. Temos muito trabalho a fazer ainda e às vezes a exaustão me alcança, mas respiro fundo, me apoio em meus amigos e parceiros e sigo na luta”, finaliza ela.

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Pop e Art, Pride

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Camila Nishimoto Ver tudo

Jornalista, feminista e está sempre querendo abraçar o mundo. Twitter: @CamilaNishimoto

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