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“Ideologia de gênero” é a nova fake news para atacar LGBT e manter políticos no poder

Por NLUCON

O presidente Jair Bolsonaro (PSL), o governador de São Paulo João Dória (PSDB) e o prefeito do Rio de Janeiro, Marcello Crivella (PRB) já elegeram e incluíram em suas agendas um inimigo imaginário para amendrontar a população: a ideologia de gênero. É por meio dela que eles e muitos outros políticos fingem que se preocupam com a família, com as crianças, com a educação, criam uma cortina de fumaça para abafar outros casos e se posicionar contra os direitos da população LGBT.

No início deste mês, Bolsonaro determinou que o Ministério da Educação (MEC) elabore um projeto de lei contra a “ideologia de gênero” no ensino fundamental, “visando princípio da proteção integral da criança”. Durante a Marcha para Jesus – pela família e para o Brasil, em Brasília, ele chegou a relacionar a expressão a algo demoníaco, criticando a esquerda e dizendo que a “ideologia de gênero” é do capeta.

Já Dória usou tempo e verba pública para recolher livros do 8º ano de São Paulo porque, segundo ele, incentivavam a suposta “ideologia de gênero”. Tudo porque havia um conteúdo no livro de Ciências, elaborado pelo próprio Estado, que falava sobre diversidade e explicava termos como “homossexual” e “transgênero”. “Fomos alertados de um erro inaceitável no material escolar. Não concordamos e nem aceitamos apologia à ideologia de gênero”, declarou. Mas foi obrigado a redistribuir tudo pelo TJ-SP.

Em 2017, membros da Escola Sem Partido acusavam professores de ensinar cartilhas de política de esquerda e “encorajavam alunos a entrar em contato com sua natureza homossexual”. Eles tentaram evitar que as escolas pudessem ter projetos que combatessem o preconceito ou que mencionassem palavras como “orientação sexual” ou “identidade de gênero”.

Porém, vale reforçar que a tal da “ideologia de gênero” não existe nos discursos de militância da população LGBT, nos projetos de pedagogos e tampouco se faz presente nas escolas. Ela não existe. Assim como nunca existiu um kit gay, que visava ensinar crianças a serem gays. Assim como nunca existiu a mamadeira de piroca para crianças aprederem sexo oral. Assim como não há projeto para Pabllo Vitar apresentar a TV Globinho ou se tornar o rosto da nota de 50 reais. Assim como Jean Wyllys não teve nenhum projeto que visava tirar páginas da Bíblia, fazer cirurgia genital em criança, nem obrigar padres a casar LGBT.

Tudo men-ti-ra.

Contra “ideologia de gênero”, manifestante defende que só meninas podem brincar de boneca e que só meninos podem brincar de trenzinho

O PRECONCEITO COMO ESTRATÉGIA

Mas por qual motivo estão falando sobre ideologia de gênero? Uma das respostas é que identificaram que a população é altamente e historicamente preconceituosa, sobretudo contra a população LGBT. Disseminaram ao longo das décadas que ser LGBT é errado, é pecado, é doença, é sem-vergonhice, é forçado, prática ou característica de seres de terceira classe ou tudo isso de uma vez só. Então eles utilizam desse preconceito social para criar a sensação de causa comum, afinal é muito mais fácil reunir as pessoas pelo ódio do que pelo amor.

Em todos os governos totalitários, que estabeleceram o nazismo e a ditadura, por exemplo, LGBT foram perseguidos.

Quando acrescentam a ideia de que crianças e as famílias estão ameaçadas por pessoas LGBT – essas pessoas pecaminosas, doentes, sem-vergonha, abusadoras (…), que agora estão com estratégia de transformar todo mundo LGBT – cria-se um pânico e a busca desenfreada por proteção.

O embate contra os direitos LGBT ocorre na medida em que há mudanças pontuais na luta LGBT e, no caso, das pessoa trans. Como, por exemplo, o reconhecimento da identidade de gênero e a autorização do Supremo Tribunal Federal em 2018 para retificar a documentação pela via administrativa, sem necessidade de processo judicial. A criminalização da LGBTfobia como crime de racismo neste ano. Avanços para se fazer valer o respeito à dignidade da pessoa humana, mas que tais políticos conservadores encaram como ameaça àqueles que sempre tiveram o direito de ser preconceituosos.

Com o medo criado, as pessoas acreditam em qualquer coisa – em qualquer coisa MESMO – principalmente que tais políticos estão enfrentando esse monstro de uma “ideologia de gênero” para preservar as famílias. Quais famílias? Um monstro invisível, dado que a violência ocorre justamente na contramão – são as pessoas hétero cisgêneras que agridem pessoas LGBT, e não o contrário – mas que para elas merece a confiança, o voto e apoio. Funcionou nessas últimas eleições presidenciais com a mentira do “kit gay”. E ainda continuam testando, vide a tentativa de censura ao beijo gay na HQ do Rio e a mobilização do prefeito religioso Marcelo Crivella.

Muita gente acreditou (e ainda acredita) na fake news da mamadeira de piroca como estratégia da esquerda e LGBT

DE ONDE SURGIU O NOME IDEOLOGIA DE GÊNERO?

Diferente do que se pode esperar, a expressão não surgiu dentro de grupos de esquerda, da militância LGBT ou da luta feminista. Ela surgiu na década de 90 dentro do Conselho Pontifício para Família, na ala conservadora da Igreja católica. Eles queriam barrar e combater as reflexões e estudos existentes sobre gênero, proposta pelo movimento feminista, informa a UnB. Grupos neofundamentalistas católicos achavam que dissolver algumas naturalizações sobre as diferenças entre homens e mulheres demarcadas socialmente pelo gênero, bem como a submissão, prejudicava a família cristã.

Atualmente, ela é usada por políticos conservadores e fundamentalistas religiosos – mas nunca pela militância LGBT, vale lembrar – para combater sobretudo os direitos da população trans e travesti em serem reconhecidas em sua identidade de gênero.

Acreditam e propagam que, ao aceitar, legitimar ou falar abertamente sobre a existência de pessoas trans, há uma tentativa de “transformar” todos os homens em mulheres ou fazer mulheres “virarem” homens, inclusive sendo incentivado entre crianças e adolescentes, para assim por fim às naturezas biológicas, ameaçar crianças e por fim à família. Ou seja, ideologia de gênero é um emaranhado de apropriações, preconceitos e deturpações sobre conceito de gênero e a luta LGBT, sobretudo trans.

O QUE FALAM NA VERDADE OS ESTUDOS SOBRE GÊNERO?

Dentre pesquisas, estudos e reflexões, o movimento feminista constatou desde os anos 70 que há uma naturalização do ser mulher e uma confusão entre o que é biologia e os comportamentos ensinados socialmente e costumes sociais. Ou seja, a sociedade dizia que para ser mulher é preciso seguir uma cartilha social – como ser educada, submissa, não poder trabalhar – como se isso tudo estivesse no DNA ou na digital de cada uma delas. A priori, só por terem nascido com vaginas e serem mulheres.

Há 50 anos (!!!) houve então o entendimento e surgimento do conceito de gênero e de sexo biológico, que são diferentes por fundamento. Sexo biológico refere-se ao genital de nascimento, pênis ou vagina ou intersexo. Já o gênero refere-se às características e símbolos construídos socialmente, de maneira diferente em cada grupo social, para dizer como se comporta, vive, veste, pensa e se relacionam de maneira diferente os homens e as mulheres.

Explico melhor: Durante muito tempo consideraram que homens cis eram superiores às mulheres cis somente por suas características biológicas (ter um pênis). Ou seja, diziam que homens eram, para além da força física, naturalmente mais inteligentes, ageis, éticos, corajosos, capazes que as mulheres apenas por eles serem homens. Estudos sobre gênero contestam essas atribuições, apontam as desigualdades e demonstram que vários desses arquétipos não são características biológicas, mas construções sociais, sobretudo preza pelo respeito e pela igualdade entre os gêneros.

Ou seja, um homem não é fisicamente incapaz de varrer uma casa, fazer comida, lavar a louça, limpar o coco de um bebê, cuidar dos filhos, chorar em um filme, ser afetuoso, e todas as demais características atribuídas como naturais socialmente a ser de uma mulher. Da mesma forma, mulher não é fisicamente incapaz de trabalhar fora, sustentar sua família, trabalhar comoE engenheira, médica, ser corajosa, defender a família, ganhar salário digno, características socialmente atribuídas aos homens.

Outras reflexões neste sentindo são: o que tem de biológico considerar azul de menino e rosa de menina? O que tem de biológico considerar cabelos longos coisas de mulher e cabelo curto de homem? Dizer que mulheres são mais medrosas e homens são mais corajosos? Que homem não pode chorar? Que mulheres são quietas e doces? Que só mulher deve pintar a unha ou usar batom? Que só homem serve para a área de exatas? Que lugar de mulher é na cozinha? Que só menino pode brincar de carrinho e meninas só de boneca? Que um garoto pode bater numa garota se ela “merecer”? Percebe que tudo isso vale pelo contexto social (gênero) e não por uma característica biológica (genital)?

Vale dizer, meninas cisgêneras continuam sendo meninas se brincarem de carrinho ou tiverem uma roupa azul. O mesmo vale para os meninos cisgêneros: eles continuarão a ser meninos caso brinquem de boneca ou vistam uma camisa rosa. Ninguém vai se transformar em nada, ok? No caso das pessoas trans, pois elas existem, inclusive na infância e adolescência, elas terão menos violações e violências na infância e adolescência caso essas amarras de gênero não forem tão impostas e injustas.

O mundo monocromático que ocorre atualmente:

E AS PESSOAS TRANS?

“Ninguém nasce mulher, torna-se”. A frase de Beauvoir, que a priori simbolizou a construção do ser mulher cis (dentro das características que mencionamos acima) também passou a inspirar e parafresear o ser das mulheres trans. Pessoas trans também aprendem a se “comportarem como homens e mulheres” dentro de um desconfortável e violento cistema cisnormativo. As roupas, cores e expectativas monocromáticas são experiências muitas vezes insuportáveis no decorrer da vida.

Uma mulher trans é uma pessoa que foi designada homem ao nascer, mas que com o tempo se identificou com o gênero feminino (também baseado nestas construções sociais ao longo da vida, umas mais cedo outras mais tarde) e se tornou mulher. Tudo o que ela viu, experimentou e se identificou, dentro do vasto campo chamado gênero, foi contribuindo para construir a pessoa que ela é. E essa construção não se deu sem muitas lágrimas, sangue e violências, inclusive dentro da escola e por suas famílias.

Hoje, a luta do movimento trans não está em incentivar e muito menos forçar a transgeneridade em nenhuma pessoa ou criança, mas reivindicar respeito, dignidade e acolhimento para aquelas pessoas que realmente são trans. É o respeito para que a pessoa trans seja acolhida no seio familiar, e não agredida e expulsa de casa. É o respeito para que ela seja chamada pelo nome e pelo gênero pelos quais se reconhece. É o respeito para que possa usar os espaços divididos por gênero, sem constrangimento e violência. É o respeito de poder trabalhar sem sofrer preconceito.

É o respeito à vida, pois o Brasil é o país em que mais matam pessoas trans, em números totais (segundo a Transgender Europe). É o respeito por todas as famílias, incluindo aquelas que tem pessoas LGBT. É a necessidade para que haja ações de combate a LGBTfobia para que o preconceito seja uma prática realmente vista como errada. Daí que surgem os materiais de combate ao preconceito nas escolas. Não para tornar ninguém LGBT, mas para que as pessoas saibam desde cedo que é errado discriminar.

POR QUE FALAR SOBRE GÊNERO INCOMODA?

Como dissemos, falar sobre gênero tem como objetivo dissolver as desigualdades entre homens em mulheres – que se espalham pela sociedade em diversos campos. Desde relacionamentos abusivos, em que homens agridem suas esposas por considerá-las suas posses. Desde a vida profissional, em que mulheres ganham menos que o homem exercendo a mesma função. Desde a violência sexual, em que homens se julgam no direito de abusar e violar mulheres. Desde as violências fatais chamadas atualmente de feminicídio em que homens matam as mulheres simplesmente por ser mulheres. Desde o fim de discriminações, como as voltadas para a população LGBT.

A resistência de se discutir essas questões é porque se trata de, primeiro, reconhecer desumanidades atuais e muitas vezes próprias. Depois, porque se trata de uma narrativa de poder. E quem está por cima, detém privilégios e poder, não quer abrir mão deles. Não tão facilmente, pelo menos.

Demoraram muito tempo para entender que o racismo e a escravidão são desumanidades inaceitáveis, praticadas antigamente como se fosse um sistema natural, comum e possível, porque era beneféfico para os que detinham o poder. Inclusive se apoiavam nas diferenças biológicas, grifado pela ciência da época, para brancos se considerarem superiores e terem o aval de perseguir, violar e abusar. Mas ainda assim, nos tempos de hoje não tivemos uma discussão e reflexão tão profunda no país sobre o assunto.

O mesmo vale para querer barrar e proibir discutir sobre gênero.

O ÓDIO E A MENTIRA SEMPRE VENCEM?

Daqui muitos e muitos anos, esse outros momentos históricos de perseguição às pessoas trans, travestis e LGB serão vistos como um dos maiores retrocessos históricos da humanidade – assim como vemos como o holocausto e a escravidão. Por enquanto, existe a necessidade urgente de fazer resistência, romper com o preconceito e a fake news, com a prática de resistir por meio da informação, do discurso, de ocupar espaços de poder e de fazer parcerias.

Mas nem tudo são perdas. Em 2017, a ONU se posicionou contra o grupo Escola Sem Partido, que queria proibir a discussão sobre orientação sexual e identidade de gênero nas escolas. No Rio de Janeiro, o Supremo Tribunal Federal determinou que as histórias em quadrinhos com beijo gay não poderiam ser censuradas há duas semanas. Em São Paulo, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que as apostilas que abordavam definições sobre orientação sexual e identidade de gênero não poderão ser censuradas e que devem ser devolvidas às escolas com novas orientaçõs aos professores de como aplicar o conteúdo.

Já o presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), Ivan Siqueira, fez crítica à frase de Bolsonaro de que deve-se proibir a discussão sobre gênero nas escolas. “É preciso verificar se esse projeto do MEC não usurpará direitos. Acho que talvez seja uma questão de retórica, não é tão simples assim (proibir o tema). É preciso analisar com base nos marcos legais que existem e eles vão no sentido de uma educação global, que contempla os aspectos da contemporaneidade”, afirmou ele em entrevista ao jornal O Globo. “Não há nenhuma lei que diga que esse tema não pode ser abordardo. Nem na Constituição e nem nas diretrizes curriculares da etapa”, acrescenta.

Enquanto há esse emaranhado de retrocessos e conquistas pontuais, os fundamentalistas continuam fazendo um coro e levando a expressão “ideologia de gênero” aos quatro ventos, sendo até mesmo repercutida pela mídia hegemônica. Aos poucos eles fazem um novo alarde, transformando o que pregam num mal que precisa ser evitado a qualquer custo, não importa as suas incapacidades enquanto políticos, mantendo-se no poder nas novas e futuras eleições.

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Direito, Realidade

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