Ir para conteúdo

Erick Witzel revela como transformou vergonha de ser trans em orgulho

Por Neto Lucon

O cozinheiro carioca Erick Witzel, 24 anos, teve sua vida virada de cabeça baixo em 2018. Até o meio do ano, ele trabalhava em um restaurante, tinha uma rotina comum, discreta e vivia em stealth (quando a pessoa trans não fala que é trans). Foi o pai dele, Wilson Witzel (PSC), então candidato a governador do Rio de Janeiro, que o catapultou para fora do armário em uma entrevista.

Erick esteve em manchetes de diversos jornais do país.

“Na verdade eu fui chutado para fora do armário”, diz ele em bate-papo exclusivo ao NLUCON. “Era um assunto velado entre muitas pessoas que eu conhecia, inclusive no meu ambiente de trabalho. Ninguém sabia que eu era trans. Eu vivia uma vida dupla e era uma coisa totalmente louca”, continua.

Erick afirma que viveu muitos anos sem contar para as pessoas que é trans porque foi induzido pela sociedade a acreditar que ser LGBT era uma vergonha. “Infelizmente houve um período a ‘a outra face da lua’ para mim. Foi um momento no começo da transição, que eu não aguentei muita coisa, como lidar com pessoas que eu já conhecia. Naquela época eu ficava pensando no que os outros iriam pensar sobre eu ser trans”, lembra.

Ele chegou a mudar de bairro, mudou de emprego e quis que tudo simbolizasse uma nova vida, com novas pessoas, apagando o passado. “Se pudesse eu teria mudado de país, de planeta, como se fosse nascer de novo, como se fosse possível”, diz. Durante muito tempo, ele tinha novas versões para explicar o nome feminino do RG – “dizia que meus pais eram russos” – e se esforçava para lembrar dos relatos que fazia sobre infância e adolescência.

“Eu ficava inventando histórias e não sabia o quanto isso era desgastante na minha vida. Tudo que eu dizia coloava, por incrível que pareça. Ou não colava, mas as pessoas colaboravam”, diz.

De um dia para o outro, o seu nome foi lançado ao Brasil. O seu havia dito em uma rádio que tinha um filho trans e toda sua história, até então escondida, estava exposta. Foi um desespero total. “Uma pessoa me ligou e falou: ‘olha, você foi ‘desmascarado’ na rádio’. Comecei a entrar e pânico e começou todo aquele drama com ele. Aí falei para que ele não me citasse mais. Houve respeito, ele não me citou mais. Mas o problema foi que os repórteres começaram a procurar saber da minha vida”, diz.

Para piorar, Erick e o pai estavam em lados opostos na questão política e de olhar sobre o mundo. Na pessoal, o pai é separado de sua mãe desde a infância e o contato de ambos era restrito. Erick revela que o pai não se opôs quando ele contou que é trans, mas também não quis acompanhar os processos.

Glossário:

pessoa trans: é aquela que foi designada com um gênero ao nascer, mas que se reconhece com outro gênero. Por ex: homem trans é a pessoa que foi designada mulher ao nascer, mas que se identifica com o gênero masculino e é um homem.

stealth: nome em inglês atribuído às pessoas trans que não falam que são pessoas trans e que não são reconhecidas como pessoas trans. O termo é inspirado nos aviões invisíveis da Primeira Guerra Mundial.

A MÍDIA

Após ter sido “chutado para fora do armário”, expressão que ele mesmo utiliza, Erick ficou apavorado e passou dias trancafiado dentro de casa. “Ficava pensando em como eu olharia para a cara das pessoas”, diz. A imprensa não conseguia saber muito sobre ele, mas passou a ligar para o trabalho de Erick, divulgando informações sobre o espaço e até o turno em que ele trabalhava. Foi quando recebeu uma ligação do trabalho se queria tirar 20 dias de licença para saber lidar com todas as situações. Ele aceitou.

Após o primeiro turno, Erick desabafou nas redes, criticando o resultado das eleições, que havia elegido Jair Bolsonaro (PSL) como presidente e o seu pai como governador do Rio de Janeiro. Tudo foi feito em um perfil no Instagram, fechado, com cerca de 200 pessoas, apenas seguido por familiares e amigos. O jornal carioca Extra teve acesso ao post e divulgou o comentário. Posteriormente, a imprensa aproveitou as divergências ideológicas entre pai e filho para tratar tudo aos olhos do público.

“Não sei como pegaram o meu desabafo. Mas o que quis dizer é que a gente tem que entender que no Rio é uma bancada conservadora total, porque seria o país, o município e o Estado com frentes conservadoras e religiosas. O meu Instagram começou a encher de gente e eu resolvi abrir. Quis saber o que estava acontecendo e como ia repercutir”. Hoje, ele tem mais de 10 mil seguidores.

Diante da exposição de quem é, Erick encontrou motivação e coragem para falar sobre o que acreditava. Enquanto ele discursava a favor dos direitos humanos, da população LGBT e por justiça a Marielle Franco, deputada estadual que foi assassinada em 2018, o novo governador do Rio de Janeiro apostava no discurso conservador, de que a “a polícia vai mirar na cabecinha e… Fogo” em quem estiver portando fuzil e participou de um ato em que uma placa com o nome de Marielle Franco foi destruída. Posteriormente, Wilson Witzel pediu desculpas aos familiares da deputada.

O retorno que recebeu de grande parte das pessoas foi bastante positivo e acolhedor, principalmente daquelas que já conhecia. Ele também passou a receber muitas mensagens da comunidade LGBT e apoiadores, por se pronunciar frente ao conservadorismo que havia sido eleito no país. Por outro lado, Erick foi alvo de muitas críticas, ofensas e discursos de ódio.  No UOL, ele revelou que seguidores do pai queriam vê-lo morto.

Erick prefere não entrar em detalhes sobre os “anônimos do ódio” e diz que atualmente vê a situação com outros olhos. “Nunca vislumbrei de ter exposição na mídia. Eu não tinha maturidade para lidar com isso e essas eleições foi um momento de ebulição. Talvez eu pudesse lidar com as coisas de uma maneira diferente. Não teria ido ao público. Muita gente que não entende a questão trans foi saber sobre ela naquele contexto. Então o que eu recebi dos opositores foi: ‘Você não quer o bem do estado?’, ‘Tinha que ser esse povo’, ‘Tinha que ser travesti’. Coisas que não tinham nada a ver. Mas não dá para voltar atrás, né?”.

VEGANO E MUDANÇAS

Outra mudança significativa foi a vida profissional. Formado em Gastronomia e trabalhando por cinco anos em um restaurante, Erick deixou o emprego estável. Ele afirma que não acredita mais na gastronomia tradicional, mas que continuará levando outras pautas, bem como boa alimentação, veganismo e acesso a alimentação, além de dar cursos e prestar consultoria.

“Dados da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), ligado às Nações Unidas, diz que a gente produz alimento suficiente, mas que não chega às pessoas. Então tem gente morrendo de fome e alimento sendo jogado fora. Essa pauta eu nunca vou abandonar”, afirma.

Crédito: Cauê Monteiro @cauemonteiro90

Adepto do veganismo, ele diz que não é simples não utilizar nada de origem animal na sociedade atual. “Veganismo não é acessível para todo mundo e a gente tem que encarar isso. A gente precisa de um industrializado, pois muita gente não tem condição e tempo de preparar a marmita para a semana inteira. E se você está no centro da cidade, no corre-corre do dia a dia, não é fácil achar uma padaria, um salgado, alguma coisa na hora que tenha alguma coisa vegana, sem queijo”.

Segundo o cozinheiro, é preciso popularizar mais o veganismo e ter maior distribuição. “As pessoas precisam de orientação, porque por mais que ela busque muito, há bairros – e estou falando do Rio de Janeiro – em que as pessoas não tem acesso a tudo o que eu tenho no meu bairro. E ele não é dos melhores, mas tem alguma coisinha veganha”, diz.  No dia da nossa entrevista, ofereceri um bolo que continha leite. Erick provou sem saber e, muito educado, não reclamou.

Após esta entrevista, ele se tornou assessor da Coordenadoria da Diversidade Sexual da prefeitura do Rio, cargo para qual foi nomeado em agosto e está cursando Direito.

FORA DO ARMÁRIO

Ao ser referido como homem trans, Erick corrige e diz que se define como uma PESSOA TRANS. A referência para a identificação e o destaque para ser “trans” partiu do psicólogo e escritor João W. Nery (1950-2018), autor do livro “Viagem Solitária” e considerado um dos primeiros homens trans a passar por cirurgia no Brasil. Durante muitos anos, João se definiu como transhomem, com “trans” antes de “homem”, diferente da definição do movimento nacional.

Para Erick, transpassar as questões de gênero é mais importante que se definir homem. “Eu posso tirar a barba amanhã, vestir outras roupas, expressar o meu gênero de maneira diferente e vou continuar sendo trans, só que não serei lido como homem”, explica. Ele pondera dizendo que cada pessoa tem o direito de se identificar como quiser e que não há problemas em se considerar um clássico homem com H maiúsculo.

Aliás, embora estivesse em stealth, Erick conta que sempre pesquisou bastante o tema LGBT, sempre em fóruns nos Estados Unidos e no Tumblr. “Sempre fui muito questionador e pesquisava por conta própria: ‘Por que era GLS e hoje é LGBT?’ e participava ativamente das perguntas do Tumblr. Eu via a Parada LGBT de Nova York, o povo das comunidades fazendo, a galera junta, as pessoas trans se apoiando. Eu dizia: eu queria muito participar dessas coisas, mas antes era inimaginável, pois passava tanto tempo me escondendo que não tinha forças para sair”.

É por esse motivo – por ter conseguido dizer para as pessoas ao redor que é pessoa trans e se engajar no ativismo – que ele afirma que toda a experiência teve o seu lado positivo. “Esse chute do armário foi positivo de alguma maneira. Todas as situações têm muitas facetas. Houve as negativas, mas essa questão específica foi uma positiva. Foi muito bom para mim. De verdade. Me deu liberdade. Me trouxe pessoas. Nós estamos aqui conversando. Participei da Marcha Trans, que melhor que muitos eventos da minha vida. Me trouxe essa benéfice”.

E hoje você sente orgulho de ser quem você é? “Eu tenho muito orgulho de ser uma pessoa trans, de quem eu sou. Natural. Sem máscaras. Sem ter que fingir, sem ter que ficar o tempo todo pensando. É simplesmente ser quem eu sou. É esse o grande orgulho. Orgulho pelas lutas que a gente passou. Entendo que nós somos pessoas como outras quaisquer com características especiais”, finalizou.

Obs: Vale lembrar que, apesar de Erick conseguir tirar um lado positivo da exposição, ninguém tem o direito de tirar outra pessoa do armário. Dizer que é ou não LGBT é algo absolutamente particular, envolve contextos e possíveis violações. Portanto somente a própria pessoa LGBT tem o direito de fazer ou escolher o momento mais adequado para isso, ok?

Assista o bate-papo em vídeo:

Um comentário em “Erick Witzel revela como transformou vergonha de ser trans em orgulho Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: