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Erick Witzel fala sobre reaproximação do pai e os desafios na política pró LGBTI

Por NLUCON

As últimas eleições e a polarização que se deu em todo o Brasil fizeram muita gente ter laços de afeto rompidos ou estremecidos. Com a poeira da comemoração, lamento ou revolta abaixadas, há quem ainda hoje tenta administrar tais relações, sobretudo quando se trata de famílias e amigos, e principalmente quando convivem sob o mesmo teto e o diálogo se faz inevitável.

O cozinheiro Erick Witzel e o pai, o governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, tiveram esse momento de divergência política e “lavação de roupa suja” em plena eleição à luz da imprensa hegemônica. De um lado estava Erick, pessoa trans com ideias progressistas e em prol dos direitos humanos. De outro estava o Wilson, homem cis com política conservadora, de tiros e contra a ideologia de gênero (que não existe).

Foi Wilson que expôs a transgeneridade do filho ao público, chutando-o para fora do armário (confira aqui) em entrevista à radio. Erick, por sua vez, usou a imprensa para dizer que faria oposição ao pai, que lutaria contra as políticas LGBTfobicas.

Após vários meses sem se falar, eles voltaram a ter contato. Foi em junho, durante de um aniversário de um dos irmãos de Erick, pouco antes desta entrevista realizada naquele mês. Em texto publicado na Veja, em julho, Erick escreveu que sempre teve uma relação tranquila com o pai e lembra do tempo em que ele levava para jogar tênis e cantava para dormir. Após a separação dos pais, houve certa distância, mas quando passou a realizar a hormonioterapia houve a indagação se ele era uma pessoa trans e o respeito.

A entrevista abaixo foi realizada antes de Erick aceitar ser assessor da Coordenadoria da Diversidade Sexual da prefeitura do Rio, cargo para qual foi nomeado em agosto, e cursar Direito. Contudo ela ajuda a entender um pouco a reaproximação e o que pretende o cozinheiro ao entrar na política. Lembrando que você pode assistir a entrevista na íntegra em vídeo ou em texto:

– Erick, gostaria que você falasse um pouco sobre a sua mãe, já que sempre mencionam o seu pai nas matérias:

O nome dela é Sônia e ela esteve na primeira turma de mulheres das Forças Armadas do Brasil. É uma pessoa fantástica, com posicionamentos fortes, mas que consegue se adaptar com o tempo. Ela não é totalmente progressista, mas é totalmente diferente. Por exemplo: por ser uma mulher militar, aposentada, que passou por tudo, que fez e aconteceu, que é super empoderada, quando você perguntava se ela era feminista, e ela dizia: “Deus me livre”. Mas hoje ela já mudou e foi se adaptando. Eu ouvia dela no passado que ter um filho gay e lésbica não havia problema, mas que ransexual ela teria resistência. Mas a partir do momento em que conversamos (sobre eu ser trans), debater o assunto, ela foi aberta a ouvir. Ela quis saber, participar, enquanto médica quis saber sobre a cirurgia. Ela esteve do meu lado. Mesmo que não apoiasse a escolha de iniciar o tratamento hormonal naquele momento, ela esteve do meu lado. Mãe, eu te amo!

– Já questionaram porque preferiu colocar ou manter o sobrenome do seu pai nas redes sociais, mesmo com toda aquela briga, e não o da sua mãe?

Eu sempre usei esse sobrenome. Eu estudei em colégio militar e esse sempre foi o meu nome de guerra, aquele da plaquinha. Witzel. Quem tem um nome diferente, geralmente é reconhecido pelo nome diferente. Na escola eu era conhecido assim. Mas durante as eleições, algumas pessoas começaram a me questionar: “(já que brigou) então você troca”. Mas é o MEU NOME, faz parte da minha vida, eu gosto desse nome, eu hein? Vou deixar lá.  Se a pessoa associa a outro, problema dela. Quando você assina Fulano de Tal, o Tal é você também.

Erick foi com a bandeira LGBT na Bienal do Livro do Rio

– Li no jornal O Globo que você está retomando contato com o seu pai. Como foi?

Eu não dei entrevista (para eles). Foi uma matéria retirada de um post no Instagram, onde senti a necessidade de explicar como está agora. Na mídia é assim: acontece uma coisa hoje e as pessoas param no tempo, achando que ficou naquilo ali. A situação que ficou mal resolvida desde o ano passado já tem seis meses e a minha vida foi andando. Fui caminhando, refletindo, pude ter esse tempo.

– Onde vocês tiveram o contato?

O meu irmão, filho do meu pai, fez aniversário. Ele me convidou para que fosse no aniversário dele. Eu adoro as crianças, eles são meus irmãos e ninguém tem nada com isso. Fui lá e encontrei ele (o pai) também. Pude colocar em pratos limpos a situação. Quem falou o quê? Como é que é?

– E conseguiram se acertar?

Acho que ficou ok. Às vezes não é o ideal e a pessoa não vai concordar com você. Mas quantas pessoas desse nosso “Brasilzão de Meu Deus” estão nessa situação, de pessoas Bolsonaristas, de pessoas mais da esquerda, de pessoas que não concordam com aquela política e estão nesse pé de guerra? Pessoas que vivem na mesma casa e em uma situação insuportável. Acho que precisa dar uma despressurizada, uma relaxada. Eu não aconselho ninguém a ficar numa situação perigosa. Não vai colocar a sua vida em risco por “laços de sangue”. Mas se a gente puder se entender um pouco melhor, ok, façamos. Eu falei que gostaria de continuar em contato, além da questão particular de pai e filho, e de poder ter essa abertura para falar sobre esse mérito (a população LGBT). Ele se mostrou aberto e eu fiquei surpreso. Daqui pra frente se vai se concretizar, só o Dr. Estranho sabe.

– Você vai continuar fazendo oposição?

Eu continuo não concordando com a política dele. Muito pontualmente uma coisa ou outra, mas não concordo com aquele sistema de governo. Mas acho que ficar do lado de cá, só tacando pedra não é tão eficaz quanto chegar um pouco mais de perto e falar: “olha, dá para fazer um pouco diferente” ou “olha, tem uma galera que está precisando de uma atenção especial” ou “olha, as pessoas trans estão precisando de uma demanda para políticas públicas”. Se eu tenho abertura para falar com uma pessoa, que é o governador do Estado, por que eu não vou falar? Quem poderia fazer isso? Quando nós tivemos uma oportunidade dessa tão de perto? Isso eu pude enxergar. Poxa, é uma oportunidade de ouro de estar ali. Se vai funcionar ou não, a gente vai ter que acompanhar. Tem mais três anos e meio.

– O que você não concorda?

Analisando friamente todas as questões, eu não posso analisar um governo só no que me interessa. Na parte econômica, eu tenho que entender as minhas limitações e não posso sair falando qualquer coisa porque eu não entendo de tudo. Reconheço no governo dele coisas que estão funcionando até agora, que eu não vou entrar no mérito aqui porque é denso, mas tem coisas que não dá. A questão da violência, a questão armamentista, o combate a ideologia de gênero, como foi assinado por ele no compromisso com o Dom Orani Tempesta, sobre aborto… A gente precisa de uma política diferente sobre as drogas, que não é metendo bala em todo mundo. A questão  da educação sexual nas escolas que nada mais é que ensinar ser cidadãos mais conscientes de si e pessoas mais felizes dentro de um ambiente escolar.

O governador Wilson Witzel e os filhos, dentre eles, Erick

– O que poderia falar para quem acredita que há uma “ideologia de gênero”, sendo que muitos políticos conservadores falam sobre ela para atacar os direitos das pessoas LGBT, sobretudo trans?

As pessoas precisam se informar melhor. A ideologia de gênero virou um fantasma que na cabeça dessas pessoas a gente vai fazer as crianças e todo mundo virar travesti. Que vai passar um vídeo de como se montar… Eu estava vendo a questão do kit gay, criada pelo núcleo conservador há alguns anos e como ela se tornou uma vontade de combater na verdade uma mentira. Porque eu fui lá, baixei e vi que não tinha nada de mais com o material contra o preconceito nas escolas. O Bolsonaro, em 2011, imprimiu 50 mil panfletos, que você vê: “Querem fazer o seu filho virar viado”, “Querem fazer…”. Mas querem quem? As pessoas têm que entender que kit gay e ideologia de gênero não existem. São coisas criadas pela galera preconceituosa e conservadora para justificar alguma coisa. É preciso buscar mais informação. E a gente, como galera LGBT, tem que disseminar a informação sobre o que é gênero, sobre o que é ideologia, porque uma coisa não vai com a outra.

– Acho que criam o medo de que se falar em LGBT todo mundo vai se tornar LGBT…

Fui criado num ambiente cisgênero, heteronormativo e transgredi. Pude me identificar com oturo gênero mesmo não tendo referência. As pessoas serão o que elas serão. Se vai ser gay, bicha, travesti, ela vai ser. Independentemente do que acontecer, ela vai ser. Acho que isso precisa ser sedimentado na cabeça das pessoas. Pois tentar mudar o que a pessoa é só vai gerar sofrimento. Não é por acaso que a “cura gay” já foi extinta, porque sabem como isso é prejudicial para as pessoas. O ser humano que passa por isso fica totalmente traumatizado, muitas vezes leva ao suicídio e uma vida inteira de sofrimento. Às vezes ele se casa para reforçar a heterossexualidade, e a outra pessoa que se casa com ela? Fica em uma situação miserável. Para quê isso? Deixem as pessoas, gente!

– A população trans já conseguiu a retificação do prenome e gênero diretamente no cartório pelo STF. A OMS tirou as identidades trans da lista de doenças mentais. O STF acaba de criminalizar a LGBTfobia como crime de racismo. O que mais a população LGBT precisa em termos de direitos?

Acho que a gente percorreu bastante até aqui, aos trancos e barrancos, mas percorremos. Agora a gente precisa de mais politicas efetivas, que escutam a demanda da própria população trans. É o SUS, que a gente tem questões que envolvem a saúde pública e a saúde das pessoas trans, cujo olhar precisa ser com carinho e especificidade. Por exemplo: a questão de ginecologia para a pessoa transmasculina. Como abordar a situação do silicone industrial para as mulheres trans? Enfim, são situações que população cis no geral não tem. A saúde pública enquanto população ainda está muito básica, apesar do RJ ter o IED, que é de endocronologia, onde eu faço o tratamento. Ainda faz no jeitinho, porque a saúde do Rio de Janeiro está complicada, mas tá rolando, mas pode melhorar muito. Além disso, todos os órgãos LGBT do Rio precisam ser reforçados. Eles estão sendo deixados de lado e precisam estar mais bem estruturados. E…

– Pode falar…

Existe a questão da população trans ter saído do CID de doença mental, mas que manteve em questões relacionadas a saúde sexual. Isso é importante para que não percamos o atendimento de saúde, mas por outro lado não vejo um esforço dos órgãos competentes de se discutir o assunto. Vamos tirar a transexualdidade do CID, mas como vamos atender o pessoal nas suas especificidades?

– Qual é a sua visão para o futuro?

Se a gente olhar no panorama da humana, já tivemos altos, baixos, passagens de pessoas, ideias, movimentos. As coisas são transitórias. O Bolsonaro vai passar. O … vai passar. Eu vou passar. As ideias vão passar. Se a gente quiser concretizar esse pensamento otimista, porque às vezes as pessoas não conseguem enxergar muito isso, é só olhar para a nossa molecada hoje. As crianças que tem vindo e a mentalidade é outra. Eu vejo nas adolescentes uma modernização. Isso que está sendo falado, o trabalho que a gente está fazendo está surtindo efeito, mas menos naquele que já está aí, mais nos novos. A gente tem esse costume de ficar batendo em que já está lá, aquela galera do senado, no Sarney, ele não vai mudar. Mas o pessoal que está vindo aí, novo, está mais tolerante, está aceitando melhor as diferenças. Essa geração nova que vai surgir já é outra e a próxima ainda vai ser melhor. Eu sou otimista, pois se não tivesse otimismo, já teria ó (faz como se estivesse cortando os pulsos).

Assista ao bate-papo em vídeo:

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