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Cantora trans Rafa Villella conta como ajudou Whindersson Nunes a recuperar a fé

Por Neto Lucon

A cantora Rafa Villella, 29 anos, nunca perdeu a fé. Nem mesmo quando teve que sair da igreja onde cantava e foi criada só por ter se revelado mulher trans. Desde então, os desafios foram muitos: perder o emprego, ser forçada a trabalhar como profissional do sexo, terminar um relacionamento, se envolver com drogas e ter uma pré-overdose. Mas Rafa acredita que teve um empurrãozinho de Deus e conseguiu dar a volta por cima em grande estilo: é backing vocal das maiores estrelas do país.

Foi ao comentar sobre a sua trajetória para Whindersson Nunes que a cantora conseguiu fazer o youtuber cisgênero recuperar a fé durante a forte depressão que enfrentou no início deste ano. A declaração foi feita por ele mesmo no Twitter: “Quando eu estava perdendo a minha fé, uma pessoa falou sobre Jesus de uma forma tão bonita que me apeguei mais na minha fé do que nunca. Essa pessoa era uma mulher trans. Toda vez que eu lembro que a expectativa dela é de 35 anos meu coração dói”.

O reconhecimento para 12 milhões de seguidores movimentou as redes sociais e promoveu um debate importante. Muita gente elogiou Whindersson por se posicionar a favor das pessoas trans. Outras se apoiaram na transfobia para dizer que Rafa não poderia falar sobre Deus só por ser mulher trans. Teve quem elogiasse ou se surpreendesse pelo discurso religioso vir de Rafa. E teve gente que conseguiu enxergar as hipocrisias e preconceitos históricos que rejeitam a legitimidade das crenças de pessoas LGBT e sempre tentam as colocar em caminhos opostos da religiosidade. 

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, Rafa Villella revela como se manteve uma pessoa com fé, mesmo diante das maiores dificuldades e preconceitos. Fala sobre religião e transfobia. Conta detalhes do trabalho com Luisa Sonza, Cleo, Pabllo Vittar e Iza. E também adianta uma novidade que vai surpreender os fãs: a carreira solo e o lançamento de suas músicas exclusivas. A gente escutou em off e pode garantir que está incrível! Abaixo a entrevista em vídeo e em texto.

– Rafa, o Whindersson contou como você o ajudou a recuperar a fé. Você sempre foi uma pessoa religiosa?

Sempre fui da igreja, desde nova. Porém quando fiz a minha transição, eu tive que sair. A gente sabe muito bem que a instituição não aceita muito bem o grupo LGBT e as transexuais. Saí da instituição religiosa, mas nunca desliguei da minha fé. É a minha fé que me manteve e que me mantém viva. Já passei por grandes problemas, já fiz prostituição, já saí de casa e a fé sempre foi parte essencial da minha vida. Meus amigos me chamam de pastora trans (risos), porque não consigo parar de falar de Jesus.

– Por existir forte transfobia nas igrejas, em algum momento você achou que era errado ser uma pessoa trans? Isso de alguma forma te confundiu?

Super! Na minha transição, até os amigos cristãos da época se afastaram e disseram que eu estava doente. A minha família não conhecia nada a respeito na época e as pessoas ajudaram a piorar a situação. Como tive que sair da igreja e eu fazia tudo na igreja, cantava, participava de grupos, então achei que eu poderia ser o problema. Mas eu estava lidando com a minha própria identidade, então não tinha nada que me impediria. E é por isso que acho que há algo sobrenatural ligado à fé. Porque eu tinha todos os motivos para me afastar da fé e ficar revoltada, mas foi o oposto que aconteceu. Eu me aproximei mais de Deus fora da igreja que dentro.

– De qual instituição você era?

Da Igreja Batista. Mas nada contra a Batista, deixa ela lá e as outras igrejas. É óbvio que precisamos conversar mais, porque não tem mais como excluir ninguém, né? Até porque a fé cristã se opõe à segregação. Ela inclui. Então tem alguma coisa errada.

– Como foi que você teve o contato com o Whindersson e conseguiu ajudá-lo a recuperar a fé?

Eu trabalho com a Luisa (Sonza), que é esposa dele, e sou madrinha dela também. Somos todos amigos. A Luisa me chamou para ficar na casa deles e, em uma tarde no sótão, onde eles fazem o happy hour, o Whindersson me explicou por alto sobre a depressão. Mas este é um assunto muito delicado e eu sempre achei que pessoas especializadas devem dar orientação. Eu não sabia que, como ele disse no Twitter, tinha perdido a fé.  Então foi algo bem de boa. Eu basicamente contei a minha história e de como é importante não se importar com aqueles que se intitulam homens de fé, mas que só querem “boicotar a paz”. Eles também existiam na época de Jesus e, inclusive, foram eles que mataram Jesus. O (psicanalista e ex-pastor presbiteriano brasileiro) Caio Fábio tem esse termo – “boicotadores da paz” – que fala sobre as pessoas que só aparecem para falar mal, porque não querem que a paz aconteça.

–  Pode falar sobre o seu contato transformador com Deus?

Eu tive uma pré-overdose, na qual eu estava em uma situação muito difícil. Eu trabalhava como garota de programa e não queria fazer aquele tipo de trabalho. Então eu orava muito. Tenho várias amigas que são e são de boa com isso. Mas o meu problema é que eu não queria mais fazer e atuar nesse trabalho.

– O problema é quando a prostituição é algo imposto, não uma escolha, né?

É isso. Eu já vivi e é muito pesado. É difícil dormir com quem você não quer. É como se fosse um autoestupro. No início é festa, você começa a ganhar dinheiro, mas chega um momento em que o rolê fica bem pesado. É quando você não quer mais e faz a conta: transei com 5, com 10, com 20, com 30 na semana e começa a se sentir uma mercadoria. Aí entra a droga, outras coisas e você precisa se distrair daquilo. Só de saber que existem essas meninas em situações muito ruins, acho que algo tem que ser feito.

– Continue, por favor…

Eu consegui sair da prostituição e, por um motivo (a separação do namorado), tive que retornar e entrei em uma depressão brava. Fiquei muito ruim e comecei a usar droga loucamente. Em uma noite tive essa pré-overdose. Tive ataque cardíaco, me senti literalmente desmaiando, o coração batendo forte, minha cabeça estourando e percebi: vai acontecer uma merda. Fui para o banheiro, taquei minha cabeça no chuveiro e orava como nunca tinha orado antes. Orava e chorava. Mas não era um choro de medo, porque quando eu estava cheirando daquele jeito, por dois dias e sem comer, eu já tentava um suicídio, buscava uma overdose. E foi quando aconteceu um milagre comigo.

– Como foi o milagre?

Eu deitei na cama, a luz estava cortada, eu estava sem dinheiro e apaguei. Daí no dia seguinte, sabe aquela cena da Branca de Neve? Com os passarinhos cantando, o sol entrando? Foi exatamente assim como eu acordei. Eu vi o sol, senti uma paz surreal, sobrenatural e não tinha porquê eu estar sentindo aquela paz. Pensei: “Ok, passei por uma experiência de quase morte, mas tem uma coisa estranha rolando mesmo”. Um alívio de corpo. Liguei para o meu pai e falei: “pai, preciso que você ore para mim”. Expliquei a situação e eles super me apoiaram. Foi quando eu voltei para casa, comecei um processo de orar mais, de me entender mais, pois aquele processo de separação contribuiu para a minha depressão. E, orando, eu quis continuar com a música.

  – Por que acha que encontrou mais Jesus fora da igreja que dentro dela? Hoje em dia como é o seu contato com ele?

Porque é onde você necessita de graça. Você só reconhece a graça de Deus, de Jesus, quando você está na merda, muito na merda e não tem outra opção. Você não tem amigos, não tem dinheiro, não tem família, não tem mais nada. Você só tem a si mesmo e a Ele. Nesse momento que eu quase morri era tudo ou nada: Deus, me dá uma chance aqui, por favor. Mas não necessariamente nessa situação, porque eu sempre li a Bíblia, gosto da história de Jesus, dos Evangelhos. Quando li a fundo tudo o que Jesus representa, comecei a entender todas as questões de perdoar, de amar. Porque você ama a Deus amando o próximo. E se na Bíblia fala “Amai a Deus sobre todas as coisas”, para ser um seguidor de Jesus é fundamental amar. O meu contato com Deus tornou-se infinitamente maior. Tudo o que eu faço eu peço a Deus, eu oro, eu tento amar o máximo que posso.  Eu tenho empatia com as pessoas e isso automaticamente traz um contato maior com Deus.

– Chegou a acompanhar a repercussão do post do Whindersson?

Eu falei: não vou ler, não vou ler. Mas acabei lendo e vi um número absurdo de pessoas cristãs falando que eu fui usada pelo capeta, pelo demônio, que eu não poderia falar sobre isso. É surreal e incoerente essas pessoas disserem que eu não posso falar de Jesus por ser trans. Tem alguma coisa errada com a humanidade. Eu só estava falando de amor, de paz mas quando você vai contra o sistema podre de manipulação, seja na religião ou na política, vão cair em cima de você. Foi uma tarde ótima, não foi levantada nenhuma bandeira de religião. Eu só contei minha história e ele gostou, se emocionou.

– Muita gente também vai aparecer aqui e falar que está escrito na Bíblia que ser LGBT é pecado, abominação… O que falar para essas pessoas?

Sempre fui uma pessoa muito dedicada à Bíblia e assuntos teológicos. O que aprendi é que Jesus é a chave da Bíblia, o que chamamos de chave hermenêutica, que é o mais importante. Os outros livros são inspirados por Deus e estão ali, mas não são maiores que Cristo. Ok, existe uma passagem em que Paulo fala que os afeminados não herdarão o reino dos céus. Lá no Antigo Testamento, Moisés diz que se um homem se deitar com outro é digno de morte. Porém existe um cenário político, cultural e de época que influenciava. Um cenário que dizia que a mulher não podia falar. E por que falo que Jesus é a chave principal? É porque você não pode olhar para o que Paulo falou em um versículo ou o que Moisés falou e esquecer o que Jesus falou, que é o que importa na verdade: Amar o próximo. Você tem que ler a Bíblia inteira com a ótica de Cristo. O que importa para mim são os quatro evangelhos.

– Se a gente for pensar: com quem será que Jesus andaria hoje em dia? Com as pessoas que sofrem preconceito ou que são preconceituosas?

É isso. Ele defendeu puta, defendeu cobrador de impostos. Ele andava na visão da sociedade com as piores pessoas, porque Ele sabia que havia honestidade. Não tem como falar em nome de Deus e gritar um discurso de ódio ao mesmo tempo.

– De qual maneira conseguiu retomar a carreira de cantora?

Fui postando algumas coisas nas redes sociais. Foi quando Diego Timbó, que é produtor vocal da Pabllo, da Luisa Sonza, me chamou para fazer um teste para o vocal da Pabllo. Foi no período em que ela estava com um programa no Multishow. Fui, passei e a galera se apaixonou por mim. Em seguida comecei a trabalhar com a Iza no Música Boa, também do Multishow. Em seguida, conheci a Cleo e, como sou produtora, produzi todo o vocal da Cleo no vocal que ela estava lançando no ano passado. Aí a Pabllo fez um convite oficial para ser backing vocal dela. Foi muito mágico, porque no período em que eu estava muito mal estava estourando a música Corpo Sensual, da Pabllo, lá na Lapa. No meio daquilo tudo a música trazia uma coisa boa, um frescor, uma esperança. Daí um ano depois estou eu ensaiando com ela em Uberlândia. Quando a música começou, eu não consegui segurar e comecei a chorar. Ela veio, me abraçou e foi muito bonito. As coisas são muito rápidas e mostram como fui privilegiada por Deus. Se eu sei cantar e fazer isso com excelência, a gente tem que ter a oportunidade de fazer a diferença. Mas é preciso lembrar que eu saí da prostituição, mas tem milhões de meninas trans – 90% – que estão na prostituição por falta de oportunidade no mercado de trabalho.

Rafa, Pabllo e Luisa fazendo diferença na música brasileira

– O que acha que é possível ser feito?

 As pessoas precisam se sensibilizar mais com as outras pessoas. Mesmo que não seja trans, tem que ter mais empatia. Não tem como ignorar que isso é um problema social de fato. Então da mesma forma que a Pabllo foi uma inspiração para mim, a representatividade em pessoa, eu espero poder ser para outras.

– Você continua cantando com a Pabllo e com a Luisa? Como é o contato com elas?

Não estou mais com Pabllo, porque ela começou uma turnê mega internacional. E como eu vou lançar mês que vem o solo ficaria muito difícil acompanhá-la em outros países. Com a Luisa o rolê é mais aqui e a Luisa é minha família. Ela é nova, mas é extremamente consciente do que está acontecendo. Muita gente tem ideia errada, de que ela é metida, mas não tem nada a ver. É super defensora de todas as causas que vocês imaginam. E não é “forçação”. Ela é assim.

– Fala um pouco sobre a carreira solo?

Vou lançar um EP com cinco músicas. É muito difícil se lançar, conseguir investimento e clipe. É caro, mas existe essa necessidade do meu discurso ser ouvido. Acho que com isso a gente enfrenta tudo.

– Você canta pop?

Canto black, sou da galera da igreja, que canta soul, black, jazz, r&b. O meu foco vai ser r&b, mas sempre conversando com o pop. Eu sempre brinco que são músicas para fazer amor. Lá fora o r&b é muito forte, e a gente vai tentar trazer aqui não muito gringada, porque tem que ter uma identidade brasileira, mas algo bem cantado, bem produzido, e que as pessoas curtam e falem: que maneiro. Temos parcerias, como Arthur Marques e DJ Tai, que já fizeram o “Dona de Mim”, da Iza, o álbum inteiro da Pabllo, a música “Sua Cara”, da Anitta com ela.

– O que você diria para quem está lendo essa entrevista e está enfrentando um momento difícil?

Saiba que se você está passando por um problema ou uma situação muito difícil, tudo isso é temporário. A fé me ajudou muito. Se você se acha indigna ou suja ou errada, porque as pessoas falaram que você é, posso dizer que você não está e não é. Você é uma pessoa maravilhosa, comum, linda e que pode conquistar o mundo. As coisas mudam de um dia para o outro. Deus ama você na forma que você é. E é muito importante não dar crédito a qualquer pessoa e sobre o que ela diz sobre a gente. Só você conhece a sua verdade. Tente amar sempre o próximo, fazer o que é certo, que as coisas acontecem.

Assista a entrevista em vídeo:

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