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“Não sabia o que era transfobia até minha amiga Dandara ser assassinada”

Por Neto Lucon

Vitória Holanda, inspetora cisgênera da Polícia Civil, não sabia ao certo o que era transfobia até 2017, quando viu o preconceito atingir uma de suas melhores amigas. Trata-se de Dandara Kletyn de Velázquez – mais conhecida como Dandara dos Santos – travesti que foi assassinada com requintes de crueldade naquele ano no Ceará.

O crime repercutiu em todo o mundo. Tudo porque um vídeo que mostra Dandara sendo agredida por vários homens cisgêneros caiu nas redes sociais e viralizou. Dandara recebeu chutes, pontapés, madeiradas, pedradas e foi ofendida a todo momento. Posteriormente, foi levada a outro lugar e recebeu dois tiros e pedrada.

Diante do assassinato da amiga, que havia conhecido na infância, Vitória prometeu aos familiares de Dandara que o crime não ficaria impune. E conseguiu, com a inteligência da polícia, prender todos os 12 envolvidos no assassinato. Um por um.

Dois anos depois, a policial lança o livro “Casulo Dandara”, da editora CeNE. Uma obra que promete resgatar a vida de Dandara e mostrar a trajetória da amiga até o final trágico. Vitória adianta que não se trata de uma investigação policial, mas de uma obra que visa falar de vida, dos desafios das pessoas trans e travestis. Sobretudo levantar uma bandeira contra a transfobia.

Abaixo, a policial, autora e amiga fala sobre o contato com Dandara e a obra:

Você era amiga da Dandara. Como a conheceu?

Nós nos tornamos amigas aos seis anos, quando morávamos em um conjunto habitacional. Nos anos 80, foram entregues várias casas para várias famílias em um local que tinha uma grande estrutura, inclusive um parquinho. Nós brincávamos lá. Ela ainda tinha a feição masculina, mas sempre mostrou que era diferente. O livro aborda essa fase: as nossas brincadeiras, as influências musicais, culturais, o contexto social da época, ditadura e pós-ditadura.

– O que poderia falar sobre a Dandara neste período?

A gente percebia que ela era “diferente”, mas nós éramos crianças e não entendíamos nada sobre o assunto. Lembro que havia uma brincadeira em que ela teria que dar um beijinho em uma menina, mas ela não queria. Ela dizia: “Sua mãe não vai gostar”. A gente brincava de programa de TV, ela imitava a Gretchen, eu era a Marlene Mattos e ela me ajudava a maquiar as meninas. Lembro quando menstruei e corri para dizer para ela. Ela, mesmo sem saber nada, falou: mulher, vai ficar tudo bem e me acalmou. Ao contrário do que as pessoas podem pensar, que as travestis são depravadas, a Dandara era altamente comedida, tinha respeito por nossas famílias e amigos.

– Ela revelou que era travesti com quantos anos?

 Ela só aceitou que era diferente aos 18 anos. Na cabeça dela, quando ficasse maior de idade, ela poderia verbalizar. Mas todos já sabiam. O preconceito estava mais nela mesma, pois tinha vergonha de falar sobre o assunto. Quando ela contou que era homossexual – pois foi assim que ela se identificou primeiro – não foi uma coisa de aceitação, de “seja bem-vinda”. Houve uma coisa de todo mundo se calar, inclusive os amigos próximos. É diferente dos tempos de hoje, em que um parente próximo disse que é homossexual e houve uma aceitação e respeito.

– Quando ela passou a se identificar como Dandara?

O nome veio depois. Quando ela assumiu a homossexualidade, nós ainda andávamos muito juntas. Mas com o tempo foram se formando os guetos e ela se aproximou dos homossexuais e das travestis do bairro. Ela tinha outra irmã trans, que é a Keila. Ela era muito diferente da Dandara. Era arisca. Já a Dandara era muito alegre. Pense numa humorista cearense… Era ela! Elas viviam na mesma casa e na mesma rua havia outras duas. Elas quatro se uniram e a Dandara se afastou de mim. Eu e ela não falávamos mais a mesma língua. Aos poucos, muitas começaram a deixar de se considerarem homossexuais para se definirem como travestis. Com isso, também começou a questão da prostituição.

– A prostituição na história da Dandara também carrega a questão da falta de emprego no mercado formal?

Com certeza. Tanto é que no livro falo sobre o Candido, que disse que foi travesti, mas que viu que o preconceito era latente e falou: “não vou ser mulher, vou ser gay”. Ele conta que passou um ano “como travesti”, mas que considerou uma brincadeira. Disse que ninguém empregaria um “viado com peito”. Mas Dandara e as outras avançaram para a travestilidade e foram para a prostituição. Veio a vontade de ter um corpo feminino e o mercado solicitava esse corpo feminino. Foi quando elas conheceram uma pessoa, que foi uma aliciadora. Foi uma cafetina que mostrou São Paulo para Dandara. Ela também tinha o sonho de ir para a Europa.

– Chegou a conversar com essa cafetina para o livro?

Sim. Mas não tratei com moralismo, porque conversando com ela descobri que viveu a mesma história de todas as demais travestis. Ela foi expulsa de casa por se identificar como mulher, passou pela falta de oportunidade, prostituição e, junto com o preconceito, transformou isso em um mercado. A temática da prostituição foi muito singela. Todas têm uma história e a maioria entrou para essa profissão, não porque acharam lindo, mas porque foi a única fonte de renda.

– Como foi a vida dela em São Paulo? 

Muitas vinham para São Paulo para colocar próteses de silicone nos seios e viam na cidade um caminho para ajudar a família. Soube que Dandara era boêmia. Ela se deslumbrou com São Paulo, achou a noite linda, queria beber e não deu muito certo na prostituição. Então ela ia para o Ceará e voltava para São Paulo. Na última volta, descobriu que era soropositiva e ficou. Foi em 2008. Para entender este universo do ABC Paulista, tive contato com muitas travestis. Elas me procuraram quando sabiam que eu estava escrevendo o livro. Uma cafetina de São Paulo contou que a Dandara morou lá. Outras que moram na Itália vieram conversar e falar sobre a Dandara. 

– Vimos que a família ficou muito chocada com o assassinato. Como era a relação dela com eles?

Eu abordei a família com mais proximidade e afeto. Quando éramos mais novas, vi vários episódios (de transfobia) pela família não saber lidar, mas não dei tanta conotação. Vi o sofrimento que todos estão passando e isso deve ser levado em conta. É uma família muito pobre, muito humilde. Lembro que a Dandara assistia televisão na minha casa. Quando íamos comer alguma coisa, ela deixava de comer para guardar e levar para a mãe. A Dandara era apaixonada pela mãe. Louca pela mãe. A Sheila já tinha falecido de AIDS há dois anos.

– Uma dúvida: o sobrenome dela era mesmo dos Santos?

Não. O sobrenome dos Santos surgiu depois que viralizou nas redes sociais. Acho que para não dar uma conotação informal… Sei lá… Começaram a falar Dandara dos Santos, incluindo dos Santos, um sobrenome comum, que nem era dela. Não ligaram para a família e nem sabiam o sobrenome dela. Inventaram isso. Ela se chamava Dandara Kletyn de Velázquez. E no documento era o nome masculino com Ferreira Vasconcelos. Não sei de onde tiraram dos Santos e todo mundo acabou repercutindo assim. Foi mais um desrespeito.

(Observação do jornalista: Logo após o vídeo viralizar, o próprio governador Camilo Santana, do PT, e outros políticos, mencionaram o nome Dandara dos Santos, divulgando e reforçando o equívoco quanto ao sobrenome).

– Quando foi a última vez que viu a Dandara?

Foi no dia do homicídio. Ela frequentava a minha casa, pois em 2015 eu montei uma empresa e ela cozinhava comigo. Nessas idas e vindas, a gente sempre manteve contato. Quando ela voltou de São Paulo, já muito debilitada pela doença, ela passou a fazer serviço doméstico, ir ao mercado e as pessoas ajudavam. Ela ia todo dia na minha casa, fazia um serviço doméstico e eu dava alguma coisa para ela. Ela amava ser amiga de aliban (policial no pajubá), como dizia. Ela amava bichos e naquele dia ela fez um carinho nos meus cachorros e eu, com pressa para ir ao trabalho, falei: “Vem, tô indo”. Na volta para minha casa, quando entrei no carro, pensei que ela estivesse me esperando, como sempre fazia. Mas ela não estava. Pouco depois a minha mãe me ligou e contou (que ela havia sido assassinada).

– Como foi a sua reação ao saber?

Eu não acreditei. Pensei que ela havia apanhado e que tinha dado alguma merda. A Dandara estava muito vulnerável, muito magra e feia aos olhos das pessoas. Mas ela nunca deixava de usar shortinho, top e ter o cabelo platinado. Isso chamava atenção. Ela também tinha mania de levantar a saia quando alguém mexia com ela. Mas nunca imaginaria que tinha sido aquilo. Quando soube que foi lá no Bom Jardim, há dois quilômetros, eu tive o instinto policial e ajudei nas investigações. Em casa, vi minha filha chorando. Foi quando eu fui lá em 1990, lembrei das brincadeiras, das conversas e desabei. Senti uma dor no meu peito. Sabia que ela tinha sofrido muito, mas ainda não sabia do vídeo e de toda a tortura que houve.

– Foi complicado participar das investigações e ser tão próxima da vítima?

Eu fui lá na casa da família e prometi: “Isso não vai ficar assim. Vou pegar um por um”. E nós achávamos que eram apenas dois. Fui lá na favela e achamos o “Chupa-Cabra”, mas ele correu e não conseguimos pegar. Achamos o Chinesinho, que era menor de idade, e ele entrou no mato. Depois veio aquele vídeo horroroso (que mostra Dandara sendo espancada). Joguei o celular no chão e não consegui. Um colega tirou o áudio e falou: “Assista, pois só assim você vai poder ajudar”. Aparecem seis pessoas e havia outras duas. O motoqueiro também foi identificado. E o Isaias, que filmou, foi identificado pela voz. Fomos trabalhando em cima das qualificações, mas ninguém sabia do vídeo. No dia 4 de março o vídeo viralizou, tinha mais de 400 mil visualizações e eu me arrepiei. Achei que todos fossem fugir. Foi quando a juíza assinou os mandados, montamos a operação.

– Como foram as prisões?

Após o mandado, prendemos seis. Conseguimos prender os outros porque, onde eles se escondiam, a população ligava. O último que foi preso foi o motoqueiro, porque ficou foragido. Foram 12 pessoas envolvidas na morte, dentre elas 4 menores de idade.

– Foi um crime de transfobia?

Quando ela sai da moto, uma das pessoas a pega pelo braço e fala: “Ladrão, ladrão”. Mas ela era extremamente inocente, nunca roubaria ninguém, morria de medo da polícia. Daí seis pessoas começaram a agredir. Tem um segundo vídeo em que ela fala: Liga para o meu pai, não fiz nada. Mas na execução há transfobia e o desprezo por ela, como se ela fosse um bicho, uma carniça, como eles dizem. Eu tenho experiência em comunidades e sei que, antes de um assassinato, as facções fazem um tribunal. Eles não fizeram com ela, eles não deram chance. Eles sabiam que ela não era de facção e mesmo assim resolveram matar, porque esse “bicho não merece viver”. Foi transfobia.

– Fora as agressões que vemos no vídeo, ela morreu porque atiraram nela. Isso não esteve no vídeo que viralizou. Como foi?

Foi a 150 metros do lugar onde a agrediram. O final da rua já é o final da favela que dá acesso ao matagal. Eles levaram ela para lá e começaram a espancar de novo. Eles levaram para trás da mureta para fazer a agressão. Não é um homicídio comum, pois eles querem “matar um bicho”. Um dá um tiro na cabeça e passa o revolver para o outro, que dá outro tiro. Já com dois tiros na cabeça, um diz “vamos matar a barata” e jogam um paralelepípedo na cabeça dela. O caixão foi lacrado. A família não conseguiu ver o rosto da Dandara, pois foi esmagado.  

– Ainda há questões que ficaram faltando ser esclarecidas no caso?

O motoqueiro mora próximo de lá e, segundo pessoas próximas, estava tendo relações com ela. Há uma linha de investigação que diz que esse motoqueiro descobriu que ela era soropositiva e não gostou. Porém ele já tem o histórico de ter tacado fogo na casa, ser expulso pela mulher. Todos os dias a Dandara comprava pão, tomava café, deixava o pão na mãe e ficava me esperando sair do trabalho até cinco horas. Ele esperou ela descer, ela subiu na moto e falou para as pessoas: “Vou ali com o meu boy”. Dandara foi assassinada há 2km. Esse local em que ela foi levada tem uma facção criminosa e ela não andaria sozinha lá. Ela saiu da moto e eles pegaram ela e iniciou o espancamento. Esse motoqueiro não socorreu e descobrimos que ele trabalhava como vigia de rua e conhecia muitas pessoas de lá. Os infratores conheciam ele, mas no depoimento negaram. Falta esclarecer isso e por qual motivo ele levou ela pra lá. Como todo mundo foi preso, ficou por isso mesmo.

– Você tinha consciência das violências que a população trans passa?

Não tinha consciência. Era algo que como aliada, eu tive que ler, estudar, me envolver, entrou no meu sangue. Mas passei tanto tempo na minha vida inerte a isso. Como eu passei tanto tempo chamando a Dandara com o nome masculino? Eu sou bacharel em Direito, formada em Pedagogia e não respeitava (o nome social). Imagine as outras pessoas? Como vamos falar sobre isso, trazer consciência, inclusive dentro da escola? Eu fui criada em um berço evangélico, dizendo que ser travesti é errado, mas a Dandara vivia na minha casa. Conseguíamos entender o que é o amor, mas não conseguíamos respeitar o que é essa identidade de gênero. Quando você só escuta a palavra preconceito, você não entende, não quer participar, porque o problema não é seu. Mas quando você sente o cheiro do preconceito na pele de quem você ama, não dá para ficar a mesma pessoa. Isso precisa mudar.

– Por que você acha que esse caso é tão emblemático?

Foi o vídeo. Se o vídeo não tivesse viralizado, ninguém saberia. Aquilo que as pessoas não veem, não dói. Se só escutam falar, dizem: “bem feito, estava roubando”. Quando elas tiveram contato com aquilo, o pior ser humano se indigna. O vídeo veio para mostrar o que as pessoas fazem por trás das paredes e que você não consegue enxergar. As pessoas querem exterminar as travestis. É esse alerta que se faz para a população LGBT. As pessoas tiveram contato com a Dandara, mas este não é um caso isolado. A maioria das travestis que morrem não tem a mesma repercussão. A Hérika (Izidório) foi jogada do viaduto pouco antes da Dandara, morreu aqui mesmo no Ceará, e muita gente nem ouviu falar.

– O que a Dandara representa para você?

A história da Dandara tem muito a ver com a Dandara, que foi esposa do Zumbi dos Palmares. Ela se jogou nas pedras para não ser escravizada. A causa da morte da Dandara daqui não foi tiro, mas as pedras. Enquanto uma é dos Palmares, outra foi assassinada no Conjunto Palmares. Hoje as duas Dandaras representam e simbolizam lutas importantíssimas: contra o racismo e contra a transfobia. A Dandara dizia que queria ser famosa e, hoje, ela está causando tudo isso. A minha transformação maior no decorrer da escrita, foi conhecendo a vida dela, foi falando da vida dela, conversando com as meninas e ver pessoas cheias de sonhos, passando por dificuldades, mas sempre humoradas. A minha transformação foi entender o que é o preconceito.

– Como foi o processo de escrever o livro?

Nesses dois anos, sempre quis escrever o livro, mas não sabia como seria. Para começar, coloquei um fone ouvindo Legião Urbana, com as músicas da nossa época. Comecei a lembrar de coisas que eu nem lembrava e escrevi 20 páginas a mão. Nem comi, fiquei chorando, escrevendo e mandei para três amigos. Um deles era um policial mais antigo. Todos disseram: manda mais. Depois eu pedi para o Gustavo, meu sobrinho digitar para mim. Daí eu corrigia, reescrevia e adaptava algumas coisas. O desafio foi quando terminou a parte da infância e adolescência e tive que fazer tópicos para saber os caminhos. Fui conversando com a família, com as amigas, com a cafetina. Quando terminei, o jornal O Povo fez uma matéria: Policial procura editora para livro e conseguimos encontrar. O nome surgiu na madrugada. Pensei em “Dandara para Sempre”, mas logo pensei na transformação e ficou “Casulo Dandara”. Quando concluí, esse meu amigo policial disse: “Olha, espero que esse livro faça com as outras pessoas a mesma coisa que fez comigo. Eu nunca mais vou olhar para essas pessoas como eu olhava”. 

– O que podemos esperar dessa obra?

O maior obstáculo que tive quando comecei a escrever foram os comentários negativos: “merece morrer”, “é de facção”, “tava noiada”, “tava roubando”, “vão falar de cu”. Isso me trouxe muita revolta e talvez seja um desafio tirar da cabeça das pessoas. A história da Dandara é forte, é dramática, mas é linda, cheia de lembranças maravilhosas, de uma pessoa normal, que tem família como todo mundo, que tem projetos, que tem suas melhores músicas, melhores roupas, que adorava ir à Parada LGBT. Para ela, a Parada era o melhor dia do ano. Começava a se preparar desde a 8h da manhã para ir e era a maior felicidade do mundo. Enfim, o livro não é sobre investigação policial, é sobre a história de vida.

MAIS SOBRE O LIVRO

Preço: 29,90
Acabamento: Brochura
Formato: 15×22 cm
Nº de páginas: 144
Compre aqui: https://www.editoracene.com.br/livros/o-casulo-dandara-pre-venda

  • A entrevista foi revisada por Vivian Navarro. Ela é assistente judiciário, andreense, feminista e ativista dos direitos humanos.

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