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Tem gente cis se passando por gente trans (e se apropriando das conquistas)

Por Neto Lucon

Com o avanço dos direitos das pessoas trans e a consciência da forte transfobia no mundo, algumas ações positivas e pontuais começam a surgir para quem historicamente viveu em situação de vulnerabilidade. E não é que já começa a aparecer gente cisgênera mal-intencionada querendo se passar por trans para abocanhar algum benefício?

Recentemente, a imprensa internacional noticiou o caso envolvendo a modelo Carissa Pinkston, de 20 anos, que trabalhou para a Prabal Gurang, Edie Parker e Marc Jacobs e até na marca Save X Fenty, de Rihanna . Ela declarou que era mulher trans ao ser flagrada em posts transfóbicos, mas na verdade é uma mulher cisgênera, foi desmentida e teve que se retratar publicamente.

“Eu não estava pronta para falar sobre isso ainda, mas hoje fui demitida e recebi cartas de ódio e ameaças de morte desde então, sendo forçada a dizer a verdade”, escreveu o modelo. “Eu sou transgênero”, disse ela em julho, após ser demitida da Elite Model Management por transfobia. “Eu transicionei muito cedo e vivi minha vida como mulher desde então. Tem sido muito difícil manter esse segredo, mas o que eu disse sobre mulheres trans é um reflexo direto das minhas inseguranças internas e, desde então, percebi que sou uma mulher … TODAS SOMOS

O que ela não esperava é que muita gente denunciou a sua história enquanto mulher cisgênera e ela teve que voltar às redes sociais para desmentir. Afinal, dizer que é uma pessoa trans poderia tirá-la rapidamente do rótulo de transfóbica, devolver o prestígio enquanto profissional e retomar com os trabalhos tranquilamente, pegando ainda a parcela de trabalhos voltados especificamente para pessoas trans. “Eu entrei em pânico e achei que, se eu aparecesse como Trans, eu poderia de alguma forma melhorar as coisas para mim mesma, mas parece que só tornei as coisas piores. Eu realmente sinto muito”, afirmou.

O caso tornou-se bastante simbólico, tendo em vista a insensibilidade e desonestidade ao ocupar um lugar de uma categoria que carece de oportunidades, sobretudo com o objetivo minimizar falas transfóbicas. Reflete também aqueles que se apropriam de benefícios conquistados pela luta de outra população, ao mesmo tempo em que inúmeras outras pessoas desta população continuam em situação de vulnerabilidade, sofrem violências e até são assassinadas por serem quem são. Pois se hoje há portas abertas específicas é porque a maioria das demais está fechada, porque nem todos os espaços são seguros e porque muita gente lutou para que houvesse alguma mudança.

Além disso, tal apropriação estremece uma das maiores lutas do movimento trans: o direito de se autodefinir, sem precisar do olhar ou aval de outro. Afinal, qual é a régua que será usada para medir quem é trans ou não? Como esse tipo de situação pode afetar as seleções? Neste sentido, destacamos que sempre há predileção de tais empresas pró-diversidade em apostar numa beleza cisgênera mesmo quando a pessoa é trans. É como se dissesse que é preciso que uma pessoa trans tenha passabilidade cis para realmente fazer valer a oportunidade. O que, caso não fosse desmentida, Carissa continuaria na área tranquilamente com sua beleza cisgênera, matendo-se na profissão como antes e abocanhando os trabalhos com recorte de representatividade trans.

Vale dizer também que este não é o único caso envolvendo pessoas que mentem pertencer por determinado grupo para se beneficiar. No Brasil, é possível ver inúmeros episódios de homens cis brancos que se apropriam de conquistas derivadas da luta do movimento negro, bem como o servidor branco Lucas Soares Fontes que se passou por negro para ser aprovado em concurso público do INSS em Juiz de Fora pela política de cotas neste ano.

Também é possível ver casos envolvendo pessoas mentindo terem alguma deficiência, como ocorreu na Copa do Mundo, em 2014, em que falsos cadeirantes acuparam nos estádios lugares destinados a pessoas com deficiência. E até de héteros cis se passando por LGBT, tanto para tentar se livrar de algum apontamento LGBTfóbico quanto para ir atrás do pink money ou para se destacar na mídia. Andressa Urach, ex-Miss Bumbum, admitiu após se tornar evangélica que inventou um namoro com uma mulher e se declarou bissexual só para aumentar os seus 15 minutos de fama na imprensa.

Andressa fingiu ser bissexual só para aparecer

No Brasil é possível se deparar com outras pessoas que se debruçam nas identidades trans quando lhe é conveniente. Ou seja, quando há uma vaga específica para pessoas trans. Um papel em alguma obra que busca representatividade trans. Cotas nas universidades. Ocupar espaços em que se pedem lugar de fala. Festas em que pessoas trans tem entratada free. Invadir grupos específicos de pessoas trans por fetichismo. Ou até mesmo após ser apontado em seus machismos e LGBTfobias, como se identificar-se trans automaticamente o livrasse de ser apontado como preconceituoso. Mas que durante todos os demais momentos trazem uma vivência absolutamente cisgênera. São casos que confidenciam ou são descobertos em off e que infelizmente não posso mencionar. Até porque poderia render processo. Até porque, ao ser exposto, poderíamos esbarrar novamente na máxima de cada um se identifica como quiser.

Mas exemplifico que, enquanto homem cis gay, já fui aconselhado inúmeras vezes, inclusive por pessoas trans, para dizer que sou pessoa trans não-binária. E o motivo é que, quem sabe, consigo mais empatia e contribuição para a manutenção desta página. Sugeriram até que eventualmente eu poste alguma foto com batom e brinco para provar minha suposta não-binaridade. Evidentemente que nunca acatei, pois respeito as pessoas trans, binárias e não-binárias, e, ainda que possa questionar minha identidade de gênero, jamais diria que faço parte da comunidade com tais interesses. Sei também que pessoas trans não-binárias são constantemente questionadas e um caso desses prejudicaria muito essa população, que é, sim, legítima e não pode ser utilizada de maneira indevida.

Carissa tenta se redimir pela farsa que sustentou. “Eu cometi erros, mas me recuso a deixar que eles me definam. Espero que todos possam me perdoar e seguir em frente, porque sou muito mais do que esse incidente e não sou uma covarde”, declarou. Que ela tenha aprendido a lição e que este seja mais um exemplo para as demais pessoas que pensam em fazer qualquer apropriação simplesmente parem.

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