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Curta “Marie” foge do óbvio e emociona ao reconciliar travesti com o passado – Crítica

Por Neto Lucon

Perdas, reconciliações e uma protagonista travesti forte vivida pela atriz transvestigenere Wallie Ruy. São com esses elementos que o curta-metragem “Marie”, do diretor cisgênero Leo Tabosa, vem emocionando expectadores, sendo aplaudido nas salas de cinema e levando com louvor premiações de festivais de cinema pelo mundo. Dentre eles, quatro prêmios no 47º Festival de Cinema de Gramado.

A obra conta a trajetória de Marie (Wallie), que retorna após 15 anos ao interior da Paraíba, sua cidade natal, devido a morte do pai. Lá, ela se depara – além do pai morto na cama – com memórias, afetos e pessoas que marcaram sua vida, bem como a amiga cis da família Alcina – vivida pela atriz trans Divina Valéria. Os laços se estreitam quando a personagem parte em viagem com o melhor amigo de infância, o homem cis Estevão (Rômulo Braga), para realizar o último desejo do pai: ser enterrado no Crato, Ceará, ao lado de seu último amor.

Diferente de muitos filmes que tem como foco a transgeneridade, descobertas e transfobias, o curta Marie ganha novos sabores ao trazer um roteiro preocupado com o que vem depois: as reconciliações, as complexidades dos relacionamentos e o desejo de se resolver com o passado. Situações e sentimentos que atravessam todos os seres humanos, independente de identidade de gênero. Basta olhar para trás, pisar nos mesmos lugares e se permitir envolver-se com as mesmas pessoas. 

Há cenas sensíveis, emocionantes e poéticas, bem como o momento em que Marie conversa com Alcina, tendo o pai inerte entre as duas no quatro, como assunto, alvo e testemunha. Há cenas inspiradoras com uma protagonista empoderada e bem-sucedida, que demonstra ir atrás dos seus sonhos e não se culpar por eventuais erros. Também há momentos de fúria e desentendimento, sobretudo quando Estevão desenterra questões escondidas debaixo do tapete e acaba patinando na transfobia. Este é um dos momentos-chave do curta, em que o expectador questiona o desfecho da viagem e o enterro do pai.

O road movie com um caixão no capô do veículo conta com a bela fotografia de Petrus Cariry, que também nos fez sentir viajantes ao destacar as cores, sabores e temperaturas do nordeste brasileiro. E tem na trilha sonora Roberto Carlos cantando Força Estranha.

47º Festival de Cinema de Gramado
Melhor ator: Rômulo Braga
Júri da Crítica
Prêmio aquisição Canal Brasil
Prêmio Especial do Júri pela atuação:
Divina Valéria e Wallie Ruy

Destacamos a escalação do elenco e as atuações. Wallie, que há vários anos vem nos emocionando no teatro, na TV e no cinema. E que agora nos traz com muita naturalidade os nuances de força, fragilidade e superações da protagonista. Divina Valéria, que nos brinda com a possibilidade de ver mais uma vez uma Divina Diva na grande telona e com o desafio de viver uma mulher cisgênera. Além do ator cis Rômulo, que conseguiu mostrar mais uma faceta ao transmitir no olhar os sentimentos que iam da dureza, gentileza e sensibilidade de Estevão.

A presença de duas atrizes trans na trama evidencia a importância de se incluir talentos de pessoas que vivenciam tais identidades e corporeidade em foco, para além de simplesmente abordar a temática trans. Não dá mais para falar sobre pessoas trans sem que elas estejam presentes. Não dá para achar que uma obra pode transformar o seu público se a transformação não começa dentro da própria obra. Não dá mais para apostar na visibilidade sem que ela esteja alinhada com a representatividade, um bom roteiro, direção e equipe sensíveis à temática.  

Marie (Wallie), Alcina (Divina Valéria) e Estevão (Rômulo Braga) em cena
Amizade de Estevão e Marie volta a render gentilezas e desentendimentos

Marie é um filme necessário, mas que tem um problema: é um curta e tem fôlego e enredo de sobra para um longa. Ainda assim, consegue nos fazer mergulhar na história, catapultar para os sentimentos dos personagens e nos emocionar com os desfechos. Para quem é avesso filmes com temática trans pela tristeza dos finais trágicos, algo que é bastante corriqueiro, ressaltamos mais uma vez: esse não é um filme de ardores.É um filme de afeto às pessoas trans.

Um suspiro de amor, um abraço apertado e um cafuné na cabeça frente a um Brasil que mais mata pessoas trans no mundo em números totais, segundo a ong Transgender Europe. Assistam!

Próximas exibições:
  

Rio de Janeiro – Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro
Dia 30/10 e 06/11

Bahia (Salvador e Cachoeira da Bahia –
Panorama Internacional Coisa de Cinema, Competitiva Cachoeira
30/10 à 06/11

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