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A importância da representatividade LGBTQ+ nas séries de TV

Por Victoria Hope

O ano de 2019 definitivamente contou com uma importante revolução para a mídia após mais de 124 anos do universo cinematográfico e televisivo, principalmente. Personagens LGBTQ+ sempre foram um desafio para o mercado que sempre ignorou e deixou essa parcela da população de lado.

Para aqueles que nasceram antes dos anos 2000, representatividade apropriada era quase impossível de se encontrar na mídia, mesmo porque quando era abordada, a representatividade LGBTQ+ vinha por meio de comédia ou tragédia, mas nunca em histórias positivas.

A representatividade na mídia é extremamente importante para que as pessoas saibam que não estão sozinhas no mundo, principalmente com tantas adversidades voltadas ao grupo, afinal, se ver representado pode salvar vidas.

Desventuras em Série / Netflix

Alguns personagens LGBTQ+ dos anos 80 ao 90 tinham apenas uma função; divertir, passar por traumas pesados e até mesmo para ser apenas tokens, ou seja, apenas panos de fundo para a história, geralmente em personalidade ou características próprias, nada desenvolvidos; afinal eles estavam nas tramas apenas para representar a única figura daquele grupo específico.

Quem cresceu nessa época, com certeza se lembra de séries como Xena – A princesa guerreira, que mesmo sendo um marco para representatividade poderosa feminina na mídia, ainda colocava sua protagonista em uma posição chamada de ‘male gaze’.

É impossível dizer que Xena não era um forte símbolo para as mulheres na época, porém por pressão dos próprios estúdios, seu relacionamento com Gabrielle foi apenas ‘implícito’, pois segundo nomes da indústria, naquela época não se podia demonstrar relacionamentos não heterossexuais na mídia sem que shows fossem cancelados por poderosos diretores de estúdios.

Apenas 20 anos após o término da série, os produtores finalmente revelaram o ‘segredo’ de Xena e Gabrielle, que na verdade eram apenas amigas e que os estúdios usaram do artifício ‘lésbico’ puramente pelo marketing da série. Essa prática, que ainda acontece na mídia é chamada de ‘queerbaiting’.

Xena, a princesa guerreira / Universal Studios

O termo ‘Queerbaiting’ em sua tradução literal seria algo como ‘isca gay’, ou seja, é um forte artifício usado na mídia puramente pelo marketing, para fazer com que a série seja comentada por anos a fio.

Dentro dessa prática, personagens do mesmo sexo são introduzidos como um ‘possível’ casal, em cenas que podem ser lidas como românticas, mas esses supostos casais jamais serão confirmados.

Séries de televisão como Sherlock da BBC entre outras produções utilizaram desse artifício para gerar o buzz online e construir fanbases na internet para que esse público continuasse a consumir.

Um depoimento polêmico ali, um spoiler falso acolá e assim, cerca de mais de 200 programas televisivos e filmes utilizaram dessa prática pelo marketing e vimos isso até mesmo na indústria da música, como a dupla russa T.A.T.U ou como acontece hoje com as famosas bandas de Kpop da Coréia.

Tudo o que o queerbaiting oferece é a fetichização das sexualidades e uma falsa esperança de representatividade ao público LGBT que tanto quer se ver representado na mídia.

Runaways / Marvel & Netflix

Mas nem tudo estava perdido, pois a partir dos anos 2000, principalmente entre 2016 a 2019, a indústria norte americana finalmente começa a trazer representatividade real e positiva na mídia, não apenas no cinema como também na televisão.

Com passos curtos, bem aos poucos, filmes e série começaram a introduzir mais personagens LGBTQ+, porém muitos do início dessa fase ainda traziam sempre as mesmas narrativas negativas, onde a sexualidade dos personagens sempre era vista como uma cruz e não motivo de orgulho.

Personagens LGBTQ+, principalmente homens gays, eram representados como alívio cômico nessa época e por mais que isso não seja algo tão positivo, pelo menos a prática conseguiu criar uma ligeira empatia de pessoas heterossexuais para com personagens gays, afinal, eles sempre se tornavam os favoritos das séries e filmes por trazerem a comédia.

O lado negativo era o fato de que a comédia, sempre era a sexualidade dos personagens, pois muitos eram representados por estereótipos negativos, com ideias erradas já enraizadas na mente do público hétero e cis gênero.

Queer As Folk / Showtime

Tudo mudou quando a série Queer As Folk chegou à televisão, sendo exibida pela TV a cabo tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil e em vários outros países. A série canadense foi um marco histórico para a representatividade LGBTQ+ na televisão;

Queer As Folk narrava a história de um grupo de cinco rapazes homossexuais que viviam na Pennysilvania, além de um casal lésbico que também compunha o núcleo principal da série, com um elenco quase 70% composto por atores e atrizes LGBTQ+.

Com uma trama mais investida na luta pelos direitos LGBTQ+ e sem muito cunho sexual ou apelativo, a primeira fase da série, mesmo apresentando alguns problemas típicos de narrativas do final dos anos 90 para os 2000, era excelente em mostrar LGBTQ+ vivendo como pessoas comuns, trabalhando, estudando, tentando vencer na vida.

Por mais que a série abordasse temas pesados como o HIV ou práticas sexuais nada seguras que infelizmente ainda continuam sendo propagadas na cena noturna LGBTQ+, todos os temas eram de extrema importância para a conscientização sobre essa luta.

The L World / Showtime

Outra série extremamente significativa para o público LGBTQ+ da Showtime foi The L World, série de 6 temporadas, que contava a história de um grupo de amigas lésbicas e bissexuais que viviam em Los Angeles e juntas passavam por uma série eventos, desde festas e desavenças e momentos super emocionantes.

Assim como Queer As Folk, a série foi pioneira em trazer foco à realidade do universo lésbico e bissexual, mostrando diversas questões, incluindo a introdução bem leve às questões do empoderamento feminino, além das questões identidade de gênero, o que era um avanço para a época em que havia sido lançada.

The L World (2019) / Showtime

Esse ano The L World vai ganhar remake com um novo elenco, incluindo personagens trans lésbicas, outra representatividade muito importante e necessária para essa nova geração. A série também vai contar com a atriz trans Jennifer Beals, Katherine Moenning e Leisha Hailey, que juntas estrelaram a série original e agora retornam aos seus papéis de Bette, Shane e Alice.

Sense 8 / Netflix

Foram precisos pelo menos 17 anos após o lançamento de Queer As Folk para que outras séries e filmes LGBTQ+ surgissem na mídia e ainda sim, sempre havia o perigo de trazer representatividade e ter sua série cancelada pelos estúdios e streamings.

Séries como Sense 8 e Orange is The New Black  da Netflix tiveram um papel extremamente importante para trazer a representatividade LGBTQ+ ao mercado streaming, isso significa que essas séries trouxeram personagens gays, lésbicas, bissexuais e trans também em suas narrativas.

Vale reforçar que Sense 8, foi dirigida pelas irmãs Watchowski, ambas trans, o que é extremamente significativo para a indústria televisiva e cinematográfica, principalmente porque aqui, são pessoas LGBTQ+ trazendo representatividade real e positiva para a mídia.

Orange Is The New Black não apenas foi extremamente importante para escancarar as mazelas do sistema carcerário feminino norte americano, como também trouxe à tona toda a realidade de mulheres cis e trans lésbicas dentro do sistema das prisões.

Star Trek Discovery / Netflix

Outra série incrível que trouxe não apenas protagonismo negro, como também representatividade LGBTQ+ de forma positiva, foi Star Trek Discovery da Netflix, que trouxe pela primeira vez em 53 anos da série, um casal gay representado por um brilhante cientista e um enfermeiro.

De forma simples, a sexualidade dos personagens é mostrada, porém não é o foco da trama e isso é o mais importante, pois quando falamos de representatividade, não queremos que as personagens sejam definidas apenas por sua sexualidade, mas que sim, tenham sexualidade clara, porém tenham uma trama e personalidade que vão além desse detalhe.

Em nenhum momento a sexualidade do casal é questionada, mesmo porque eles são um casal tripulante de uma nave espacial que tem como missão literalmente conhecer e estudar novos planetas. A sexualidade deles está ali de forma clara, seja na troca de escovas, beijos durante os turnos ou até mesmo em piadas internas que casais adoram.

Pose / Fox & Netflix

Talvez uma das séries mais importantes para a história LGBTQ+ chamada Pose, dirigida por Ryan Murphy (Glee e AHS), foi lançada em 2018 pela Fox e atualmente está disponível também na Netflix. Fazendo história, a série conta com o maior elenco trans na história da televisão e cinema mundial.

Inspirada no documentário de voguing chamado ‘Paris is Burning’, a série conta a história dos bailes noturnos de vogue que aconteciam em Nova Iorque no final dos anos 80. A cena voguing foi criada pelo público LGBTQ+ negro norte americano e foi uma forma do grupo encontrar seu verdadeiro lar, longe da violência do mundo exterior.

A série aborda muitos temas, principalmente a transfobia, homofobia e estigma que o HIV deixou nos anos 80. Trazer um núcleo principal quase completamente trans foi extremamente importante, mesmo porque ainda hoje, séries e filmes pecam em utilizar atrizes e atores cis para representar personagens trans, enquanto atrizes e atores trans não recebem sequer uma oportunidade para atuar em grandes produções.

Umbrella Academy / Netflix

Atualmente a Netflix, vem trazendo diversos personagens LGBTQ+ em suas tramas, desde Klaus, um jovem gay de Umbrella Academy, que vive em uma família ‘adotiva’ mais do que disfuncional e teve um romance com um soldado no passado à Susie / Theo, homem transexual de O Mundo Sombrio de Sabrina.

Em Umbrella Academy, a sexualidade de Klaus definitivamente não é o foco de sua trama, mesmo porque ele é um dos seres mais poderosos da série, que tem poder de falar com os mortos e seu maior problema é ter que lidar com esse dom / maldição.

Aliás, a ideia de trazer essa representatividade partiu do próprio ator Robert Sheehan e o diretor e músico Gerard Way simplesmente amou a ideia, mesmo porque em seus quadrinhos, o personagem não possuía sexualidade definida.

Já Theo, interpretado pelo ator não-binário Lachlan Watson, passa por muitos problemas em O Mundo Sombrio de Sabrina justamente por ser vítima de transfobia na escola. Lachlan, na vida real, também passou pelo mesmo, principalmente após sua mastectomia (Top Surgery), por isso o ator se identifica tanto com a história de Theo e acha importante que essas facetas sejam mostradas para jovens rapazes trans que ainda não passaram pela transição ou que estão transacionando.

O Mundo Sombrio de Sabrina / Netflix

Além de Theo, a série também conta com personagens pansexuais como o primo de Sabrina entre outros bruxos da Escola das Sombras.  Esse tipo de representatividade em uma série voltada ao público adolescente é extremamente importante, principalmente porque é nessa época que muitos jovens começam a questionar ou entender sua sexualidade.

Outra série teen do streaming chamada Runaways, inspirada em quadrinhos da Marvel, trouxe um casal LGBTQ+ interracial para a trama e as duas adolescentes mutantes além de estarem começando a se descobrir, tem outras questões, como por exemplo, derrotar seus pais que fazem parte de um grupo de supervilões.

Mais uma série que trouxe personagens LGBTQ+ foi a nova adaptação de Desventuras em Série, que promoveu não apenas um personagem não binário na trama, como também um casal gay dono de uma fábrica e diversos outros personagens que pertencem à algumas das letrinhas.

Trazer uma obra infanto-juvenil best seller para uma adaptação e acrescentar essa representatividade também é algo muito importante, mesmo porque ainda não faz muito tempo que representação LGBTQ+ começou a ser pensada na mídia com foco nesse público juvenil.

Steven Universo / Cartoon Network

Para ir mais além, chegamos ao universo infantil das animações. Rebecca Sugar, que se identifica como não-binária, disse que sempre quis se ver representada na mídia, então ela criou uma série chamada Steven Universo para trazer diversas questões desde a sexualidade à identidade de gênero, além de questões sociais para o público infantil.

Antes mesmo de criar a premiada animação do Cartoon Network, quando ainda era bem nova, Rebecca já sabia que não se encaixava no padrão hetero-cis, porém, até então ela nunca havia visto representatividade voltada para jovens como ela e daí surgiu o desejo de criar uma mídia que contemplasse crianças que se sentiam perdidas quanto à suas identidades.

Em um momento tão difícil, onde a homofobia e transfobia são praticamente regras na sociedade, pequenas fagulhas de representatividade LGBTQ+ para crianças podem salvar a vida de muitas delas que se sentem sozinhas até então.

O que esperar para o futuro?

Batwoman / CW Channel

Com a nova série da Batwoman, que estreou nesse mês na rede CW, veremos Barbara Gordon, um dos ícones lésbicos do universo dos quadrinhos da DC Comics finalmente ganhando vida, mas isso não é tudo, pois a marca concorrente Marvel, durante o painel da Comic Con desse ano, também assegurou que a 4ª fase do estúdio trará finalmente personagens canon LGTQ+ ao destaque de suas produções cinematográficas.

Sabemos que a televisão e a mídia tem o papel fundamental de representar a realidade, logo, para essas crianças, jovens e adultos que se deparam com tanta hostilidade no mundo real, a TV e mídia em geral se transformam em uma válvula de escape e um instrumento de apoio, pois com ajuda dessas plataformas, elas veem que não estão sozinhas no mundo, que está tudo bem ser quem elas são, contanto que vivam com dignidade e espalhem amor.

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Pop e Art, Pride

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Vicky Hope Ver tudo

Jornalista, geek de carteirinha, american girl e editora chefe da revista digital Amélie Magazine. Especializada em cultura pop e cinema, atuando há mais de uma década no ramo de entretenimento.

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