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Os 7 momentos em que o Emmy 2019 ampliou vozes e valorizou talentos LGBTQI+

Por Neto Lucon

A 71ª edição Emmy Awards- que premiou os melhores programas de TV dos Estados Unidos de junho de 2018 a maio de 2019 – contou no último dia 22 de setembro, em Los Angeles, com diversos momentos históricos e emocionantes envolvendo representatividade e a população LGBQI+. Um retrato da evolução da TV norte-americana.

Para quem minimiza a conquista, é preciso dizer que personagens LGBTQI+ e artistas LGBQI+ foram apagados durante muito tempo pela TV. Tanto é que o “Television Code” – um guia oficial de bons costumes na TV norte-americana – proibia desde 1952 qualquer referência a outra sexualidade senão a heterossexual. No máximo, apontava pessoas homossexuais como doentes.

Em 1983, o texto do guia que proibia sobretudo personagens e pessoas LGBTs na TV foi alterado. Mas o retrato de pessoas LGBQI+ era mínimo e, ao mesmo tempo, com a proposta caricatural de ser alvo de chacota, apontar certa vilania ou se manter no armário. Ao longo dos anos, na medida em que a população LGBQI+ foi humanizada e teve seus direitos reconhecidos, a história começou a mudar.

Tanto que atualmente há um órgão que estuda, pesquisa estimula a presença de personagens e artistas LGBQI+ nas produções artísticas, a GLAAD.  Segundo a instituição, nos últimos 10 anos o número de personagens LGBTQI+ nos principais canais norte-americanos aumentou de 1,1% para 8,8%. Isso faz com que a Academia de Artes de Ciências Televisivas (ATAS) também tenha mais trabalhos para avaliar e, automaticamente, poder indicar e premiar.

Diante deste passado sombrio e presente engatinhando, voltamos ao Emmy e observamos 07 grandes momentos da premiação em 2019:

1- Vitória histórica de Billy Porter

Destaque na série Pose, Billy Porter venceu como o “Melhor Ator em Série dramática” como Pray-Tell. Ele é o primeiro homem negro abertamente gay a conquistar um prêmio na categoria. Em seu discurso, Porter esbanjou emoção: “James Baldwin (dramaturgo) disse que levou muitos anos pra vomitar todo o lixo que ensinaram sobre ele mesmo. Eu tenho o direito de estar aqui, todos nós temos esse direito”.

“Eu sinto que visibilidade e representatividade são as únicas coisas que criam mudanças. Quando a gente é visível a gente tem o poder de criar empatia pelo jeito que contamos uma história. Eu sei que ser negro e abertamente gay nesta posição e falando sobre isto é a mudança. Eu espero que jovens queer de todas as cores possam olhar para mim e saber que eles podem”, continuou.

2- Indicação e protesto de Laverne Cox

Laverne Cox foi a única mulher transexual a ser indicada como “Melhor atriz Convidada de Série Dramática” pelo papel na série “Orange Is The New Black”. È a terceira vez que ela é indicada. A artista que vive Sophia Burset não venceu, mas aproveitou a visibilidade para protestar.

A bolsa que levou trazia as cores das bandeiras LGBT e trans e os dizeres: “Trans Is Beautiful”, “8 de outubro” e Suprema Corte. Uma referência à data em que Donald Trump pretende autorizar que pessoas LGBTQI+ percam a proteção legal e possam ser demitidas por LGBTfobia.

“É uma benção incrível quando eu recebi minha indicação neste ano, minha terceira, eu pensei, isso é estranho. Eu pensei que tinha que ter uma razão maior. Eu pensei, talvez seja sobre esse caso”

Laverne Cox ao canal E!

3- Patricia Arquette chora morte da irmã trans Alexis

Ao vencer como “Melhor Atriz coadjuvante”, a atriz cis Patricia Arquette aproveitou o discurso para falar sobre a saudade que sente da irmã: Alexis Arquette, atriz trans que morreu em 2016 após uma parada cardíaca aos 47 anos. Na fala, Patricia declarou que está grata por, aos 50 anos, ter um dos melhores momentos de sua vida. Mas admitiu: “Estou de luto todos os dias da minha vida. Alexis, toda a minha vida será para você, até que nós mudemos o mundo e as pessoas trans não sejam perseguidas”, declarou.

Um momento de afeto e amor às pessoas trans. Ela finalizou pedindo ainda para que empreguem pessoas trans, contrariando as políticas de Trump.

4- RuPaul no topo

Se antes a drag queen RuPaul não era indicada por pura injustiça, hoje ela já acumula alguns Emmys. Nesta edição, Ru foi eleita pela quarta vez consecutiva como “melhor apresentador de reality show” por seu “RuPau’s Drag”. O programa ainda levou as estatuetas “de melhor cabelo (de atração multicâmera) e “melhor figurino (de variedades, não ficção ou reality show) nos prêmios do dia 14. E, no dia 15, também faturou o esperado prêmio de “melhor programa de competição”. Quanta força na peruca! Quer dizer…

5- Indya Moore arrasa no tapete-vermelho

Se o tapete-vermelho é utilizado para closes fúteis, isso não se repetiu com Indya Moore, atriz da série Pose. Ela usou seu tempo no red carpet e entrevista à Variety para falar sobre a representatividade trans. “Nunca houve tanta visibilidade para pessoas trans como estamos tendo agora. O essencial para pessoas trans e queer é sobre o amor e aceitação para que estejam seguros. Espero que as pessoas ao nosso redor, que influenciam nossas vidas, estejam envolvidas nisso”.

+ do discurso

Indya ainda deu um recado às pessoas trans que estão com receio do retrocesso: “Você não está sozinha, não tenha medo. Acredite em você mesma, primeiro do que qualquer outra pessoa. O valor da sua vida não pode ser medido por nenhuma opinião alheia. Eu vejo você. Nós somos você. Você vai sobreviver, acredite em si mesmo. Eu te amo, nós te amamos. E novamente, nós somos como você. Se você assistiu Pose, muitas dessas atrizes interpretando personagem saíram há pouco tempo das histórias que contam. Você merece ter acesso aos seus sonhos, estar protegido, ser amado por seus amigos, família e comunidade”.

6- Queer Eye premiada!

Outra produção toda LGBT que faturou prêmios foi a “Queer Eye”, eleita em quatro categorias. São elas: “Melhor reality show estruturado”, “Melhor Direção”, “Melhor Edição” e “Melhor Casting no segmento Reality show”. No tapete vermelhor, Jonathan Van Ness apareceu com vestido e roubou a cena. Jonathan declarou que a amizade e apoio de Tan France, Karamo Brown Berk, e Antoni Porowski o ensina muito. “Nos confiamos e nos ajudamos demais”. Fofos!

7- Hannah Gadsby e a celebração do humor militante

A comediante australiana e lésbica Hannah Gadsby, do stand-up “Nanett” (está na Netflix!), recebeu duas indicações, como “Melhor Roteiro para Especial de Varidade, no qual venceu, e “Melhor Especial de Variedade”. A obra é uma verdadeira aula que passa pela comédia e militância. É por isso que a indicação da artista merece ser celebrada, uma vez que ela traz uma nova proposta para o humor, em que defende que o “humor autodepreciativo não é humildade, é humilhação”.

+ Manas lésbicas

Ellen DeGeneres concorreu na categoria de Melhor Apresentador de Reality ou Competição por “Ellen’s Game of Games”. E Jodie Comer e Sandra Oh foram indicadas para “Melhor Atriz em Série Dramática pelos papeis no suspense com temática lésbica Killing Eve.

Sendo assim, as produções e as premiações continuam a mostrar a força e o poder de artistas LGBTQI+ e seus trabalhos. Sobretudo em um momento em que o conservadorismo, a caretice e a LGBTfobia estão no poder. Enquanto Trump tenta implementar leis que tiram os direitos da população LGBQI+, que a arte continue cumprindo o seu papel de questionar, derrubar preconceitos, transformar. E que os artistas continuem sendo ovacionados, valorizados e premiados!  

Leia mais: A importância LGBTQ nas séries de TV

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