Descer a Avenida da Liberdade durante a Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa com António Serzedelo foi, para mim, um daqueles momentos que ficam gravados não pela grandiosidade do evento em si, mas pela presença humana que o atravessa. Ver um homem de 81 anos ainda a caminhar, a falar e a insistir na necessidade de continuar a lutar pelos direitos da comunidade LGBTQIA+ é, por si só, uma forma de memória viva. Não é apenas testemunho histórico — é continuidade ativa de uma história que ainda não terminou.
António Serzedelo não é apenas uma figura simbólica. É o mais antigo ativista gay vivo em Portugal, autor do primeiro manifesto “Liberdade para as Minorias Sexuais”, publicado a 13 de maio de 1974, poucos dias depois da Revolução de Abril. Fundador da Opus Gay — hoje Opus Diversidades — construiu ao longo de décadas uma visão clara: os direitos não se garantem apenas quando são conquistados, garantem-se quando são defendidos todos os dias. E isso exige presença, exige rua, exige persistência.
Durante a marcha, essa ideia ganha um peso diferente. O ambiente não é apenas festivo, embora a energia coletiva seja forte e visível. Há também uma consciência política que atravessa os cartazes, as palavras de ordem, os corpos que ocupam o espaço público. A Avenida da Liberdade transforma-se num corredor onde a visibilidade não é decorativa, é reivindicativa. E ao lado de alguém como Serzedelo, essa dimensão histórica torna-se ainda mais evidente.
Ele insiste numa leitura do presente que não é confortável. Para ele, não estamos simplesmente num período de continuidade, mas num momento de transformação profunda — quase de rutura de paradigma. Aquilo que antes era considerado garantido já não pode ser encarado como estável. Direitos que pareciam consolidados mostram sinais de fragilidade em diferentes contextos sociais e políticos. E aquilo que emerge no seu lugar ainda não está completamente definido. Nesse espaço de incerteza, a vigilância torna-se necessária.

É essa perceção que alimenta o seu apelo à rua, à mobilização e à ação coletiva. Não apenas para avançar em novas conquistas, mas para proteger aquilo que já foi alcançado. A ideia de regressão social, frequentemente evocada por ativistas e organizações, não é abstrata — traduz-se em debates políticos, em discursos públicos e em mudanças subtis mas reais no clima social.
A 27.ª Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa, realizada no sábado, 6 de junho, foi um reflexo dessa tensão entre celebração e alerta. Com uma adesão estimada em cerca de 60 mil pessoas, a marcha percorreu a Avenida da Liberdade sob o lema “Existimos e Resistimos”, terminando no Terreiro do Paço. Mais do que uma manifestação festiva, o evento afirmou-se como um espaço de afirmação política e de presença pública massiva.
O lema escolhido não é casual. “Existimos e Resistimos” traduz uma ideia simples, mas poderosa: a existência continua a ser, em muitos contextos, um ato de resistência. Não apenas contra violência explícita, mas também contra formas mais subtis de apagamento, desvalorização ou retrocesso institucional.
Num mundo onde se observa, em vários países, uma intensificação de discursos anti-LGBTQIA+ e tentativas de limitar direitos adquiridos, a mobilização ganha outro significado. Não se trata apenas de celebrar diversidade, mas de manter visível aquilo que pode ser empurrado para fora do espaço público.
A presença de dezenas de milhares de pessoas numa marcha como esta não resolve esses desafios por si só. Mas demonstra algo essencial: a capacidade de organização, solidariedade e continuidade de uma comunidade que não está disposta a desaparecer do debate público nem a abdicar dos seus direitos.
E talvez seja esse o ponto central. A luta não se encerra quando se conquistam direitos formais. Ela prolonga-se na sua defesa, na sua atualização e na sua proteção. É por isso que a rua continua a ser necessária. É por isso que a memória de quem lutou antes continua presente. E é por isso que, mesmo em contextos de cansaço ou incerteza, a marcha continua.
A luta, afinal, não terminou. Apenas mudou de forma.