Dar voz à homofobia admin Janeiro 18, 2026

Dar voz à homofobia

Pensei bastante antes de escrever sobre isto. Não por dúvida sobre o que aconteceu, mas por saber como estas coisas se multiplicam quando ganham visibilidade. Há sempre quem diga para ignorar, para não alimentar, para não “dar palco”. Mas há situações em que o silêncio não protege ninguém — apenas prolonga o problema.

O que descrevo não é excecional. É repetido, quase previsível, e isso talvez seja o mais inquietante. Aconteceu depois da 27.ª Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa, um momento que deveria ser de celebração e presença coletiva. Como muitas outras pessoas, partilhei imagens desse dia: roupa pensada para o momento, cores da bandeira, símbolos, expressões de orgulho. Não há nada de extraordinário nisso — há apenas a vontade de existir em público como se é.

A resposta, porém, não veio em forma de diálogo. Veio em forma de volume. Primeiro uma fotografia, depois um vídeo. Em poucas horas, o espaço digital transformou-se noutra coisa. Centenas de comentários, depois mais de novecentos, depois mais de mil. Mensagens dirigidas não apenas à pessoa visível na imagem, mas à família, à identidade, à existência. A escala não é um detalhe — é parte do impacto.

É importante dizer isto com clareza: não se trata de um conflito isolado entre desconhecidos na internet. Trata-se de um padrão de agressão dirigido a pessoas LGBTQIA+ quando se tornam visíveis. A exposição pública, mesmo em contextos de celebração, continua a desencadear respostas violentas, muitas vezes anónimas, muitas vezes repetitivas, quase automatizadas na forma como reproduzem insultos e desumanização.

A forma como se aprende a lidar com isto também diz muito sobre o estado das coisas. Há uma espécie de habituação forçada, uma camada emocional que se constrói para sobreviver ao ruído. Ignorar, rir, seguir em frente — tudo isso funciona como mecanismo de defesa. Mas não elimina o impacto. Apenas o desloca para dentro.

E há um ponto que raramente é discutido com honestidade: a ideia de que “não dar importância” resolve o problema parte do privilégio de não ser o alvo. Para quem está do outro lado, não é uma questão de sensibilidade excessiva, mas de exposição constante a padrões de hostilidade que se repetem em diferentes espaços — redes sociais, escolas, trabalho, rua.

O mais difícil, no entanto, não é apenas a agressão direta. É a forma como ela se normaliza. Como se o custo de existir publicamente fosse aceitável. Como se a responsabilidade de evitar o conflito fosse sempre de quem já está em posição vulnerável. Como se a solução fosse recuar, esconder, reduzir presença.

Essa inversão é silenciosa, mas eficaz. Em vez de se questionar a origem da violência, questiona-se a visibilidade de quem a sofre. Em vez de se responsabilizar quem agride, sugere-se que o problema está em quem aparece.

E ainda assim, há outro elemento que atravessa estas experiências: a dimensão coletiva. Não se trata apenas de um ataque individual, mesmo quando dirigido a uma pessoa concreta. É uma repetição dirigida a uma comunidade inteira. A mensagem não é só “a ti”, mas “a quem és”.

É por isso que estas situações ultrapassam o âmbito pessoal. Tornam-se um espelho de algo mais amplo — a persistência da homofobia em espaços que muitas vezes se querem imaginar neutros ou resolvidos. E quando isto acontece em páginas públicas, em conteúdos de celebração, em momentos de visibilidade positiva, o contraste torna-se ainda mais evidente.

Há também um outro lado menos confortável de dizer: a forma como a resposta coletiva falha em momentos como estes. Não por ausência total de apoio, mas por dispersão. Porque é mais fácil assistir do que intervir, mais fácil concordar em privado do que sustentar presença pública quando há conflito. Essa assimetria pesa. E permite que a agressão se organize mais rapidamente do que a proteção.

No meio disto, sobra uma pergunta que não é retórica: o que significa liberdade de ser, se essa liberdade implica custo constante de exposição ao ódio?

A resposta não é simples, mas há um ponto de partida claro. Liberdade não pode significar apenas o direito de existir quando isso não incomoda ninguém. E proteção não pode ser uma responsabilidade individual de quem já está em posição de maior vulnerabilidade.

O que está em causa não é uma história pessoal isolada. É um padrão social que se repete e se amplifica nas redes digitais, onde a escala do ataque pode ser rápida, massiva e desproporcional. E enquanto isso for tratado como ruído inevitável, em vez de problema estrutural, continuará a existir.

No fim, não se trata de coragem individual nem de resistência isolada. Trata-se de algo mais simples e mais exigente ao mesmo tempo: a capacidade de reconhecer violência quando ela acontece, mesmo quando não nos atinge diretamente, e a disposição de não a normalizar como parte inevitável do espaço público.

Porque enquanto existir alguém a ser atacado por existir, não é o silêncio que resolve — é a resposta coletiva.