Livro

Por um lugar ao Sol travestis e transexuais inseridas no mercado formal de trabalho
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A obra literária escrita pelo jornalista Neto Lucon traz trajetórias de vidas de travestis e transexuais que driblaram o preconceito e se inseriram no mercado formal de trabalho. Cinco profissões, cinco vidas, cinco trans: exemplos de novos horizontes e de um espaço ao sol.
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INTRODUÇÃO  
O celular que acaba de sair da fábrica vai para as mãos de um empresário, que faz uma chamada internacional de negócios. Ele, que se dirigia a uma palestra na faculdade de direito, deixou o filho mais novo em um hospital de Campinas. Adoentado, passa pelos cuidados da enfermeira Géia, que à noite faz shows em uma danceteria frequentada pelo primogênito. 
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Não muito distante, um intelectual levava nos braços o último lançamento sobre o tema “comportamento”, escrito pela artista Claudia Wonder. De volta para casa, encontrou a educadora social Janaina, que orientava um garoto de programa a usar preservativos. Cumprimentou-a e prosseguiu em sua rotina.
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No auditório de direito, o empresário chegou atrasado. Desligou o celular e sentou ao lado da policial Mihara, que planejava outro cargo dentro do funcionalismo público. Ao terminar, cumprimentou os palestrantes, se despediu de Mihara e, antes de buscar o filho no hospital, dirigiu-se à avenida freqüentada por garotos de programas.
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No emaranhado de vidas e histórias recorrentes de nossa sociedade, uma categoria discriminada está presente e atuante: transexuais e travestis, que driblam preconceitos, vencem estereótipos, quebram estigmas e levam uma vida considerada comum ao estarem inseridas no mercado formal de trabalho.
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Thayná Rodrigues é travesti e trabalha na produção de uma empresa de celulares, Géia Borghi é enfermeira e artista, Claudia Wonder atua como escritora e cantora, Janaina Lima é pedagoga e educadora social e Mihara, além de policial, é universitária do curso de direito.
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Produção, saúde, comunicação, educação e segurança. Cinco transgêneros, cinco histórias, cinco exemplos, que quebram o estereótipo das travestis e transexuais da profissão do sexo, da marginalidade e das profissões feminilizantes como cabeleireira e manicure.
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Como conseguiram? De qual maneira enfrentaram uma entrevista de emprego? Como o mercado de trabalho recebe ou expulsa os trabalhadores que se definem “travestis” no Brasil? Sofrem preconceito entre os colegas de trabalho? Já tiveram que trabalhar, antes, com programas sexuais? Como abandonaram a vida nas ruas? A (não) aceitação da família contribui para o sucesso profissional? Quais são as realizações e projetos? Quais e quem foram suas referências? Quais são seus novos sonhos?
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Neste conto de fadas da vida real, o maior inimigo pode ser o próximo. E a fada madrinha, a própria coragem e determinação.

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Reportagem sobre o livro no site Mix Brasil

Jornalista escreve livro-reportagem sobre trans inseridas no mercado de trabalho (por Hélio Filho)
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Segundo a Articulação Nacional de Travestis (Antra), cerca de 90% dessa população sobrevive fazendo programas, mas é justamente esse número de 10% o foco do livro-reportagem “Por um lugar ao sol”, escrito pelo jornalista Neto Lucon depois de uma análise midiática – onde comprovou que as trans sempre aparecem de forma negativa e relacionadas à prostituição.

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Dividida em seis capítulos, a obra usa cinco histórias de trans de sucesso fora das ruas que devem servir de ótimo exemplo para outras fazerem o mesmo. Depois de cinco anos analisando a repercussão dos trabalhos da travesti Bianca Soares (ex-participante da Casa dos Artistas) na imprensa, o autor chegou à conclusão de que era necessário mostrar o outro lado do mundo trans, longe de estereótipos. “As pessoas se assustam quando digo que existem travestis professoras, enfermeiras e policiais. O livro é uma boa oportunidade para reavaliar valores e servir de referência para futuras trans”, conta Neto.

Ele acredita que “o jornalismo pode ser um importante transformador social” e embasa seu livro-reportagem com depoimentos de travestis e transexuais e trabalhos de cientistas sociais, antropólogos e jornalistas, como Marcos Benedetti, Larissa Pelucio e Hélio Silva. Entre as questões abordadas está o polêmico uso do banheiro feminino ou masculino, o uso do nome social, os preconceitos de uma entrevista de emprego, o respeito e contato com os colegas e clientes, a falta de incentivo à escolaridade e o caminho da prostituição.

No sexto e último capítulo, Neto relata como foi a experiência que realizou telefonando para vários anúncios de emprego e se dizendo uma candidata travesti à vaga. “O resultado é assustador, mas, em alguns casos, demonstra esperança”, revela.
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