Rute Bianca: “Quem?” — memória, corpo e resistência na primeira pessoa admin Fevereiro 28, 2026

Rute Bianca: “Quem?” — memória, corpo e resistência na primeira pessoa

Aos 20 anos, deixou Portugal e partiu para Paris com um objetivo claro: tornar-se quem sentia já ser. Esse gesto, que hoje pode ser lido com maior abertura social, implicava então um grau elevado de risco, precariedade e solidão. Foi na capital francesa que começou um percurso de transformação física e identitária, trabalhando como vedette em algumas das casas de espetáculo mais conhecidas da Europa e vivendo entre França, Espanha, Suíça, Bélgica, Alemanha e Países Baixos.

Em 1983, Rute Bianca tornou-se uma das primeiras pessoas a submeter-se a uma cirurgia de redesignação sexual em Casablanca, um processo que descreve como determinante, mas também marcado por violência, complicações médicas e consequências duradouras. No regresso a Portugal, nos anos seguintes, começou a dar entrevistas à comunicação social, assumindo um papel pioneiro na visibilidade das pessoas trans no espaço público português, numa época em que o tema permanecia largamente invisível ou tratado sob estigmas sociais.

Estas experiências, acumuladas ao longo de décadas, são agora reunidas no livro “Quem?”, a sua autobiografia, editada com a colaboração de Jó Bernardo, figura central na história do ativismo trans em Portugal. A obra será apresentada no Porto e recupera episódios de vida pessoal, profissional e política, atravessando diferentes países, contextos e fases da construção identitária da autora.

No centro do livro está também o percurso de escrita que começou anos antes da publicação, através de um blog iniciado em 2010. Rute Bianca explica que o impulso inicial para escrever surgiu de forma inesperada, a partir de uma crítica publicada online que a afetou profundamente. A resposta emocional levou-a a escrever e, mais tarde, a transformar essa escrita numa prática contínua de registo autobiográfico.

A passagem do blog para o livro surge, assim, como um processo de consolidação de memória pessoal e coletiva. A autora refere que sempre teve o desejo de ver a sua história publicada, motivada também pela leitura de outras narrativas trans. O reconhecimento de profissionais da área da saúde e do ativismo reforçou a decisão de avançar para uma obra estruturada.

A autobiografia não evita os aspetos mais difíceis do seu percurso. Pelo contrário, inclui relatos de intervenções cirúrgicas, tratamentos hormonais e processos de modificação corporal vividos com intensidade física e emocional. Rute Bianca sublinha que estas decisões não foram tomadas de forma ligeira, mas sim como resposta a uma vivência interna de identidade que procurava correspondência no exterior. A construção do corpo, neste contexto, é apresentada como um processo de alinhamento entre perceção interna e expressão externa, ainda que atravessado por dor, risco e sacrifício.

O período vivido em Paris é descrito como particularmente determinante. Para muitas pessoas trans da época, a cidade funcionava como um espaço onde existiam redes informais de acesso a tratamentos e acompanhamento médico inexistentes em Portugal. No entanto, esse acesso implicava também condições de grande precariedade, incluindo pobreza, instabilidade habitacional e sobrevivência em contextos difíceis. A autora descreve esse período como simultaneamente libertador e duro, marcado por esforço constante e vulnerabilidade.

Um dos momentos mais marcantes relatados é a cirurgia realizada em Marrocos, em 1983. Rute Bianca descreve a experiência como uma forma de renascimento identitário, embora também atravesse esse relato com referências a violência, sofrimento físico e dificuldades no processo de recuperação. O impacto emocional desse momento é apresentado como central na construção da sua identidade vivida.

Após o regresso definitivo a Portugal, a autora confrontou-se com um contexto social que descreve como difícil e frequentemente hostil. Apesar disso, afirma ter encontrado também momentos de aceitação, sobretudo no seio familiar, algo que reconhece como não sendo a realidade da maioria das pessoas trans da sua geração. Essa dimensão de privilégio relativo é destacada ao lado da consciência das dificuldades enfrentadas por outras pessoas sem apoio familiar.

O livro aborda também a relação com o companheiro Zé Luís, apresentada como uma história de amor marcada por fortes pressões externas. A relação enfrentou rejeição social, dificuldades laborais e conflitos familiares, num contexto em que a exposição pública da identidade trans implicava consequências diretas na vida quotidiana. A autora descreve esse período como emocionalmente intenso, atravessado por momentos de apoio mútuo, mas também por instabilidade e dificuldades associadas a estigmas sociais profundos.

No plano do ativismo, Rute Bianca reconhece que a sua intervenção pública começou antes mesmo de uma consciência formal de ativismo. As primeiras entrevistas na televisão, em 1992, surgem como parte de um processo de exposição pública que contribuiu para a discussão da realidade trans em Portugal. Numa altura em que o tema era pouco debatido, a presença mediática funcionava como ferramenta de visibilidade e, simultaneamente, de confronto com preconceitos sociais.

A autora considera que esse trabalho de exposição mediática teve impacto na forma como a sociedade portuguesa passou a olhar para as pessoas trans, ainda que reconheça que a mudança tenha sido gradual e incompleta. As marchas do orgulho são vistas como continuidade desse processo, ampliando a visibilidade iniciada nos meios de comunicação tradicionais.

Na fase atual da sua vida, Rute Bianca reflete sobre o envelhecimento enquanto mulher trans, sublinhando a importância da memória pessoal como forma de preservação da identidade e da saúde emocional. A relação com o passado é descrita não como algo encerrado, mas como presença constante que ajuda a compreender o percurso vivido.

Quanto ao futuro, surge a possibilidade de adaptação da sua história ao cinema, num projeto desenvolvido pelo realizador Thiago Carvalhaes. A proposta, inicialmente pensada como documentário, evoluiu para um projeto mais amplo, com gravações realizadas em diferentes países e um conjunto extenso de entrevistas que ainda está em desenvolvimento.

“Quem?” surge, assim, não apenas como autobiografia individual, mas como registo de um percurso que atravessa várias décadas de transformações sociais, políticas e culturais. A história de Rute Bianca inscreve-se numa memória mais ampla da visibilidade trans em Portugal, marcada por conquistas, violência, resistência e a constante negociação entre identidade pessoal e reconhecimento público.